Raissa
Ele vinha meio trôpego, chapéu prestes
a cair, apoiado por um instante com a mão. Estava à procura da filha, uma das
jovens que dançavam, escondida, no “horas dançantes”, evento realizado na
residência de alguém conhecido na comunidade. Na verdade, serviam para treinar
os rapazes ainda imberbes, nos bailes de festinhas. Ítalo notou que uma garota
cochichou com outra, provavelmente para alertar Raissa, lá na sala, de que ela
estava prestes a se meter em encrenca:
- Eu que não vou me meter nisso, que ela
tomou meu namorado pra outra.
A
garota era par preferido da moçada. Tornou-se costume do velho sair
desembestado para dar conta da filha mocinha. Ítalo, por diversas vezes, cansou
de vê-lo chegar assim, e ela, escorregadia pela porta do fundo, desgrudava-se,
temerosa, dos seus braços:
- É meu pai. Tenho que ir.
Mas estava ali apenas observando,
pronto para partir, pois já era tarde e já não contava mais com chance de
arrumar uma parceira. Era preciso voltar àquela penumbra e avisar a Raissa,
coitadinha. A coleguinha já decidira a questão de forma vingativa, em vez de
agir com coleguismo. E ela se divertia como parceira de dança nos bailes, mas
ficava aterrorizada com os castigos do pai. Faria esse favor. E rápido, pois,
caso contrário, com o pai naquele estado, haveria confusão na entrada do baile.
Ela, toda arrumada e maquiada, ficaria morta de vergonha. Apesar de contar com a
solidariedade masculina, por certo o clima dos demais seguiria a mesma linha de
mesquinhez preconizada, motivo para arrastar comentários negativos durante a
semana. Com essa reflexão, Ítalo sentiu uma onda de heroísmo e decidiu entrar
no recinto, pedindo licença entre as duplas de sonhadores que curtiam a música
dos Beatles, que enchia todo o ambiente.
Conseguiu segredar algo no ouvido de Raissa, que curvou meio sorridente
e se fechou de vez em seguida, largando seu parceiro no salão. Para completar,
puxou Ítalo para o fundo pelo braço:
- Logo hoje! Vamos correr, que ele não
me acha e vai embora.
Sentados na mureta de um velho casarão
desabitado, Rai contou um pouco de sua vida, choramingando nos seus braços,
filha mais nova de seu Antenor.
- Eu é que devia estar olhando ele... não
aguenta bebida...
Ajudava a mãe em[N1]
casa, mas dava suas escapadinhas de garota, não era de ferro. Os irmãos de Ray
eram todos casados, tinham lá suas preocupações.
- Não chore não, boba. Fique
tranquila, que nada vai acontecer - era a vez do herói.
Ainda apanhava do pai, se queria saber, não[N2]
tinha segredo nisso não. Não adiantava contar do seu serviço de casa, antes do ginásio.
Não era uma vadia, uma irresponsável qualquer. Havia programado com os amigos,
jogo limpo. Agora passaria a encontros clandestinos?
- Mas, segundo umas meninas, você está
namorando para impedir que um namore outra, não é isso?
- Mas nada escondido, normal – disse
limpando o molhado do rosto com as mãos.
Ítalo segurou suas mãos e as beijou; ele
não podia deixar essa chance passar. Em seguida, buscou seus lábios para ousar
um beijo, que despertou a coragem de expressar seu desejo.
Ao retornar para casa, parou em um bar
para comprar chiclete e escutou alguém falando com orgulho “Raissa, minha
filha”. Era seu Antenor tomando uma "saideira" enquanto conversava exaltando
sua filha, que terminaria o ginasial com uma festa de formatura em dezembro.
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