Era
para grandes voos, com o queixo erguido, durante o ensaio, mas a vida era
assim:
-
De repente, você se vê na situação de ter que cobrar o pênalti – Ítalo dizia
para Selmas.
E
acrescentava:
- Queria brincar, provocar, chamar o colega,
mas era você e era sério, o tempo estava passando, o estádio estava cheio, só
agora você percebeu isso, o que aconteceu, aconteceu. Continuava em frente, saía
de baixo, pois você estava na frente, atrapalhava, mas a foto era tirada mesmo
assim, sem dar tempo de arrumar o colarinho e se recompor, como estava o
emoldurado secular.
Para
superar tal imbróglio, ele iria adotar o motivo da borboletinha amarela de
bando e pegar o ermo de estrada a partir dali.
-
Como é o caso dessa borboletinha amarela, Ítalo? – quis saber Selmas.
Os
dois conversavam à mesa do café em um domingo. Depois de tomar um gole e
descansar a xícara sobre a mesa, Ítalo contou uma história breve, lembrando-se
de quando era criança e se despedia do motorista do caminhão da Bela Vista, que
havia deixado alguns produtos alimentícios enlatados e estava prestes a seguir
seu caminho de volta. Ao acenar com a mão aberta em um gesto de despedida, uma
pequena borboleta amarela em bando apareceu.
Foi um momento de felicidade.
-
Momento nostálgico: infância, família no lar, uma situação de conforto, você
quer dizer. E daí? – disse Selmas.
-
Guarde sempre consigo. Em certos momentos de peso, você não vai ter que
enfrentar o touro?
-
Sim, mas e daí?
-
Quando a assombração vier para te envolver, mude de foco.
-
Escapar?
-
Vá despertar num lugar aprazível, respirar seu ar puro, sentir seu perfume, e
não ficar lamentando o leite derramado.
-
Então essa borboletinha vai apagar toda essa frustração?
-
Ao contrário, com a imagem do lepidóptero você vai longe. Depois, a vida é
grande, comporta recuperações, mudanças e, em outras nuances, reparos
camaleônicos, além de sopros de esquecimentos.
-
Vai longe, hein?
- Isso é misericórdia de Deus em nosso favor. Para
tolerância de possíveis dores, nos valemos da fé e dessas imagens que trazemos
guardadas. Eu li outro dia uma crônica de João Ubaldo Ribeiro e entendi o ponto
de vista dele.
-
Sobre o quê?
-
Ele lutava contra o vício do álcool. Chegou a um ponto que ele teve que se
apegar fortemente com Nossa Senhora e conseguiu vencer. Ficou livre e durou
mais algum tempo.
-
Bonito, mas é triste.
-
Por isso guardo dentro de mim essa imagem, entre outras, a de crianças
retornando para casa, cada uma segurando seu próprio sorvete de casquinha.
Enquanto o pai finalizava o pagamento, o menino começou a chorar porque seu
sorvete havia caído devido ao movimento do braço. Então, sua irmãzinha mais
velha deixou que ele desse umas chupadinhas no dela. Uma canção de Waldick
Soriano, ele saberia depois, era tocada
no alto-falante da sorveteria, o único ponto da cidade. Foi uma cena emoldurada
de felicidade passageira.
Selmas colocou a mão no seu ombro e perguntou, olhos nos olhos:
-
E aí, você vai cobrar o pênalti ou o quê?
-
Desperdicei vários deles e agora esqueci, não vou me desgastar, estou em outra.