segunda-feira, 15 de junho de 2026

                                       Tânia

    Um homem do campo encostou sua bicicleta de maneira descontraída em um cercadinho sob a sombra de um pé de algaroba, como se estivesse deixando ali um animal de montaria. Ao chegar ao barzinho, Italo percebeu que vinha para conversar com ele e pediu uma cerveja, como de costume. Não era para ser consultado nem solicitado, mas para uma palavra. Habitual na interação com os eleitores. O jovem vereador prontamente reconheceu. Era Nildo, que tinha oferecido um forte suporte durante sua campanha e se tornado seu seguidor nas ideias.

— Queria saber o que aconteceu entre o senhor e minha filha. Peço desculpas pela ousadia da menina.

Foi como mergulhar num freezer depois de sair de uma sauna. O choque foi imediato. Felizmente, Nildo logo acrescentou que tudo não passara de um excesso de entusiasmo juvenil durante a campanha. Assim, Ítalo não precisou se aprofundar em explicações que, sem dúvida, soariam absurdas.

Apenas ele sabia o quanto aquele episódio havia reacendido algo do jovem apaixonado que fora um dia. Contido o princípio de incêndio, os dois retomaram as conversas habituais. Ainda assim, Ítalo percebeu que havia ali menos um cabo eleitoral e mais um pai solo preocupado com a filha adolescente. Afinal, criava a garota sem a figura da mãe.

Na despedida, Nildo voltou a pedir desculpas. E Ítalo ficou pensando no que a garota teria contado ao pai, de tanto interessante,  sobre a recepção calorosa que recebera — os abraços, os beijos no rosto, os gestos impulsivos próprios da idade. O que o atormentava era a lembrança daquele breve e acidental encontro de bocas, ocorrido em meio à confusão das despedidas. Não podia se permitir ceder àquela fraqueza. Dependendo de como fosse vista, poderia ser interpretada como a sedução de uma jovem vulnerável — ou algo ainda pior.

         Viu Nildo pegar sua Monark e se afastar, acenando com a cabeça em resposta aos transeuntes, sentindo-se com o dever cumprido. Então, de repente, se lembrou de que ela teria retornado e se encontrado com ele naquele mesmo barzinho. Estavam animados com o jogo que assistiam, tomando cerveja, quando se depararam e se grudaram num beijo, agora com a suavidade professoral do momento.

         Dias depois, Nildo apareceu com um convite de casamento de Tânia com um rapaz da cidade:

         - Ela faz questão que o senhor vá.

         - Claro, Nildo!

 


terça-feira, 9 de junho de 2026

                       Motivo da borboletinha amarela de bando


 borboleta amarela

Era para grandes voos, com o queixo erguido, durante o ensaio, mas a vida era assim:

- De repente, você se vê na situação de ter que cobrar o pênalti – Ítalo dizia para Selmas.

E acrescentava:

 - Queria brincar, provocar, chamar o colega, mas era você e era sério, o tempo estava passando, o estádio estava cheio, só agora você percebeu isso, o que aconteceu, aconteceu. Continuava em frente, saía de baixo, pois você estava na frente, atrapalhava, mas a foto era tirada mesmo assim, sem dar tempo de arrumar o colarinho e se recompor, como estava o emoldurado secular.

Para superar tal imbróglio, ele iria adotar o motivo da borboletinha amarela de bando e pegar o ermo de estrada a partir dali.

- Como é o caso dessa borboletinha amarela, Ítalo? – quis saber Selmas.

Os dois conversavam à mesa do café em um domingo. Depois de tomar um gole e descansar a xícara sobre a mesa, Ítalo contou uma história breve, lembrando-se de quando era criança e se despedia do motorista do caminhão da Bela Vista, que havia deixado alguns produtos alimentícios enlatados e estava prestes a seguir seu caminho de volta. Ao acenar com a mão aberta em um gesto de despedida, uma pequena borboleta amarela em bando apareceu.  Foi um momento de felicidade.

- Momento nostálgico: infância, família no lar, uma situação de conforto, você quer dizer. E daí? – disse Selmas.

- Guarde sempre consigo. Em certos momentos de peso, você não vai ter que enfrentar o touro?

- Sim, mas e daí?

- Quando a assombração vier para te envolver, mude de foco.

- Escapar?

- Vá despertar num lugar aprazível, respirar seu ar puro, sentir seu perfume, e não ficar lamentando o leite derramado.

- Então essa borboletinha vai apagar toda essa frustração?

- Ao contrário, com a imagem do lepidóptero você vai longe. Depois, a vida é grande, comporta recuperações, mudanças e, em outras nuances, reparos camaleônicos, além de sopros de esquecimentos.

- Vai longe, hein?

-  Isso é misericórdia de Deus em nosso favor. Para tolerância de possíveis dores, nos valemos da fé e dessas imagens que trazemos guardadas. Eu li outro dia uma crônica de João Ubaldo Ribeiro e entendi o ponto de vista dele.

- Sobre o quê?

- Ele lutava contra o vício do álcool. Chegou a um ponto que ele teve que se apegar fortemente com Nossa Senhora e conseguiu vencer. Ficou livre e durou mais algum tempo.

- Bonito, mas é triste.

- Por isso guardo dentro de mim essa imagem, entre outras, a de crianças retornando para casa, cada uma segurando seu próprio sorvete de casquinha. Enquanto o pai finalizava o pagamento, o menino começou a chorar porque seu sorvete havia caído devido ao movimento do braço. Então, sua irmãzinha mais velha deixou que ele desse umas chupadinhas no dela. Uma canção de Waldick Soriano, ele saberia depois,  era tocada no alto-falante da sorveteria, o único ponto da cidade. Foi uma cena emoldurada de felicidade passageira.

Selmas colocou a mão no seu ombro e perguntou, olhos nos olhos:

- E aí, você vai cobrar o pênalti ou o quê?

- Desperdicei vários deles e agora esqueci, não vou me desgastar, estou em outra.