quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

 

 

Clima de fim de mundo

 

Das Utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

  Mário Quintana

 

Creio que foi ao ler um ensaio sobre a narrativa de José Lins do Rego que guardei essa noção de fim do mundo. De desgraça, bagaceira, de terra arrasada, de fim de feira, do existido, sem adendo. É a partir desse ponto que ele constrói seu enredo de um mundo em extinção.

No âmbito pessoal, era assim que eu recebia uma premiação. Já me chegava de fogo morto, para continuar aqui com o José Lins do Rego. Quando fui aprovado nos concursos, perdi meu primeiro vestibular e só consegui passar no ano seguinte, quando “ninguém queria mais”, pensei com esse sentimento de fim de mundo. Mais tarde quando fui aprovado em primeiro lugar, comecei a conferir na lista afixada na parede de trás para frente e já estava quase desistindo, quando o colega que estava comigo me despertou.

Posteriormente, consegui ser aprovado em um concurso para professor substituto de uma instituição de ensino superior na região.  Lembro-me de que, ao concluir a aula do ponto sorteado, em disputa com outro candidato, quando questionado por um professor da banca examinadora, forneci as explicações necessárias sobre um ponto em questão e, assim como o jogador Didi do Botafogo, adotei a sua observação: “jogo é jogo e treino é treino”, justificando dessa forma a derrota do time titular para os reservas. Entrei para professor de um colégio de nível médio, mas acabei desistindo devido ao baixo salário, que só melhoraria depois de meu período de estágio probatório, que lamentavelmente não aguentei esperar alcançar.

Também recebi duas empresas. Quando o mercado estava em queda e sob os auspícios sombrios do cenário econômico, de que também não era um bom soldado. Mas, no fim das contas, já nem sei onde está o José Lins do Rego.

Continuei nessa onda. Sei que não deveria ter agido como o personagem da parábola das dez moedas de Cristo. Não, não era por esse caminho, mas o problema que surgia era parecido.

Fiquei marcado, mas não dei importância. Acredito que sou desse jeito mesmo. Não percebi de imediato o favor que estavam me fazendo; só depois me dei conta de que o almoço era para mim. A bola que encontrei entre os pacotes era um presente destinado a mim, não ao meu irmão mais novo, como calculava, no dia em que recebemos presentes e eu já havia sido contemplado.

Percebi que tudo na vida começa com uma leitura. E quão importante é a palavra, a minha palavra, que outros procuram em nós. Aquela imagem da mosca azul, concebida por Machado de Assis, mais ou menos.