Blog Nei George Prado
sábado, 1 de agosto de 2026
A
dúvida
Com
ele andava a curiosidade sociológica. Não era dessas curiosidades passageiras,
satisfeitas por uma resposta rápida ou por uma explicação conveniente. Queria
compreender as pessoas, os costumes, as pequenas regras invisíveis que
organizavam a vida comum. Observava mais do que falava. Via numa conversa de
esquina, numa feira livre ou na sala de espera de um consultório um universo
inteiro de relações humanas. Criavam-se mundo e arredores. Cada gesto parecia
conter uma história, e cada história desembocava em outras tantas, como se a
realidade jamais se encerrasse em si mesma.
Na arte, expressava-se entre a perfeição e o
improviso: a dúvida. Nunca acreditou que uma obra estivesse completamente
pronta. Havia sempre um traço que poderia ser alterado, uma palavra
substituída, uma cor mais adequada. Ao mesmo tempo, desconfiava do excesso de
cálculo, pois sabia que a espontaneidade também era uma forma de verdade.
Caminhava nesse território incerto, onde conviviam disciplina e liberdade,
rigor e impulso criador. Era justamente essa tensão que alimentava sua
imaginação.
Às vezes perguntava a si mesmo de onde vinha essa
maneira de enxergar o mundo. Revirando as lembranças, encontrava uma resposta
parcial na infância. Recordava um desenho feito na escola primária, desses que
as professoras pregavam no mural durante a semana das artes. Nele aparecia uma
espécie de super-herói. Permanecia de mãos à cintura, o corpo levemente
inclinado para a frente, numa postura resoluta. Parecia prestes a sacar a arma
que carregava na cintura e, antes do gesto definitivo, lançava ao adversário um
ultimato. O desenho, bastante simples, era formado por linhas tortas, cores mal
preenchidas e uma perspectiva inexistente. Ainda assim, havia nele uma
convicção que o comovia.
O menino que desenhara aquela figura não conhecia
anatomia, composição nem proporção. Também não sabia que um herói, por
definição, deveria inspirar coragem mais do que ameaça. Apenas reunira tudo o
que absorvera dos gibis, dos filmes de faroeste e das brincadeiras de rua. O
personagem era uma mistura improvável de justiceiro, cowboy e mascarado. Aos
olhos de um adulto, era um desenho ingênuo; aos olhos da criança, representava
uma verdade inquestionável.
Muitos anos depois, percebeu que aquele herói infantil
continha um simbolismo inesperado. A arma nunca chegava a ser sacada. O
instante mais importante era justamente o anterior, quando tudo permanecia
suspenso entre a ação e a possibilidade de desistir. Aquele ultimato talvez
fosse dirigido menos ao inimigo do que ao próprio desenhista. Era a
representação da dúvida, do breve intervalo em que a decisão ainda não se
completara.
Desde então passou a reconhecer esse mesmo instante em
quase tudo. Na política, nas relações familiares, nas escolhas profissionais e
até nos afetos. As pessoas raramente viviam apenas entre o certo e o errado;
habitavam, sobretudo, o espaço intermediário das hesitações. Era ali que
surgiam as justificativas, os arrependimentos, os improvisos e, não raro, as
melhores soluções.
Talvez
por isso nunca tenha abandonado a curiosidade sociológica. Continuava
convencido de que compreender o ser humano significava aceitar suas
contradições. A perfeição, quando existia, era apenas um instante imaginado. A
vida verdadeira acontecia no improviso, onde a dúvida deixava de ser fraqueza
para transformar-se em instrumento de conhecimento. E, de certo modo, aquele
antigo super-herói permanecia de pé, imóvel, de mãos à cintura, lembrando-lhe
que as decisões mais importantes nem sempre pertencem ao momento do disparo,
mas ao silêncio que o antecede.
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Chamando Maria
Conheceu o idoso que afirmavam estar
acamado por quase duas décadas. Não fazia sentido. Falava Maria... ô Maria!
Quem poderia ser? Queria saber da tia, agitada com as declarações do marido:
- Deve ser alguma rapariga que ele
conheceu na época de moço, mô filho. Ele andava muito a cavalo por esses ermos
afora.
Andava ciente de que a senhora não estava
propriamente esculhambando; ressentida, ela fazia alusão ao feminino de
"rapaz" em seu vocabulário conservador. Ao notar que a tia-avó estava
incomodada, decidiu não prosseguir com a conversa.
Também era hora de voltar. Afinal, estava
aprendendo a dirigir o carro. Devido à tia, que era muito querida e morava nas
redondezas, ele havia recebido uma autorização implícita para utilizá-lo.
Embora fosse a mais velha e coxa, a tia, uma lutadora, não tinha sido moça
casadoira, foi a terceira na fila para se casar na família. Contudo, obrigada a
tomar as rédeas dos negócios, mesmo sem ostentar os adornos da beleza, o
destino se mostraria fundamental em sua vida conjugal. Assim, após alguns anos
de espera, diante da invalidez que se tornaria permanente do marido, ela teve
que arregaçar as mangas e usar seus esboçados talentos para substituí-lo. Criou
os filhos, arrumou casamentos para todos eles e os orientou na vida. Agora,
após todos esses anos, ele estava presente, em um momento de clareza mesclado
com delírio, chamando por Maria... ô Maria com uma voz que ressoava pelos
amplos cômodos da casa.
A prática de andar mancando levou à
criação de um estilo nos afazeres diários, como abrir e fechar a porteira do
curral, agachar-se para alimentar os animais, acariciá-los e conversar com eles
em uma língua compartilhada. Sem contar o combate que ainda dava nos serviços
de cozinha, a comidinha, o doce, o bolo e o café, na hora certa.
Melhor que tentasse logo manter uma conversa
com o velho. Queria entender quem era essa Maria a quem ele se referia. Talvez,
num lampejo de memória, ele conseguisse dizer. Ele se punha, naquelas tardes de
treinamento, a imaginar toda uma história de um moço de boa cepa e cheio de
entusiasmo com uma moça com tal nome. E ele falava com firmeza de voz, não
delírio de uma pessoa embriagada. Afinal era um homem paralisado no leito, sem
ninguém para lhe dar ouvidos. A tia, cuidando de assuntos importantes e também
já calejada, não se curvava a esses desvarios. Mas de tanto apresentar
questionamentos, respondia em atenção ao sobrinho visitante:
- Ítalo, mô fi, não ligue pra ele não,
isso é só quando aparece gente que lhe dá prosa que ele lembra dessa moça.
- E ela existe ou chegou a existir?
- Uns diziam que era bestagem dele, outros
que ele andava variado da cabeça.
Falava-se pouco sobre o caso, mas, em
conversas informais, especulava-se que ele havia se envolvido com algum rabo de
saia na época. Essa ideia persistia em episódios de ataques que o tempo não
conseguia apagar.
O
pai havia mencionado algumas travessuras do tio nos seus primeiros anos de
casamento, e que, com certeza, havia um flerte com uma mulher na cidade que o
deixava animado. Mas a tia nem sonhava, até que veio a doença, e ele ficou como
se dependesse de uma conversa com alguém, que ninguém sabia. Como forma de
respeito, o tema era discutido às escondidas da senhora da casa, que, de sua
própria maneira, demonstrava estar além do mero ciúme.
Um dia questionara ao pai por que tanta
atenção dedicada a essa tia:
- Ela é a que mais se parece com minha
mãe.
A fazendinha escurecia, e ao se despedir
da tia, ele manobrou o veículo, assustando os bichos de quintal — perus, cocás
e galinhas — ao redor da tia, que dizia “está cedo”. De lá, ainda conseguiu
ouvir o velho chamando em um delírio repetitivo: "Ô Maria!"
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Tânia
Um
homem do campo encostou sua bicicleta de maneira descontraída em um cercadinho
sob a sombra de um pé de algaroba, como se estivesse deixando ali um animal de
montaria. Ao chegar ao barzinho, Italo percebeu que vinha para conversar com
ele e pediu uma cerveja, como de costume. Não era para ser consultado nem
solicitado, mas para uma palavra. Habitual na interação com os eleitores. O
jovem vereador prontamente reconheceu. Era Nildo, que tinha oferecido um forte
suporte durante sua campanha e se tornado seu seguidor nas ideias.
—
Queria saber o que aconteceu entre o senhor e minha filha. Peço desculpas pela
ousadia da menina.
Foi
como mergulhar num freezer depois de sair de uma sauna. O choque foi imediato.
Felizmente, Nildo logo acrescentou que tudo não passara de um excesso de
entusiasmo juvenil durante a campanha. Assim, Ítalo não precisou se aprofundar
em explicações que, sem dúvida, soariam absurdas.
Apenas
ele sabia o quanto aquele episódio havia reacendido algo do jovem apaixonado
que fora um dia. Contido o princípio de incêndio, os dois retomaram as
conversas habituais. Ainda assim, Ítalo percebeu que havia ali menos um cabo
eleitoral e mais um pai solo preocupado com a filha adolescente. Afinal, criava
a garota sem a figura da mãe.
Na
despedida, Nildo voltou a pedir desculpas. E Ítalo ficou pensando no que a
garota teria contado ao pai, de tanto interessante, sobre a recepção calorosa que recebera — os
abraços, os beijos no rosto, os gestos impulsivos próprios da idade. O que o
atormentava era a lembrança daquele breve e acidental encontro de bocas,
ocorrido em meio à confusão das despedidas. Não podia se permitir ceder àquela
fraqueza. Dependendo de como fosse vista, poderia ser interpretada como a
sedução de uma jovem vulnerável — ou algo ainda pior.
Viu Nildo pegar sua Monark e se
afastar, acenando com a cabeça em resposta aos transeuntes, sentindo-se com o
dever cumprido. Então, de repente, se lembrou de que ela teria retornado e se
encontrado com ele naquele mesmo barzinho. Estavam animados com o jogo que
assistiam, tomando cerveja, quando se depararam e se grudaram num beijo, agora
com a suavidade professoral do momento.
Dias depois, Nildo apareceu com um
convite de casamento de Tânia com um rapaz da cidade:
- Ela faz questão que o senhor vá.
- Claro, Nildo!
terça-feira, 9 de junho de 2026
Era
para grandes voos, com o queixo erguido, durante o ensaio, mas a vida era
assim:
-
De repente, você se vê na situação de ter que cobrar o pênalti – Ítalo dizia
para Selmas.
E
acrescentava:
- Queria brincar, provocar, chamar o colega,
mas era você e era sério, o tempo estava passando, o estádio estava cheio, só
agora você percebeu isso, o que aconteceu, aconteceu. Continuava em frente, saía
de baixo, pois você estava na frente, atrapalhava, mas a foto era tirada mesmo
assim, sem dar tempo de arrumar o colarinho e se recompor, como estava o
emoldurado secular.
Para
superar tal imbróglio, ele iria adotar o motivo da borboletinha amarela de
bando e pegar o ermo de estrada a partir dali.
-
Como é o caso dessa borboletinha amarela, Ítalo? – quis saber Selmas.
Os
dois conversavam à mesa do café em um domingo. Depois de tomar um gole e
descansar a xícara sobre a mesa, Ítalo contou uma história breve, lembrando-se
de quando era criança e se despedia do motorista do caminhão da Bela Vista, que
havia deixado alguns produtos alimentícios enlatados e estava prestes a seguir
seu caminho de volta. Ao acenar com a mão aberta em um gesto de despedida, uma
pequena borboleta amarela em bando apareceu.
Foi um momento de felicidade.
-
Momento nostálgico: infância, família no lar, uma situação de conforto, você
quer dizer. E daí? – disse Selmas.
-
Guarde sempre consigo. Em certos momentos de peso, você não vai ter que
enfrentar o touro?
-
Sim, mas e daí?
-
Quando a assombração vier para te envolver, mude de foco.
-
Escapar?
-
Vá despertar num lugar aprazível, respirar seu ar puro, sentir seu perfume, e
não ficar lamentando o leite derramado.
-
Então essa borboletinha vai apagar toda essa frustração?
-
Ao contrário, com a imagem do lepidóptero você vai longe. Depois, a vida é
grande, comporta recuperações, mudanças e, em outras nuances, reparos
camaleônicos, além de sopros de esquecimentos.
-
Vai longe, hein?
- Isso é misericórdia de Deus em nosso favor. Para
tolerância de possíveis dores, nos valemos da fé e dessas imagens que trazemos
guardadas. Eu li outro dia uma crônica de João Ubaldo Ribeiro e entendi o ponto
de vista dele.
-
Sobre o quê?
-
Ele lutava contra o vício do álcool. Chegou a um ponto que ele teve que se
apegar fortemente com Nossa Senhora e conseguiu vencer. Ficou livre e durou
mais algum tempo.
-
Bonito, mas é triste.
-
Por isso guardo dentro de mim essa imagem, entre outras, a de crianças
retornando para casa, cada uma segurando seu próprio sorvete de casquinha.
Enquanto o pai finalizava o pagamento, o menino começou a chorar porque seu
sorvete havia caído devido ao movimento do braço. Então, sua irmãzinha mais
velha deixou que ele desse umas chupadinhas no dela. Uma canção de Waldick
Soriano, ele saberia depois, era tocada
no alto-falante da sorveteria, o único ponto da cidade. Foi uma cena emoldurada
de felicidade passageira.
Selmas colocou a mão no seu ombro e perguntou, olhos nos olhos:
-
E aí, você vai cobrar o pênalti ou o quê?
-
Desperdicei vários deles e agora esqueci, não vou me desgastar, estou em outra.
domingo, 24 de maio de 2026
Cíntia
Ítalo nunca soube ao certo em que
momento começou a olhar para Cíntia daquele jeito. Talvez tivesse sido aos
poucos, numa dessas tardes abafadas em que ela passava pela rua com os cabelos
escuros presos às pressas e os olhos baixos, como quem atravessa o mundo sem
desejar chamar atenção. Ou talvez tivesse sido no dia em que ouvira falar do
choro por Maneco — um choro exagerado, diziam, de arrancar os cabelos e perder
o juízo no meio da loja.
Quem lhe
contou foi Zezito.
O
pobre-diabo do Zezito, motivo de deboche para quase todo mundo, servia para as
risadas fáceis da esquina, para os apelidos cruéis e para os mandados de última
hora. Só Ítalo lhe dava algum crédito. Comprava-lhe cigarros às vezes, escutava
suas histórias pela metade e tolerava aquela presença magra e inquieta que
parecia sempre pedir licença ao mundo.
Ainda assim,
fora Zezito quem um dia lhe salvara a vida.
Ítalo se
lembrava perfeitamente da tarde em que quase batera de frente com um carro na
estrada. O outro veículo vinha rápido, surgindo numa curva estreita, e ele
provavelmente não teria tido tempo de reagir se Zezito não tivesse avançado
para o meio da rua, agitando os braços como um louco. Na época, Ítalo xingara o
susto. Só depois percebera o tamanho do desastre evitado.
Talvez por
isso nunca o afastasse completamente.
Naquela
tarde, estavam sentados perto do bar, olhando o movimento da rua, quando Cíntia
passou.
— Eu
estava aqui no dia em que essa menina chorou por causa de Maneco — comentou
Zezito, com a naturalidade de quem fala do tempo. — Chorava que era um horror.
— Ele só
bolinou ela e depois caiu fora — acrescentou Zito.
Ítalo
acompanhou a figura da moça desaparecendo pela esquina.
— Agora
ela está até mais bonita. Maneco perdeu.
Zezito
abriu um sorriso torto.
— Mas
agora ela está disponível.
Aquilo
ficou pairando no ar por alguns segundos. Ítalo riu sem compromisso e, antes de
sair, bateu no ombro dele:
— Só você
mesmo, Zito, pra ajeitar Cíntia pra mim.
Dissera
brincando. Ou quase.
Durante
algum tempo, Ítalo alimentara a impressão perigosa de que certas pessoas podiam
ser conduzidas apenas pelo desejo firme de quem as queria. Como se bastasse
imaginar muito uma coisa para que o mundo, discretamente, começasse a
empurrá-la em sua direção.
Por isso
não se espantou tanto quando Zezito apareceu dias depois, no meio do
aquecimento de uma festa, com os olhos brilhando de importância.
— Cíntia
vai estar esperando você depois das nove.
Ítalo
sentiu um calor subir-lhe pelo corpo.
— Você
falou com ela?
— Falei
que você vivia comentando… que queria sair com ela.
— E ela?
— Achou
que eu estava mentindo.
— Depois?
— O patrão
apareceu na loja. Ela teve que fingir que não era nada. Mas eu voltei lá
depois. Ela mandou dizer pra você passar no ponto.
Enquanto
falava, Zezito parecia satisfeito consigo mesmo, como um sujeito que finalmente
carregava algo precioso nas mãos.
Ítalo
imaginou Cíntia atrás do balcão da loja de móveis, desviando os olhos, fingindo
desinteresse. Gostou disso. Gostou até do ciúme repentino ao saber que o dono
da loja era ligado à igreja da mãe dela. Preferiu não perguntar mais nada.
Quando a
encontrou naquela noite, tudo aconteceu numa calma estranha.
Ela veio
silenciosa, encostando-se nele com uma intimidade tímida, e o perfume dos
cabelos ocupou o interior do carro. Ítalo a abraçou primeiro com desejo, depois
com cuidado, como se precisasse confirmar que ela existia mesmo.
Afastou-a
devagar apenas para olhá-la.
— Que foi?
— ela perguntou, sorrindo de leve.
— Quero
ver seu rosto.
— Ah… meus
olhos verdes?
— Também.
Posso imaginar o resto.
Ela riu
baixo.
Conversaram
mais do que ele esperava. No caminho até o quarto, nas pausas entre um beijo e
outro, nas pequenas perguntas inúteis que duas pessoas fazem quando já sabem o
que vai acontecer.
Depois
veio o silêncio.
O silêncio
das mãos correndo pela pele, dos botões cedendo, dos zíperes abrindo caminho. O
beijo que trocaram tinha alguma coisa acumulada, antiga, como se chegasse
atrasado de muitos meses.
Mais
tarde, os corpos cansados e quentes entre os lençóis, Ítalo murmurou junto ao
ouvido dela:
— Faz
tempo que fico te olhando.
— Eu não
acreditei no recado — confessou ela. — Achei que fosse brincadeira de Zezito.
Ítalo
sorriu no escuro.
Só então
percebeu os pelos macios escondidos entre suas pernas e comentou aquilo com uma
ternura inesperada.
Cíntia
ficou envergonhada.
— As
meninas dizem pra tirar…
— Não
tira.
— Tenho
vergonha.
— Não tem
do quê.
Beijou-a
de novo, demoradamente, como se quisesse protegê-la até dela mesma.
Anos
depois, era chuva o que havia entre eles.
Uma chuva
fina, transformada em névoa sobre a cidade silenciosa. Ítalo procurava lugar
para estacionar perto do velório sem se importar com o cansaço da viagem. Tinha
atravessado quase dois mil quilômetros para se despedir de Zezito.
Não
abandonaria o amigo naquele instante final.
Foi então
que viu Cíntia.
Ela estava
parada entre outras pessoas, segurando uma sombrinha escura. Parecia diferente
— mais velha talvez, mais quieta —, mas os olhos permaneciam os mesmos.
Trocaram
apenas um olhar breve.
Ítalo
imaginou que ela viesse agora de Minas, onde ouvira dizer que morava. E achou
estranho perceber que ambos tinham retornado pelo mesmo motivo: aquele homem
ridicularizado por todos, o sujeito magro e desajeitado que atravessara suas
vidas quase sem ser notado.
Talvez
certas pessoas existam apenas para ligar umas vidas às outras.