sábado, 26 de setembro de 2026

 


Irene


Ítalo iria apenas observar o pessoal da Direção, mas acabou enlaçado pelos colegas da unidade de ensino onde lecionava. Era dessas ocasiões em que a pessoa se dispõe a ficar quieta e, quando percebe, já lhe puseram alguma responsabilidade nas mãos.

— Pronto, chegou Ítalo. Ele toca!

Alguém lhe entregou um violão.

Ítalo recebeu o instrumento com a resignação de quem recebe uma incumbência para a qual não se preparara. Não era que não soubesse tocar. Sabia alguma coisa. Arranhava alguns acordes, acompanhava certas canções, tinha lá seus recursos. Mas daí a ser o professor que toca violão, aquele a quem se recorre para salvar uma confraternização, havia uma distância considerável.

E justamente ali, diante de colegas, mestres visitantes e gente da Direção, sua imagem profissional parecia estar em jogo. Professor, afinal, também vive dessas pequenas reputações que se formam sem que ninguém perceba: o que sabe falar, o que sabe ensinar, o que tem jeito para isto ou aquilo. Ítalo não queria inaugurar, naquela tarde, a reputação de quem não sabia tocar.

— Vai, toque logo uma, qualquer uma, pra não ficar em branco. A professora Irene ainda não chegou, mas o violão está aí.

Correu os dedos pelas cordas.

Turutuntumtum.

O instrumento, para seu azar, estava afinadíssimo.

Não havia sequer a desculpa de uma corda frouxa, de um som desafinado, de qualquer imperfeição do violão que lhe permitisse devolver a responsabilidade à matéria. O problema era ele mesmo.

Ítalo conhecia algumas canções, mas nenhuma parecia caber naquele momento. Uma lembrança puxava outra, um acorde chamava outro, e as músicas iam se embaralhando na cabeça como papéis de uma gaveta remexida às pressas.

Foi então que Irene entrou.

Chegou sem saber que, naquele instante, era aguardada como quem chega para apagar um pequeno incêndio.

— Leva alguma aí pra gente, Ítalo!

Ele olhou para ela.

Por um segundo, pareceu-lhe que o tempo, paralisado, dava voltas sem sair do lugar.

Continuou apenas debulhando o nylon. Os dedos procuravam uma saída. Nada vinha inteiro. Um começo de música aparecia e desaparecia. Um refrão se insinuava, mas não encontrava o caminho dos acordes. O violão, agora, parecia muito maior do que era.

Irene percebeu.

E, talvez por perceber, não o deixou sozinho diante do silêncio.

— Vamos, Ítalo. Começa que eu acompanho.

Aquilo lhe devolveu o chão.

Ele dedilhou outra vez, procurando qualquer coisa que pudesse servir de porta de entrada. Irene, então, no estalo, o acompanhou num sambinha antigo, desses que parecem existir há muito tempo justamente para salvar momentos que não sabem como terminar.

Apanhou o mote, como quem pega o animal pelo rabo,  e começou a cantar Nem ouro nem prata, de Rui Maurite:

Eu vi chover, eu vi relampear

Mas mesmo assim o céu estava azul

Samborê, pemba, é folha de jurema,

Oxóssi reina de norte a sul

A voz saiu firme, surpreendentemente larga, ocupando a sala com uma segurança que dispensava qualquer apresentação. Ítalo reconheceu a canção apenas aos poucos. Soube depois que Irene cantava na igreja. Naquele instante, entretanto, pouco importava de onde vinha aquela voz. Importava que ela havia chegado.

Ele encontrou os acordes.

Não eram muitos. Não precisava que fossem.

Passou a acompanhar Irene com o cuidado de quem segura uma bandeja cheia de copos. Ela, por sua vez, não deixou que a música se transformasse numa demonstração de técnica. Cantava para o momento, não para mostrar que sabia cantar.

E foi puxando os demais.

Um começou a bater palmas. Outro acompanhou baixinho. Alguém reconheceu o samba e entrou no refrão. Em pouco tempo, já não havia o professor Ítalo, aquele que temia desafinar diante dos colegas, nem o músico improvisado que recebera o violão quase à força. Havia somente uma roda de gente aproveitando aqueles minutos.

Ítalo percebeu então a delicadeza do que Irene fizera.

Ela não o salvara simplesmente de uma situação constrangedora. Salvou o próprio instante.

Porque poderia ter dito que não sabia cantar. Poderia ter deixado o silêncio cair sobre ele, poderia ter feito uma brincadeira e devolvido o violão. Em vez disso, entrou na música como quem entra numa conversa no momento exato em que o outro já não sabe o que dizer.

E, enquanto tocava aqueles poucos acordes, Ítalo começou a se sentir menos preocupado consigo.

A imagem do professor, que minutos antes lhe pesava sobre os ombros, foi ficando menor. Que importância tinha, afinal, tocar perfeitamente? Que importância tinha parecer habilidoso diante de colegas que, dali a pouco, talvez nem se lembrassem de quem tocara?

Irene cantava.

Os mestres visitantes sorriam.

A sala, que antes esperava uma despedida formal, encontrava uma alegria inesperada.

Ítalo acompanhava.

E aquilo bastava.

Mais tarde, talvez ninguém se lembrasse dos acordes. Talvez nem da música inteira. Mas se lembrariam daquela tarde em que uma professora cantou com um vozeirão de igreja, um professor quase sem repertório segurou um violão como pôde e, por alguns minutos, todos deixaram de ser cargos, funções, visitantes, direção, mestres e subordinados.

Foram apenas pessoas.

Ítalo olhou de relance para Irene e sorriu.

Ela percebeu e, sem interromper o canto, fez-lhe um pequeno gesto com a cabeça,

como quem dizia:

Continue. É disso que se trata.

E ele continuou.

Não porque tivesse descoberto, de repente, que sabia tocar.

Mas porque Irene lhe ensinara, sem nenhuma aula, que há momentos em que não é preciso saber fazer perfeitamente alguma coisa. Basta não deixar que o momento passe em branco.




terça-feira, 18 de agosto de 2026

  

 

O Diploma

Mãe e pai. Aquela coisa de empolgação com formatura de filho. Etapa cumprida. Gente por todo lado, lotação completa no espaço festivo destinado à colação de grau. Beca alugada, fotografia, parentes, abraços, aquela solenidade toda que parece dizer a cada formando: agora você está pronto para a vida.

        Ítalo caminhou até a mesa da comissão encarregada de proceder à formalidade do compromisso de formando e, ao mesmo tempo, entregar-lhe o canudo de formatura. Foi, recebeu os cumprimentos dos mestres que se encontravam à mesa e saiu pelo lado, à procura da mãe bonita, que o esperava para conduzi-lo, filho bacharel, até os demais formandos.

No auditório, sentou-se ao lado de Mauro, conforme a ordem estabelecida para a solenidade.

Foi aí que a coisa começou a desandar. Mauro, seu vizinho de cadeira, resolveu abrir a porra do invólucro do diploma. Abriu. De dentro retirou um belo pergaminho, tudo certinho, assinado, conferido, com letras douradas, coisa de diploma mesmo. Ficou olhando, orgulhoso.

Ítalo achou bonito. E, naturalmente, achou de pegar o seu. Pegou. Só que, ao contrário do de Mauro, não havia diploma algum. Havia um papel. Um simples papel. E nele, datilografado, um bilhete curto, seco, quase hostil: Comparecer à Secretaria Geral de Cursos.

Só isso. Nenhuma explicação. Nenhuma palavra de conforto. Nenhum “parabéns”. Nenhum “estamos felizes por você”. Nada.

Ítalo sentiu uma coisa fria percorrer-lhe o corpo.

— Oh, céus!

Naquele instante, enquanto a solenidade continuava, ele já não ouvia mais nada. As vozes dos professores pareciam vir de muito longe. Os aplausos chegavam abafados. O auditório continuava iluminado, as famílias continuavam sorrindo, os fotógrafos continuavam trabalhando, mas, para ele, alguma coisa havia acabado de morrer.

A festa, pelo menos para Ítalo, terminara ali.

Depois veio o baile no clube. Fotos com a família. Abraços. Parabéns. Risadas. Taças levantadas. E Ítalo com aquela cara. A mãe, bonita e maternal, interpretou imediatamente:

— Oh, gente! Ele está assim porque vai embora e vai deixar os amigos de mais de dez anos aqui.

Pronto. Estava encontrada a explicação. Ninguém mais perguntou nada. E Ítalo deixou. Era melhor assim, porque, na cabeça dele, tudo estava explicado. Lembrou-se da prova de Direito Civil. Aquela maldita prova. Precisava de uma nota média, estava em recuperação, e, numa estupidez que agora lhe parecia monumental, nem sequer havia olhado o resultado afixado na parede da escola.

E então começou a montar a história. A diretoria, para não decepcioná-lo — principalmente para não decepcionar a família —, teria permitido a simulação da colação de grau. Deixaram-no participar da solenidade, receber os cumprimentos, posar para fotografias, tudo. Só não poderiam entregar o diploma. O diploma verdadeiro ficaria retido. Ele havia sido reprovado. Pronto. Era isso. Por isso o bilhete, a frieza, o papel no lugar do pergaminho.

Enquanto todos festejavam o bacharel, Ítalo já se imaginava condenado a mais um semestre de faculdade, tendo de voltar às aulas, rever professores, enfrentar colegas e, sobretudo, contar em casa que aquela noite toda havia sido uma espécie de encenação piedosa.

E assim atravessou a festa. A família sorrindo. A mãe explicando sua tristeza. Os amigos comemorando. E ele, por dentro, fazendo velório.

Na segunda-feira, saltou da cama cedo. Não havia mais como adiar. Foi à Secretaria Geral de Cursos preparado para receber a sentença. Já entraria na sala resignado. Sabia até o que iria ouvir:

“Você foi reprovado em Direito Civil. Terá de permanecer mais um semestre.”

Estava pronto. Ou quase. O funcionário consultou alguma coisa no computador, mexeu em papéis, conferiu um cadastro e, sem demonstrar a menor preocupação com a tragédia que Ítalo carregava no peito, disse:

— Para receber o diploma, o aluno tem que estar quite com a faculdade.

        Ítalo baixou a cabeça.

Era o começo.

— E você está devendo um livro à biblioteca.

Silêncio. Ítalo olhou para o homem. O homem olhou para Ítalo. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

— Um livro?

— Um livro.

Foi quando Ítalo sentiu vontade de beijar o funcionário. Um livro! Não era Direito Civil. Não era reprovação. Não era mais um semestre. Não era fracasso. Não era a vergonha de voltar para casa sem o diploma.

Era um livro. Um simples livro que, sabe-se lá por que razão, permanecera esquecido em algum canto da vida acadêmica. Ítalo saiu dali quase correndo.

Foi para casa buscar o livro para devolvê-lo.

E voltou à faculdade com a disposição de quem acabara de descobrir que havia ganhado a partida no último minuto.

Saiu da Secretaria Geral como se tivesse feito gol em pleno Maracanã. E, pensando bem, tinha feito. Só não sabia que a partida era tão fácil.

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

  



Chamando Maria

 

Conheceu o idoso que afirmavam estar acamado por quase duas décadas. Não fazia sentido. Falava Maria... ô Maria! Quem poderia ser? Queria saber da tia, agitada com as declarações do marido:

- Deve ser alguma rapariga que ele conheceu na época de moço, mô filho. Ele andava muito a cavalo por esses ermos afora.

 Andava ciente de que a senhora não estava propriamente esculhambando; ressentida, ela fazia alusão ao feminino de "rapaz" em seu vocabulário conservador. Ao notar que a tia-avó estava incomodada, decidiu não prosseguir com a conversa.

Também era hora de voltar. Afinal, estava aprendendo a dirigir o carro. Devido à tia, que era muito querida e morava nas redondezas, ele havia recebido uma autorização implícita para utilizá-lo. Embora fosse a mais velha e coxa, a tia, uma lutadora, não tinha sido moça casadoira, foi a terceira na fila para se casar na família. Contudo, obrigada a tomar as rédeas dos negócios, mesmo sem ostentar os adornos da beleza, o destino se mostraria fundamental em sua vida conjugal. Assim, após alguns anos de espera, diante da invalidez que se tornaria permanente do marido, ela teve que arregaçar as mangas e usar seus esboçados talentos para substituí-lo. Criou os filhos, arrumou casamentos para todos eles e os orientou na vida. Agora, após todos esses anos, ele estava presente, em um momento de clareza mesclado com delírio, chamando por Maria... ô Maria com uma voz que ressoava pelos amplos cômodos da casa.

A prática de andar mancando levou à criação de um estilo nos afazeres diários, como abrir e fechar a porteira do curral, agachar-se para alimentar os animais, acariciá-los e conversar com eles em uma língua compartilhada. Sem contar o combate que ainda dava nos serviços de cozinha, a comidinha, o doce, o bolo e o café, na hora certa.

 Melhor que tentasse logo manter uma conversa com o velho. Queria entender quem era essa Maria a quem ele se referia. Talvez, num lampejo de memória, ele conseguisse dizer. Ele se punha, naquelas tardes de treinamento, a imaginar toda uma história de um moço de boa cepa e cheio de entusiasmo com uma moça com tal nome. E ele falava com firmeza de voz, não delírio de uma pessoa embriagada. Afinal era um homem paralisado no leito, sem ninguém para lhe dar ouvidos. A tia, cuidando de assuntos importantes e também já calejada, não se curvava a esses desvarios. Mas de tanto apresentar questionamentos, respondia em atenção ao sobrinho visitante:

- Ítalo, mô fi, não ligue pra ele não, isso é só quando aparece gente que lhe dá prosa que ele lembra dessa moça.

- E ela existe ou chegou a existir?

- Uns diziam que era bestagem dele, outros que ele andava variado da cabeça.

Falava-se pouco sobre o caso, mas, em conversas informais, especulava-se que ele havia se envolvido com algum rabo de saia na época. Essa ideia persistia em episódios de ataques que o tempo não conseguia apagar.

 O pai havia mencionado algumas travessuras do tio nos seus primeiros anos de casamento, e que, com certeza, havia um flerte com uma mulher na cidade que o deixava animado. Mas a tia nem sonhava, até que veio a doença, e ele ficou como se dependesse de uma conversa com alguém, que ninguém sabia. Como forma de respeito, o tema era discutido às escondidas da senhora da casa, que, de sua própria maneira, demonstrava estar além do mero ciúme.

Um dia questionara ao pai por que tanta atenção dedicada a essa tia:

- Ela é a que mais se parece com minha mãe.

A fazendinha escurecia, e ao se despedir da tia, ele manobrou o veículo, assustando os bichos de quintal — perus, cocás e galinhas — ao redor da tia, que dizia “está cedo”. De lá, ainda conseguiu ouvir o velho chamando em um delírio repetitivo: "Ô Maria!"

 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

                                       Tânia

    Um homem do campo encostou sua bicicleta de maneira descontraída em um cercadinho sob a sombra de um pé de algaroba, como se estivesse deixando ali um animal de montaria. Ao chegar ao barzinho, Italo percebeu que vinha para conversar com ele e pediu uma cerveja, como de costume. Não era para ser consultado nem solicitado, mas para uma palavra. Habitual na interação com os eleitores. O jovem vereador prontamente reconheceu. Era Nildo, que tinha oferecido um forte suporte durante sua campanha e se tornado seu seguidor nas ideias.

— Queria saber o que aconteceu entre o senhor e minha filha. Peço desculpas pela ousadia da menina.

Foi como mergulhar num freezer depois de sair de uma sauna. O choque foi imediato. Felizmente, Nildo logo acrescentou que tudo não passara de um excesso de entusiasmo juvenil durante a campanha. Assim, Ítalo não precisou se aprofundar em explicações que, sem dúvida, soariam absurdas.

Apenas ele sabia o quanto aquele episódio havia reacendido algo do jovem apaixonado que fora um dia. Contido o princípio de incêndio, os dois retomaram as conversas habituais. Ainda assim, Ítalo percebeu que havia ali menos um cabo eleitoral e mais um pai solo preocupado com a filha adolescente. Afinal, criava a garota sem a figura da mãe.

Na despedida, Nildo voltou a pedir desculpas. E Ítalo ficou pensando no que a garota teria contado ao pai, de tanto interessante,  sobre a recepção calorosa que recebera — os abraços, os beijos no rosto, os gestos impulsivos próprios da idade. O que o atormentava era a lembrança daquele breve e acidental encontro de bocas, ocorrido em meio à confusão das despedidas. Não podia se permitir ceder àquela fraqueza. Dependendo de como fosse vista, poderia ser interpretada como a sedução de uma jovem vulnerável — ou algo ainda pior.

         Viu Nildo pegar sua Monark e se afastar, acenando com a cabeça em resposta aos transeuntes, sentindo-se com o dever cumprido. Então, de repente, se lembrou de que ela teria retornado e se encontrado com ele naquele mesmo barzinho. Estavam animados com o jogo que assistiam, tomando cerveja, quando se depararam e se grudaram num beijo, agora com a suavidade professoral do momento.

         Dias depois, Nildo apareceu com um convite de casamento de Tânia com um rapaz da cidade:

         - Ela faz questão que o senhor vá.

         - Claro, Nildo!

 


terça-feira, 9 de junho de 2026

                       Motivo da borboletinha amarela de bando


 borboleta amarela

Era para grandes voos, com o queixo erguido, durante o ensaio, mas a vida era assim:

- De repente, você se vê na situação de ter que cobrar o pênalti – Ítalo dizia para Selmas.

E acrescentava:

 - Queria brincar, provocar, chamar o colega, mas era você e era sério, o tempo estava passando, o estádio estava cheio, só agora você percebeu isso, o que aconteceu, aconteceu. Continuava em frente, saía de baixo, pois você estava na frente, atrapalhava, mas a foto era tirada mesmo assim, sem dar tempo de arrumar o colarinho e se recompor, como estava o emoldurado secular.

Para superar tal imbróglio, ele iria adotar o motivo da borboletinha amarela de bando e pegar o ermo de estrada a partir dali.

- Como é o caso dessa borboletinha amarela, Ítalo? – quis saber Selmas.

Os dois conversavam à mesa do café em um domingo. Depois de tomar um gole e descansar a xícara sobre a mesa, Ítalo contou uma história breve, lembrando-se de quando era criança e se despedia do motorista do caminhão da Bela Vista, que havia deixado alguns produtos alimentícios enlatados e estava prestes a seguir seu caminho de volta. Ao acenar com a mão aberta em um gesto de despedida, uma pequena borboleta amarela em bando apareceu.  Foi um momento de felicidade.

- Momento nostálgico: infância, família no lar, uma situação de conforto, você quer dizer. E daí? – disse Selmas.

- Guarde sempre consigo. Em certos momentos de peso, você não vai ter que enfrentar o touro?

- Sim, mas e daí?

- Quando a assombração vier para te envolver, mude de foco.

- Escapar?

- Vá despertar num lugar aprazível, respirar seu ar puro, sentir seu perfume, e não ficar lamentando o leite derramado.

- Então essa borboletinha vai apagar toda essa frustração?

- Ao contrário, com a imagem do lepidóptero você vai longe. Depois, a vida é grande, comporta recuperações, mudanças e, em outras nuances, reparos camaleônicos, além de sopros de esquecimentos.

- Vai longe, hein?

-  Isso é misericórdia de Deus em nosso favor. Para tolerância de possíveis dores, nos valemos da fé e dessas imagens que trazemos guardadas. Eu li outro dia uma crônica de João Ubaldo Ribeiro e entendi o ponto de vista dele.

- Sobre o quê?

- Ele lutava contra o vício do álcool. Chegou a um ponto que ele teve que se apegar fortemente com Nossa Senhora e conseguiu vencer. Ficou livre e durou mais algum tempo.

- Bonito, mas é triste.

- Por isso guardo dentro de mim essa imagem, entre outras, a de crianças retornando para casa, cada uma segurando seu próprio sorvete de casquinha. Enquanto o pai finalizava o pagamento, o menino começou a chorar porque seu sorvete havia caído devido ao movimento do braço. Então, sua irmãzinha mais velha deixou que ele desse umas chupadinhas no dela. Uma canção de Waldick Soriano, ele saberia depois,  era tocada no alto-falante da sorveteria, o único ponto da cidade. Foi uma cena emoldurada de felicidade passageira.

Selmas colocou a mão no seu ombro e perguntou, olhos nos olhos:

- E aí, você vai cobrar o pênalti ou o quê?

- Desperdicei vários deles e agora esqueci, não vou me desgastar, estou em outra.