sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

 

 

Raissa

 

         Ele vinha meio trôpego, chapéu prestes a cair, apoiado por um instante com a mão. Estava à procura da filha, uma das jovens que dançavam, escondida, no “horas dançantes”, evento realizado na residência de alguém conhecido na comunidade. Na verdade, serviam para treinar os rapazes ainda imberbes, nos bailes de festinhas. Ítalo notou que uma garota cochichou com outra, provavelmente para alertar Raissa, lá na sala, de que ela estava prestes a se meter em encrenca:

- Eu que não vou me meter nisso, que ela tomou meu namorado pra outra.

 A garota era par preferido da moçada. Tornou-se costume do velho sair desembestado para dar conta da filha mocinha. Ítalo, por diversas vezes, cansou de vê-lo chegar assim, e ela, escorregadia pela porta do fundo, desgrudava-se, temerosa, dos seus braços:

         - É meu pai. Tenho que ir.

         Mas estava ali apenas observando, pronto para partir, pois já era tarde e já não contava mais com chance de arrumar uma parceira. Era preciso voltar àquela penumbra e avisar a Raissa, coitadinha. A coleguinha já decidira a questão de forma vingativa, em vez de agir com coleguismo. E ela se divertia como parceira de dança nos bailes, mas ficava aterrorizada com os castigos do pai. Faria esse favor. E rápido, pois, caso contrário, com o pai naquele estado, haveria confusão na entrada do baile. Ela, toda arrumada e maquiada, ficaria morta de vergonha. Apesar de contar com a solidariedade masculina, por certo o clima dos demais seguiria a mesma linha de mesquinhez preconizada, motivo para arrastar comentários negativos durante a semana. Com essa reflexão, Ítalo sentiu uma onda de heroísmo e decidiu entrar no recinto, pedindo licença entre as duplas de sonhadores que curtiam a música dos Beatles, que enchia todo o ambiente.  Conseguiu segredar algo no ouvido de Raissa, que curvou meio sorridente e se fechou de vez em seguida, largando seu parceiro no salão. Para completar, puxou Ítalo para o fundo pelo braço:

         - Logo hoje! Vamos correr, que ele não me acha e vai embora.

         Sentados na mureta de um velho casarão desabitado, Rai contou um pouco de sua vida, choramingando nos seus braços, filha mais nova de seu Antenor.

- Eu é que devia estar olhando ele... não aguenta bebida...

Ajudava a mãe em[N1]  casa, mas dava suas escapadinhas de garota, não era de ferro. Os irmãos de Ray eram todos casados, tinham lá suas preocupações.

- Não chore não, boba. Fique tranquila,  que nada vai acontecer -  era a vez do herói.

Ainda apanhava do pai, se queria saber, não[N2]  tinha segredo nisso não. Não adiantava contar do seu serviço de casa, antes do ginásio. Não era uma vadia, uma irresponsável qualquer. Havia programado com os amigos, jogo limpo. Agora passaria a encontros clandestinos?

- Mas, segundo umas meninas, você está namorando para impedir que um namore outra, não é isso?

- Mas nada escondido, normal – disse limpando o molhado do rosto com as mãos.

Ítalo segurou suas mãos e as beijou; ele não podia deixar essa chance passar. Em seguida, buscou seus lábios para ousar um beijo, que despertou a coragem de expressar seu desejo.

Ao retornar para casa, parou em um bar para comprar chiclete e escutou alguém falando com orgulho “Raissa, minha filha”. Era seu Antenor tomando uma "saideira" enquanto conversava exaltando sua filha, que terminaria o ginasial com uma festa de formatura em dezembro.

 


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