Clima de fim de mundo
Das Utopias
Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!
Mário Quintana
Creio que foi ao ler um ensaio sobre a
narrativa de José Lins do Rego que guardei essa noção de fim do mundo. De
desgraça, bagaceira, de terra arrasada, de fim de feira, do existido, sem
adendo. É a partir desse ponto que ele constrói seu enredo de um mundo em
extinção.
No âmbito pessoal, era assim que eu
recebia uma premiação. Já me chegava de fogo morto,
para continuar aqui com o José Lins do Rego. Quando fui aprovado nos
concursos, perdi meu primeiro vestibular e só consegui passar no ano seguinte,
quando “ninguém queria mais”, pensei com esse sentimento de fim de mundo. Mais
tarde quando fui aprovado em primeiro lugar, comecei a conferir na lista
afixada na parede de trás para frente e já estava quase desistindo, quando o colega
que estava comigo me despertou.
Posteriormente, consegui ser aprovado em
um concurso para professor substituto de uma instituição de ensino superior na
região. Lembro-me de que, ao concluir a
aula do ponto sorteado, em disputa com outro candidato, quando questionado por
um professor da banca examinadora, forneci as explicações necessárias sobre um
ponto em questão e, assim como o jogador Didi do Botafogo, adotei a sua
observação: “jogo é jogo e treino é treino”, justificando dessa forma a derrota
do time titular para os reservas. Entrei para professor de um colégio de nível
médio, mas acabei desistindo devido ao baixo salário, que só melhoraria depois
de meu período de estágio probatório, que lamentavelmente não aguentei esperar
alcançar.
Também recebi duas empresas. Quando o
mercado estava em queda e sob os auspícios sombrios do cenário econômico, de
que também não era um bom soldado. Mas, no fim das contas, já nem sei onde está
o José Lins do Rego.
Continuei nessa onda. Sei que não deveria
ter agido como o personagem da parábola das dez moedas de Cristo. Não, não era
por esse caminho, mas o problema que surgia era parecido.
Fiquei marcado, mas não dei importância.
Acredito que sou desse jeito mesmo. Não percebi de imediato o favor que estavam
me fazendo; só depois me dei conta de que o almoço era para mim. A bola que
encontrei entre os pacotes era um presente destinado a mim, não ao meu irmão
mais novo, como calculava, no dia em que recebemos presentes e eu já havia sido
contemplado.
Percebi que tudo na vida começa com uma
leitura. E quão importante é a palavra, a minha palavra, que outros procuram em
nós. Aquela imagem da mosca azul, concebida por Machado de Assis, mais ou
menos.