terça-feira, 3 de março de 2026

 

Peleja de merda

 

 

A peleja entre o Xerife e o menino Jânio, um bandido de golpes certeiros, ocorreu ao fim da tarde na Lagoa do Mocambo, após o término da brincadeira proposta por Ítalo.

Os moleques caminhavam por ali bestando, até que avistaram em meio ao matagal uma palhoça abandonada, que serviria de cadeia, onde colocar os bandidos. Chamaria Armando para figurar como Xerife, que ele, Ítalo, o auxiliaria, combinado com os outros quatro meninos, que se espalhariam para as trincheiras feito bandidos. Depois de umas buscas, esconde-escondes, iriam ser caçados e presos. Não tardou para que todos fossem localizados e, com ordem de prisão, seguissem para a cabana, onde só se ouviam o movimento dos patos e marrecos na água, o cantarolar dos pássaros e o resto de silêncio de fim de tarde.

Presos ao final, não tinham mais o que fazer. Dava por encerrado o divertimento? Era o aconselhável, mas enquanto pensavam, Ítalo se afastava para dar uma cagada na tranquilidade, agachado na sombra de um pé-de-madeira-nova. Dali assuntava na conversa do Xerife:

- O que vamos fazer com esses bandidos, Ítalo? Soltar?

Ítalo estava apreciando sua obra com um pauzinho lambuzado e teve o estalo:

- Vou ficar ao lado da porta que você vai abrir e chamar pelo nome de cada um.

Armando entendeu o gracejo, mas sem medir a consequência de um desastre. E ele, com autoridade, chamava pelo apelido.

Assim, quando surgiu a ideia macabra de soltar os presos um a um, marcando-os com um pauzinho manchado de merda, Jânio, em vez de aceitar, negaceou o corpo, pegando nele, na boca. Este então se preparou para a briga e, como questão de honra, atacou Armando.

Sempre que passava por ali durante um passeio no final do expediente, admirava a beleza do lugar e um quadro no calçadão da lagoa onde ainda pareciam estar os dois meninos, frente a frente, congelados no momento, prontos para a peleja.

Armando como uma muralha e Jânio aguardando o sinal do gongo, com mosquitos circulando ao redor do ponto sujo de um queixo levantado em desafio.

Antes de escurecer por completo, o açoite do vento parecia dizer:

- Como é que é, sai ou não sai?

segunda-feira, 2 de março de 2026

 

Vitoria

 

 

No alto de uma ruazinha da ponta da cidade, Ítalo desceu do carro, com sua bengala, e foi tomando pé do local observando o casario em volta, até a esquina:

- Que casinha simples e bem feitinha, Selmas! Tem placa de numeração, de nome do logradouro, numa parede recém-pintada, mas... pombas! ... com placa de “Vende-se”!

- Você queria o quê? –  indagou a mulher, que terminava de estacionar o veículo. – O dono dessa casa recebeu da mulher o aviso, que eles estavam se separando e que vendesse a casa e a moto, passasse a parte dela, que ela iria pra S. Paulo com seu amante.

- Oxe, e pode assim? – estranhou ele, enquanto se acomodava na sarjeta de uma padaria em frente.

- Esses meninos se casam e se separam ao sabor da onda. De repente, “pintou um lance” e pronto; a responsabilidade que se lixe: não existe compromisso - explicava Selmas, mais andeja que o companheiro.

- E os filhos como ficam?

- Ficam.

- Essa não...

Ítalo começou a imaginar. O jovem seria de Marte, de outra galáxia, seria? E quanto aos meninos?

- Afirmam que o pai, além de trabalhar, também dedica tempo para cuidar deles e faz isso com muita competência. "Ele pelejou com ela, mas acabou desistindo", explicou Selmas.

Percebendo o interesse de Ítalo, continuou:

- Ela ia para as festas e ele ficava em casa tomando conta do menino.

- Então era desse jeito?

- Era. A vizinhança se cansou de ver carro chegando tarde da noite, quando ela voltava das festas com os amigos.

- E ele não se queixava?

- Ora, reclamava de quem fazia barulho, para não acordar a esposa.

- Passou os primeiros anos de casado fazendo a casa, que é essa que teve que botar a venda para ter que partilhar com essa mulher.

A dona da padaria se aproximou para atendimento e, tendo assuntado na prosa do casal freguês, informou para encerrar:

- O  nome da mulher dele, a gente brincava na escola para desbancar, é Vitória, Vitória-Correu- cinco-léguas-e-cagou-cinco-toras”.

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Fetiche

 Nele, que já não era mais um adolescente, o tesão aflorava de forma silenciosa. A propósito de qualquer particularidade, independentemente de tempo ou espaço. Como no momento em que avistou uma alvura no movimento das pernas da balconista. Nunca teve tanto valor para si como teve aquele lampejo. Era uma sacada, na linguagem moderna. Ou um clique íntimo para o fotógrafo, que ele carregaria para alimentar seu ego masculino.  Interessante que, a considerar, era uma espécie de fetiche. Uma parte de tecido cor de goiaba encobrindo um palmo de perna branca com o poder de despertar para outro mundo. Ainda com essa vantagem, a de guardar em arquivo a pele clara sob o tecido delicado da saia.

Agora, sempre que se pretendia aceso, buscava na memória esse registro. E encontrava-o à sua disposição. Uma pequena concentração e pronto, o membro hígido realizando o aquecimento da mão em atividade. Que lhe deixava meio satisfeito por enquanto.

Era necessário permanecer nesse exercício. Não era possível ir além disso. Via agora o que acontecia nos bastidores, como se já tivesse superado essa etapa (garota da banheira). Como consequência, ia, na transitoriedade, buscando auxílio, quando surgia furtivamente o anseio, que se controlava. Como foi com a garota do pão. Ao sentir, preferiu dar só mais uma espiadela e, disfarçadamente, com a mão no bolso, retirar-se. De bom tamanho, levava a foto.

Também havia sido registrado, em um momento remoto, mas guardado em arquivo, um par de seios soltos à mostra em uma blusa entreaberta, assemelhando-se a duas peras desejosas de serem colhidas e suavemente mordidas.

Durante os primeiros dias de casado, ele, entusiasmado, compartilhou em um bar algumas particularidades da vida a dois, o que levou um senhor presente a comentar em particular: "É certo, mas pare com isso, meu filho, essas coisas ninguém sai por aí falando com ninguém não." Tal conselho muito lhe valeu pela vida a fora, mas nunca pôde calar o silêncio que levantava seu apetite sexual.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

 

Tiana

 

Ítalo retornou de férias à cidade como se tivesse acabado de fazer um exame de vista, passando a enxergar melhor e sem admitir qualquer erro no uso do idioma. Ainda mais agora que havia descoberto uma coleção de clássicos em casa e começou a apreciar a linguagem de M. de Assis, que ressoava em seu íntimo como uma flauta doce, revelando novos significados.          

Naquela época, não era surpreendente ver o garoto sempre com um livro na mão, mergulhado na exploração da coleção.  Até se permitiu escrever versos no estilo soneto, como o que dedicou a Talita, expressando seu amor platônico. No entanto, antes disso, o garoto passou por uma fase um tanto radical em suas críticas, observando a maneira como os outros se expressavam:

- “Para eu brincar”, você quis dizer, não é? – Ítalo corrigia a pessoa que acabara de dizer “para mim brincar”. Não o fazia para se mostrar superior, mas para deixar encaixado nele o aprendizado.

Mas, com o tempo, o cara pegava a mania. E foi o que ocorreu com Ítalo, que acabou perdendo uma despedida de namorado com uma garota que então se destacava e se tornaria maior sensação depois.  Era Tiana, de pele morena bronzeada, que, montada em seu cavalo, parecia derramar tinta sob seus cabelos negros, que esvoaçavam ao vento. Ao modo de rapaz, uma amazona, montava muito bem e tinha lá seu charme com aqueles lábios grossos dizendo qualquer coisa.

Enquanto isso, Ítalo chegou ao ponto de dizer que era de perder o tesão de pessoas que pronunciavam mal o português. Mas lambido o cabelo de lavanda marca Trim, ele se lançava em busca de namoricos. Até que viu em Tiana um potencial a explorar:

- Tomando um banho de loja lá em São Paulo,  essa menina vai ser um estrondo – era o comentário que começava a circular na cidade.

Tal conversa vinha a propósito da presença dos irmãos de Tiana no funeral do velho pai, que voltariam com ela para S. Paulo.

Quis o destino que os dois se encontrassem e era para despedida daqueles dias de ronda feita em torno da menina do cavalo. Mas nesse dia ela estava toda “pra-frentex”, já enturmada com as gírias trazidas pelos irmãos naquele início da década de setenta. Por isso que o que seria considerado “fofo” na voz de uma morena como Tiana, Ítalo teve que terminar com a garota ali mesmo na hora que ela disse, como que para reacender o papo, ela disse (viu sua voz sair da beleza dos lábios grossos):

- Amanhã eu vou se picar pra São Paulo!

 

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

 Diva

 

   

         Além de algumas ligações telefônicas, exames laboratoriais, passagens ida e volta, caminhadas junto ao Ministério Público e uma rodada de sorvete de coco em uma manhã ensolarada na avenida principal, na verdade, não se podia considerar como despesa o resultado de uma aventurazinha de juventude. Tudo começou com uma ligação recebida no local de trabalho:

         - Ela agora pergunta pelo pai, quer saber como foi – dizia a mocinha que virou mãe, numa voz que vinha limpa de terra distante.

- Oxe, como foi como? Final de festa, ué – estranhou Ítalo numa posição defensiva.

         - Não. Isso ela já sabe – raquetou a mãe.

         - Você estava com seu namorado – Ítalo devolveu a bola.

         - Mas não me deitei com aquele cachorro, ela sabe também. Aí você vai ter que falar com a avó, minha mãe, que pôs na cabecinha dela o que rolou na cidade, que é filha sua – arrebatou por fim a garota daquela ocasião.

         - Minha? – gritou Ítalo.

Subitamente, ele, na posição que detinha na comunidade, com uma filha pré-adolescente suposta. Um breve entusiasmo com a ideia a acompanhou por onde passava, especialmente depois de ouvir a voz da menina pelo telefone.

- Aquele dia eu dei uns conselhos a ela porque você me pediu.

- É, eu sei. É que eu não tinha a quem recorrer nessas horas.

Nesse dia falou como se fosse pai atencioso de uma criança, que acabou sossegadinha e foi dormir, mas agora era uma mocinha.

Teve que tomar providência. Primeiro, ajeitar passagens ida e volta e vagas num hotel de classe, bem como exames de laboratório e caminhadas para o Ministério Público. Depois, escalar tia Brenda para um sorvete de recepção numa lanchonete decente.

         - Por que eu?

         - Uma pessoa amiga, né, tia? Você queria que eu chamasse Selmas?

         - E ela não sabe de nada?

         - Sabe da conversa da época, superado, é só, sem maiores riscos.  Afinal, as cabaças acabam se ajeitando.

         - Mas você vai ter que mexer com isso de novo, Ítalo.

         - Perdeu o calor da coisa, tia – tentava explicar. - Hoje se olha pelo retrovisor: eu era jovem e coisa e tal...

         - Vocês homens...

         - Você vai ficar um pouco para quebrar o gelo, fazer a maciota, vamos dizer assim, que nós só nos falamos umas poucas vezes e ainda assim por telefone – argumentava Ítalo.

         Ela sorriu, mas, em troca, queria informações sobre o caso. Então, houve a necessidade de recuperar da memória distante imagens dele, ainda na frescura do caminho a seguir, tateante nas aventuras das noites. E foi em um final de festa que decidiu tanger um garoto, que devia lá ser o namoradinho dela, para dançar com algumas garotas já experimentadas:

         - A gente passa em casa e curte um som legal – era o chama.

         Assim que colocou o disco na vitrola, eles já estavam transando na cama. Ele adormeceu rapidamente, sem se recordar da despedida com a amiguinha que esperava na sala.

         - Depois, lá um dia, apareceu esse bebê e a mãe, apertando a filha, contou com quem tinha saído.

         - Já sei da história: seu nome estava no meio - o cara, e foi fácil espalhar a notícia – disse e ficou contemplando Ítalo. -  Está bem, vamos aguardar – confirmou tia Brenda, por fim.

Cumpriria mais uma etapa. A próxima batalha seria travada no momento adequado, quando a disposição dos astros fosse diferente. Por enquanto, ele optava por desfrutar do papel de pai de uma garotinha, suspirando com uma expressão de preocupação.

         Italo pesquisou o passado familiar e descobriu que a razão para o divórcio de seu avô foi a mesma circunstância: ao matricular na escola dos filhos uma menina que ele teve fora do matrimônio. Mas suspirava aliviado ao constatar que o incidente ocorreu na década de cinquenta e que novos tempos haviam chegado.

         - Dizem que o exame é seguro, 99% de certeza. É caro?

         - É, mas  existe desconto para o Ministério Público, que tem convênio.

         - E você espera positivo ou negativo?

         - Na época eu não ia querer não, mas agora estou mais preparado para me entender com Selmas e não acontecer o que aconteceu com meu avô, né?

         Nem por instantes lhe passou pela cabeça um abalo na sua relação com Selmas. Uma nova versão, um remaker da historia do seu avô? A batalha que tinha que enfrentar estava perto, que era saber o resultado.

Ítalo chegou cedo ao hotel para as orientações necessárias e até tomou café da manhã com mãe e filha para se integrar. Foi combinado um passeio para tomar sorvete mais tarde e, no dia seguinte, a ida à sede do Ministério Público para o lacre da coleta de sangue com os técnicos de enfermagem.

Assim, quando Ítalo se encontrou com a tia Brenda, já estavam próximos, e ele ajustou um detalhe da blusa dela, tudo ocorreu de maneira ordenada, tanto que veio em boa hora a ideia do sorvete.

- O delas conforme pedido delas – explicava ao garçom o suposto pai. -  O meu é de coco branco com pouco de coco queimado.

O passeio acabou se estendendo pela cidade, quando teve a ousadia de repousar a cabeça no colo de Diva, sua filha, porque o exame a ser feito era mera formalidade.

No dia seguinte, após a realização do serviço de protocolo perante a autoridade do Ministério Público, que enviaria a amostra via SEDEX para Belo Horizonte, despediram-se da garota Diva sem que um fotógrafo estivesse presente para registrar a ocasião especial. Mas a tristeza maior veio tempo depois com abertura do lacre do resultado:

- Ela chorou muito, ficou completamente frustrada – era a mãe. – Mas eu cansei de falar que não era  você.  Mas foi você quem chamou para tirar a dúvida.

 Após um assentar da poeira, Ítalo recebeu a informação de que havia um outro namoradinho da mãe.

- E aí vão acionar esse suposto pai?

- Não.

- Oxe, por quê?

- Ele se mudou para o Estado do Mato Grosso. Também ela se retou e disse “Chega! se não foi desta vez, não quero saber mais não”.

Ítalo, que já tinha preparado seu discurso de maturidade e de presenteado,  guardou consigo essa frustação de Diva, menina dócil mas inconsolável.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

 

 

Clima de fim de mundo

 

Das Utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

  Mário Quintana

 

Creio que foi ao ler um ensaio sobre a narrativa de José Lins do Rego que guardei essa noção de fim do mundo. De desgraça, bagaceira, de terra arrasada, de fim de feira, do existido, sem adendo. É a partir desse ponto que ele constrói seu enredo de um mundo em extinção.

No âmbito pessoal, era assim que eu recebia uma premiação. Já me chegava de fogo morto, para continuar aqui com o José Lins do Rego. Quando fui aprovado nos concursos, perdi meu primeiro vestibular e só consegui passar no ano seguinte, quando “ninguém queria mais”, pensei com esse sentimento de fim de mundo. Mais tarde quando fui aprovado em primeiro lugar, comecei a conferir na lista afixada na parede de trás para frente e já estava quase desistindo, quando o colega que estava comigo me despertou.

Posteriormente, consegui ser aprovado em um concurso para professor substituto de uma instituição de ensino superior na região.  Lembro-me de que, ao concluir a aula do ponto sorteado, em disputa com outro candidato, quando questionado por um professor da banca examinadora, forneci as explicações necessárias sobre um ponto em questão e, assim como o jogador Didi do Botafogo, adotei a sua observação: “jogo é jogo e treino é treino”, justificando dessa forma a derrota do time titular para os reservas. Entrei para professor de um colégio de nível médio, mas acabei desistindo devido ao baixo salário, que só melhoraria depois de meu período de estágio probatório, que lamentavelmente não aguentei esperar alcançar.

Também recebi duas empresas. Quando o mercado estava em queda e sob os auspícios sombrios do cenário econômico, de que também não era um bom soldado. Mas, no fim das contas, já nem sei onde está o José Lins do Rego.

Continuei nessa onda. Sei que não deveria ter agido como o personagem da parábola das dez moedas de Cristo. Não, não era por esse caminho, mas o problema que surgia era parecido.

Fiquei marcado, mas não dei importância. Acredito que sou desse jeito mesmo. Não percebi de imediato o favor que estavam me fazendo; só depois me dei conta de que o almoço era para mim. A bola que encontrei entre os pacotes era um presente destinado a mim, não ao meu irmão mais novo, como calculava, no dia em que recebemos presentes e eu já havia sido contemplado.

Percebi que tudo na vida começa com uma leitura. E quão importante é a palavra, a minha palavra, que outros procuram em nós. Aquela imagem da mosca azul, concebida por Machado de Assis, mais ou menos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

 

 


Marina e Georgina

 

            Ítalo buscava na memória seus namoricos de 1974 quando começava a se achar como protótipo de gente grande. Com relação a umas duas garotas, precisava assentar a ideia. Mesma época mas ocasiões diferentes. Marina e Georgina eram ambas gordinhas apreciáveis. Apresentou-se a elas com destaque na camisa aberta ao peito, de forma que ninguém podia dizer ter Ítalo apenas a idade de treze anos. Ambas provenientes de São Paulo, de férias, em visita a uma tia.

         Marina foi a primeira. Morena de pele clara, com uma bela cabeleira escura e olhos igualmente expressivos. Andava bem com o vigor da adolescência de Ítalo, que, em ajuda à estampa, num charme a mais, usava uma fita na testa, contendo o avanço dos cabelos castanhos. Principalmente quando na prática de esporte. Quando corria em comemoração ao gol, que nem o jogador Fito do Bahia.

         Com certeza, eles teriam dado algumas voltas na pracinha de mãos dadas, conversado com o primo de Ítalo, que, de bairro vizinho, de São  Paulo,  também estava ali a passeio. Depois um retorno, à porta da casa da tia, que estava de bom tamanho. Guardava dela os ternos beijos de lado, enquanto afastava os vastos cabelos com um gesto rápido da mão. 

         De Georgina, o mesmo procedimento, porém os lábios se destacavam imediatamente. O período foi mais breve, mas também inesquecível, com cenas misturadas com as da outra garota.

         - E para qual das duas você era mais balançado? – quis saber Selmas ao lado.

         - Confundo as duas.

         - Você ainda não tem idade para isso.

Antes ele tinha treze. Cinquenta e tantos anos depois, com um AVC no currículo, ficou sem entender: certas passagens das garotas se confundiam.