sábado, 1 de agosto de 2026

 

Às vezes, a vida quando vem, já veio, e você nem se deu por isso.


Há uma estranha ironia no modo como esperamos a vida. Imaginamo-la anunciada por clarins, por acontecimentos extraordinários, por mudanças capazes de dividir o tempo entre um antes e um depois. Esperamos o grande amor, o emprego ideal, a casa sonhada, a viagem transformadora, a revelação que nos fará compreender o sentido de tudo. Enquanto isso, deixamos escapar o que acontece silenciosamente, sem alarde, quase à margem da consciência.

Às vezes, a vida quando vem, já veio, e você nem se deu por isso. Ela entrou pela porta dos fundos, acomodou-se na rotina e passou a morar entre o café da manhã, a conversa distraída no fim da tarde, o abraço breve de quem saiu às pressas, a chuva vista da janela, o livro interrompido sobre a mesa. Não fez barulho porque a vida verdadeira raramente faz. Quem costuma fazer estrondo são as expectativas.

Só muito tempo depois, ao revisitar uma fotografia amarelada ou ao reconhecer o cheiro de uma casa antiga, percebe-se que aqueles dias comuns eram justamente os dias extraordinários. A felicidade não estava escondida no futuro; estava dissolvida na banalidade do presente. O que parecia provisório era, na verdade, o próprio destino acontecendo.

A memória possui esse estranho talento de devolver importância ao que antes parecia insignificante. O rosto de alguém que já partiu, a voz de uma mãe chamando para o almoço, o caminho percorrido centenas de vezes sem atenção — tudo ganha um brilho que nunca teve enquanto existia. Não porque o passado fosse melhor, mas porque aprendemos tarde demais que a vida não se apresenta como espetáculo. Ela prefere o disfarce da simplicidade.

Talvez seja por isso que tantas pessoas sintam uma saudade difícil de explicar. Não é apenas saudade das pessoas ou dos lugares; é saudade daquilo que viveram sem saber que estavam vivendo. É a nostalgia de um tempo que não foi reconhecido quando era presente.

Há uma delicada lição nisso. Se a vida pode chegar sem anunciar sua chegada, talvez a melhor forma de habitá-la seja diminuir a ansiedade pelo extraordinário e ampliar a atenção ao instante. Porque o momento decisivo raramente se veste de solenidade. Quase sempre usa roupas comuns, senta-se ao nosso lado e espera, pacientemente, que o percebamos.

E, quando finalmente percebemos, já se transformou em lembrança. Então compreendemos, com uma mistura de gratidão e melancolia, que a vida não estava a caminho. Ela já havia chegado havia muito tempo. Apenas nós é que demoramos a encontrá-la.

 

 

 


A dúvida

 

Com ele andava a curiosidade sociológica. Não era dessas curiosidades passageiras, satisfeitas por uma resposta rápida ou por uma explicação conveniente. Queria compreender as pessoas, os costumes, as pequenas regras invisíveis que organizavam a vida comum. Observava mais do que falava. Via numa conversa de esquina, numa feira livre ou na sala de espera de um consultório um universo inteiro de relações humanas. Criavam-se mundo e arredores. Cada gesto parecia conter uma história, e cada história desembocava em outras tantas, como se a realidade jamais se encerrasse em si mesma.

Na arte, expressava-se entre a perfeição e o improviso: a dúvida. Nunca acreditou que uma obra estivesse completamente pronta. Havia sempre um traço que poderia ser alterado, uma palavra substituída, uma cor mais adequada. Ao mesmo tempo, desconfiava do excesso de cálculo, pois sabia que a espontaneidade também era uma forma de verdade. Caminhava nesse território incerto, onde conviviam disciplina e liberdade, rigor e impulso criador. Era justamente essa tensão que alimentava sua imaginação.

Às vezes perguntava a si mesmo de onde vinha essa maneira de enxergar o mundo. Revirando as lembranças, encontrava uma resposta parcial na infância. Recordava um desenho feito na escola primária, desses que as professoras pregavam no mural durante a semana das artes. Nele aparecia uma espécie de super-herói. Permanecia de mãos à cintura, o corpo levemente inclinado para a frente, numa postura resoluta. Parecia prestes a sacar a arma que carregava na cintura e, antes do gesto definitivo, lançava ao adversário um ultimato. O desenho, bastante simples, era formado por linhas tortas, cores mal preenchidas e uma perspectiva inexistente. Ainda assim, havia nele uma convicção que o comovia.

O menino que desenhara aquela figura não conhecia anatomia, composição nem proporção. Também não sabia que um herói, por definição, deveria inspirar coragem mais do que ameaça. Apenas reunira tudo o que absorvera dos gibis, dos filmes de faroeste e das brincadeiras de rua. O personagem era uma mistura improvável de justiceiro, cowboy e mascarado. Aos olhos de um adulto, era um desenho ingênuo; aos olhos da criança, representava uma verdade inquestionável.

Muitos anos depois, percebeu que aquele herói infantil continha um simbolismo inesperado. A arma nunca chegava a ser sacada. O instante mais importante era justamente o anterior, quando tudo permanecia suspenso entre a ação e a possibilidade de desistir. Aquele ultimato talvez fosse dirigido menos ao inimigo do que ao próprio desenhista. Era a representação da dúvida, do breve intervalo em que a decisão ainda não se completara.

Desde então passou a reconhecer esse mesmo instante em quase tudo. Na política, nas relações familiares, nas escolhas profissionais e até nos afetos. As pessoas raramente viviam apenas entre o certo e o errado; habitavam, sobretudo, o espaço intermediário das hesitações. Era ali que surgiam as justificativas, os arrependimentos, os improvisos e, não raro, as melhores soluções.

Talvez por isso nunca tenha abandonado a curiosidade sociológica. Continuava convencido de que compreender o ser humano significava aceitar suas contradições. A perfeição, quando existia, era apenas um instante imaginado. A vida verdadeira acontecia no improviso, onde a dúvida deixava de ser fraqueza para transformar-se em instrumento de conhecimento. E, de certo modo, aquele antigo super-herói permanecia de pé, imóvel, de mãos à cintura, lembrando-lhe que as decisões mais importantes nem sempre pertencem ao momento do disparo, mas ao silêncio que o antecede.


segunda-feira, 27 de julho de 2026

  



Chamando Maria

 

Conheceu o idoso que afirmavam estar acamado por quase duas décadas. Não fazia sentido. Falava Maria... ô Maria! Quem poderia ser? Queria saber da tia, agitada com as declarações do marido:

- Deve ser alguma rapariga que ele conheceu na época de moço, mô filho. Ele andava muito a cavalo por esses ermos afora.

 Andava ciente de que a senhora não estava propriamente esculhambando; ressentida, ela fazia alusão ao feminino de "rapaz" em seu vocabulário conservador. Ao notar que a tia-avó estava incomodada, decidiu não prosseguir com a conversa.

Também era hora de voltar. Afinal, estava aprendendo a dirigir o carro. Devido à tia, que era muito querida e morava nas redondezas, ele havia recebido uma autorização implícita para utilizá-lo. Embora fosse a mais velha e coxa, a tia, uma lutadora, não tinha sido moça casadoira, foi a terceira na fila para se casar na família. Contudo, obrigada a tomar as rédeas dos negócios, mesmo sem ostentar os adornos da beleza, o destino se mostraria fundamental em sua vida conjugal. Assim, após alguns anos de espera, diante da invalidez que se tornaria permanente do marido, ela teve que arregaçar as mangas e usar seus esboçados talentos para substituí-lo. Criou os filhos, arrumou casamentos para todos eles e os orientou na vida. Agora, após todos esses anos, ele estava presente, em um momento de clareza mesclado com delírio, chamando por Maria... ô Maria com uma voz que ressoava pelos amplos cômodos da casa.

A prática de andar mancando levou à criação de um estilo nos afazeres diários, como abrir e fechar a porteira do curral, agachar-se para alimentar os animais, acariciá-los e conversar com eles em uma língua compartilhada. Sem contar o combate que ainda dava nos serviços de cozinha, a comidinha, o doce, o bolo e o café, na hora certa.

 Melhor que tentasse logo manter uma conversa com o velho. Queria entender quem era essa Maria a quem ele se referia. Talvez, num lampejo de memória, ele conseguisse dizer. Ele se punha, naquelas tardes de treinamento, a imaginar toda uma história de um moço de boa cepa e cheio de entusiasmo com uma moça com tal nome. E ele falava com firmeza de voz, não delírio de uma pessoa embriagada. Afinal era um homem paralisado no leito, sem ninguém para lhe dar ouvidos. A tia, cuidando de assuntos importantes e também já calejada, não se curvava a esses desvarios. Mas de tanto apresentar questionamentos, respondia em atenção ao sobrinho visitante:

- Ítalo, mô fi, não ligue pra ele não, isso é só quando aparece gente que lhe dá prosa que ele lembra dessa moça.

- E ela existe ou chegou a existir?

- Uns diziam que era bestagem dele, outros que ele andava variado da cabeça.

Falava-se pouco sobre o caso, mas, em conversas informais, especulava-se que ele havia se envolvido com algum rabo de saia na época. Essa ideia persistia em episódios de ataques que o tempo não conseguia apagar.

 O pai havia mencionado algumas travessuras do tio nos seus primeiros anos de casamento, e que, com certeza, havia um flerte com uma mulher na cidade que o deixava animado. Mas a tia nem sonhava, até que veio a doença, e ele ficou como se dependesse de uma conversa com alguém, que ninguém sabia. Como forma de respeito, o tema era discutido às escondidas da senhora da casa, que, de sua própria maneira, demonstrava estar além do mero ciúme.

Um dia questionara ao pai por que tanta atenção dedicada a essa tia:

- Ela é a que mais se parece com minha mãe.

A fazendinha escurecia, e ao se despedir da tia, ele manobrou o veículo, assustando os bichos de quintal — perus, cocás e galinhas — ao redor da tia, que dizia “está cedo”. De lá, ainda conseguiu ouvir o velho chamando em um delírio repetitivo: "Ô Maria!"

 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

                                       Tânia

    Um homem do campo encostou sua bicicleta de maneira descontraída em um cercadinho sob a sombra de um pé de algaroba, como se estivesse deixando ali um animal de montaria. Ao chegar ao barzinho, Italo percebeu que vinha para conversar com ele e pediu uma cerveja, como de costume. Não era para ser consultado nem solicitado, mas para uma palavra. Habitual na interação com os eleitores. O jovem vereador prontamente reconheceu. Era Nildo, que tinha oferecido um forte suporte durante sua campanha e se tornado seu seguidor nas ideias.

— Queria saber o que aconteceu entre o senhor e minha filha. Peço desculpas pela ousadia da menina.

Foi como mergulhar num freezer depois de sair de uma sauna. O choque foi imediato. Felizmente, Nildo logo acrescentou que tudo não passara de um excesso de entusiasmo juvenil durante a campanha. Assim, Ítalo não precisou se aprofundar em explicações que, sem dúvida, soariam absurdas.

Apenas ele sabia o quanto aquele episódio havia reacendido algo do jovem apaixonado que fora um dia. Contido o princípio de incêndio, os dois retomaram as conversas habituais. Ainda assim, Ítalo percebeu que havia ali menos um cabo eleitoral e mais um pai solo preocupado com a filha adolescente. Afinal, criava a garota sem a figura da mãe.

Na despedida, Nildo voltou a pedir desculpas. E Ítalo ficou pensando no que a garota teria contado ao pai, de tanto interessante,  sobre a recepção calorosa que recebera — os abraços, os beijos no rosto, os gestos impulsivos próprios da idade. O que o atormentava era a lembrança daquele breve e acidental encontro de bocas, ocorrido em meio à confusão das despedidas. Não podia se permitir ceder àquela fraqueza. Dependendo de como fosse vista, poderia ser interpretada como a sedução de uma jovem vulnerável — ou algo ainda pior.

         Viu Nildo pegar sua Monark e se afastar, acenando com a cabeça em resposta aos transeuntes, sentindo-se com o dever cumprido. Então, de repente, se lembrou de que ela teria retornado e se encontrado com ele naquele mesmo barzinho. Estavam animados com o jogo que assistiam, tomando cerveja, quando se depararam e se grudaram num beijo, agora com a suavidade professoral do momento.

         Dias depois, Nildo apareceu com um convite de casamento de Tânia com um rapaz da cidade:

         - Ela faz questão que o senhor vá.

         - Claro, Nildo!

 


terça-feira, 9 de junho de 2026

                       Motivo da borboletinha amarela de bando


 borboleta amarela

Era para grandes voos, com o queixo erguido, durante o ensaio, mas a vida era assim:

- De repente, você se vê na situação de ter que cobrar o pênalti – Ítalo dizia para Selmas.

E acrescentava:

 - Queria brincar, provocar, chamar o colega, mas era você e era sério, o tempo estava passando, o estádio estava cheio, só agora você percebeu isso, o que aconteceu, aconteceu. Continuava em frente, saía de baixo, pois você estava na frente, atrapalhava, mas a foto era tirada mesmo assim, sem dar tempo de arrumar o colarinho e se recompor, como estava o emoldurado secular.

Para superar tal imbróglio, ele iria adotar o motivo da borboletinha amarela de bando e pegar o ermo de estrada a partir dali.

- Como é o caso dessa borboletinha amarela, Ítalo? – quis saber Selmas.

Os dois conversavam à mesa do café em um domingo. Depois de tomar um gole e descansar a xícara sobre a mesa, Ítalo contou uma história breve, lembrando-se de quando era criança e se despedia do motorista do caminhão da Bela Vista, que havia deixado alguns produtos alimentícios enlatados e estava prestes a seguir seu caminho de volta. Ao acenar com a mão aberta em um gesto de despedida, uma pequena borboleta amarela em bando apareceu.  Foi um momento de felicidade.

- Momento nostálgico: infância, família no lar, uma situação de conforto, você quer dizer. E daí? – disse Selmas.

- Guarde sempre consigo. Em certos momentos de peso, você não vai ter que enfrentar o touro?

- Sim, mas e daí?

- Quando a assombração vier para te envolver, mude de foco.

- Escapar?

- Vá despertar num lugar aprazível, respirar seu ar puro, sentir seu perfume, e não ficar lamentando o leite derramado.

- Então essa borboletinha vai apagar toda essa frustração?

- Ao contrário, com a imagem do lepidóptero você vai longe. Depois, a vida é grande, comporta recuperações, mudanças e, em outras nuances, reparos camaleônicos, além de sopros de esquecimentos.

- Vai longe, hein?

-  Isso é misericórdia de Deus em nosso favor. Para tolerância de possíveis dores, nos valemos da fé e dessas imagens que trazemos guardadas. Eu li outro dia uma crônica de João Ubaldo Ribeiro e entendi o ponto de vista dele.

- Sobre o quê?

- Ele lutava contra o vício do álcool. Chegou a um ponto que ele teve que se apegar fortemente com Nossa Senhora e conseguiu vencer. Ficou livre e durou mais algum tempo.

- Bonito, mas é triste.

- Por isso guardo dentro de mim essa imagem, entre outras, a de crianças retornando para casa, cada uma segurando seu próprio sorvete de casquinha. Enquanto o pai finalizava o pagamento, o menino começou a chorar porque seu sorvete havia caído devido ao movimento do braço. Então, sua irmãzinha mais velha deixou que ele desse umas chupadinhas no dela. Uma canção de Waldick Soriano, ele saberia depois,  era tocada no alto-falante da sorveteria, o único ponto da cidade. Foi uma cena emoldurada de felicidade passageira.

Selmas colocou a mão no seu ombro e perguntou, olhos nos olhos:

- E aí, você vai cobrar o pênalti ou o quê?

- Desperdicei vários deles e agora esqueci, não vou me desgastar, estou em outra.

 

 

 

 

domingo, 24 de maio de 2026

 


Cíntia

 

Ítalo nunca soube ao certo em que momento começou a olhar para Cíntia daquele jeito. Talvez tivesse sido aos poucos, numa dessas tardes abafadas em que ela passava pela rua com os cabelos escuros presos às pressas e os olhos baixos, como quem atravessa o mundo sem desejar chamar atenção. Ou talvez tivesse sido no dia em que ouvira falar do choro por Maneco — um choro exagerado, diziam, de arrancar os cabelos e perder o juízo no meio da loja.

Quem lhe contou foi Zezito.

O pobre-diabo do Zezito, motivo de deboche para quase todo mundo, servia para as risadas fáceis da esquina, para os apelidos cruéis e para os mandados de última hora. Só Ítalo lhe dava algum crédito. Comprava-lhe cigarros às vezes, escutava suas histórias pela metade e tolerava aquela presença magra e inquieta que parecia sempre pedir licença ao mundo.

Ainda assim, fora Zezito quem um dia lhe salvara a vida.

Ítalo se lembrava perfeitamente da tarde em que quase batera de frente com um carro na estrada. O outro veículo vinha rápido, surgindo numa curva estreita, e ele provavelmente não teria tido tempo de reagir se Zezito não tivesse avançado para o meio da rua, agitando os braços como um louco. Na época, Ítalo xingara o susto. Só depois percebera o tamanho do desastre evitado.

Talvez por isso nunca o afastasse completamente.

Naquela tarde, estavam sentados perto do bar, olhando o movimento da rua, quando Cíntia passou.

— Eu estava aqui no dia em que essa menina chorou por causa de Maneco — comentou Zezito, com a naturalidade de quem fala do tempo. — Chorava que era um horror.

— Ele só bolinou ela e depois caiu fora — acrescentou Zito.

Ítalo acompanhou a figura da moça desaparecendo pela esquina.

— Agora ela está até mais bonita. Maneco perdeu.

Zezito abriu um sorriso torto.

— Mas agora ela está disponível.

Aquilo ficou pairando no ar por alguns segundos. Ítalo riu sem compromisso e, antes de sair, bateu no ombro dele:

— Só você mesmo, Zito, pra ajeitar Cíntia pra mim.

Dissera brincando. Ou quase.

Durante algum tempo, Ítalo alimentara a impressão perigosa de que certas pessoas podiam ser conduzidas apenas pelo desejo firme de quem as queria. Como se bastasse imaginar muito uma coisa para que o mundo, discretamente, começasse a empurrá-la em sua direção.

Por isso não se espantou tanto quando Zezito apareceu dias depois, no meio do aquecimento de uma festa, com os olhos brilhando de importância.

— Cíntia vai estar esperando você depois das nove.

Ítalo sentiu um calor subir-lhe pelo corpo.

— Você falou com ela?

— Falei que você vivia comentando… que queria sair com ela.

— E ela?

— Achou que eu estava mentindo.

— Depois?

— O patrão apareceu na loja. Ela teve que fingir que não era nada. Mas eu voltei lá depois. Ela mandou dizer pra você passar no ponto.

Enquanto falava, Zezito parecia satisfeito consigo mesmo, como um sujeito que finalmente carregava algo precioso nas mãos.

Ítalo imaginou Cíntia atrás do balcão da loja de móveis, desviando os olhos, fingindo desinteresse. Gostou disso. Gostou até do ciúme repentino ao saber que o dono da loja era ligado à igreja da mãe dela. Preferiu não perguntar mais nada.

Quando a encontrou naquela noite, tudo aconteceu numa calma estranha.

Ela veio silenciosa, encostando-se nele com uma intimidade tímida, e o perfume dos cabelos ocupou o interior do carro. Ítalo a abraçou primeiro com desejo, depois com cuidado, como se precisasse confirmar que ela existia mesmo.

Afastou-a devagar apenas para olhá-la.

— Que foi? — ela perguntou, sorrindo de leve.

— Quero ver seu rosto.

— Ah… meus olhos verdes?

— Também. Posso imaginar o resto.

Ela riu baixo.

Conversaram mais do que ele esperava. No caminho até o quarto, nas pausas entre um beijo e outro, nas pequenas perguntas inúteis que duas pessoas fazem quando já sabem o que vai acontecer.

Depois veio o silêncio.

O silêncio das mãos correndo pela pele, dos botões cedendo, dos zíperes abrindo caminho. O beijo que trocaram tinha alguma coisa acumulada, antiga, como se chegasse atrasado de muitos meses.

Mais tarde, os corpos cansados e quentes entre os lençóis, Ítalo murmurou junto ao ouvido dela:

— Faz tempo que fico te olhando.

— Eu não acreditei no recado — confessou ela. — Achei que fosse brincadeira de Zezito.

Ítalo sorriu no escuro.

Só então percebeu os pelos macios escondidos entre suas pernas e comentou aquilo com uma ternura inesperada.

Cíntia ficou envergonhada.

— As meninas dizem pra tirar…

— Não tira.

— Tenho vergonha.

— Não tem do quê.

Beijou-a de novo, demoradamente, como se quisesse protegê-la até dela mesma.

Anos depois, era chuva o que havia entre eles.

Uma chuva fina, transformada em névoa sobre a cidade silenciosa. Ítalo procurava lugar para estacionar perto do velório sem se importar com o cansaço da viagem. Tinha atravessado quase dois mil quilômetros para se despedir de Zezito.

Não abandonaria o amigo naquele instante final.

Foi então que viu Cíntia.

Ela estava parada entre outras pessoas, segurando uma sombrinha escura. Parecia diferente — mais velha talvez, mais quieta —, mas os olhos permaneciam os mesmos.

Trocaram apenas um olhar breve.

Ítalo imaginou que ela viesse agora de Minas, onde ouvira dizer que morava. E achou estranho perceber que ambos tinham retornado pelo mesmo motivo: aquele homem ridicularizado por todos, o sujeito magro e desajeitado que atravessara suas vidas quase sem ser notado.

Talvez certas pessoas existam apenas para ligar umas vidas às outras.