Medusa
Ele acabara de se barbear e estava prestes
a experimentar um lencinho de amostra grátis daquelas loções pós-barba, que
apareciam no encarte da revista Playboy, para fazer o teste de charme com o
público feminino. Ao olhar-se no espelho e ver seu rosto com a alvura de pele
macia deixada pelo aparelho Gilette G2, pronta para receber o produto
perfumado, convenceu-se da propaganda: estava irresistível. Um jovem universitário, nos seus atos
preparatórios, em sua essência, para enfrentar a realidade.
-
Dê um cheiro aqui pra avaliar se é mesmo do bom – oferecia o rosto branco, de
barba tirada, aos tripulantes da barca, como denominava o apê em que moravam,
para as irmãs, a empregada, que também, meio tímida, procurava se aproximar:
-
Hummm! – dizia cada uma depois de um rápido encosto.
-
Vai pra onde assim? – perguntava a outra.
-
Vou sair por aí, vamos ver quem vai ser a premiada – disse Ítalo em tom de
brincadeira.
Como
em um dia mágico, logo o telefone começou a tocar. Certamente para confirmar a
reunião com ela, a beneficiada. Quem era de fato ela? Não, não era uma de suas
colegas, pois ela ainda iria formar no ano seguinte. Ao cumprimentar seu colega
Simeão, conheceu Mercedes:
-
Vocês se conhecem de onde? - quis ela saber.
-
Do curso de Direito que temos pela manhã. E quanto a vocês? Não me diga que
você já paquerou Simeão – devolveu Ítalo, que também tentava contato com Medusa,
assim chamada por causa do cabelo.
Em Simeão, de pele branca, uma vermelhidão subiu pelo rosto
e levou tempo para desaparecer. Ítalo percebeu rapidamente que o colega estava
interessado na garota e ao seu modo decidiu investigar essa suspeita. Mercedes,
embora parecesse filhinha de papai, burguesa, era pelo menos um ensaio do tipo
boazuda.
- Pronto. É Ítalo. Diga, Medusa! Passo aí daqui a vinte
minutos.
Após um certo tempo, Ítalo arrematou a conversa:
- O meu TCC? Quem te falou? Você vai querer emprestado? Você
ouviu comentários, é? Tá bom, estarei levando comigo.
Ítalo sabia da importância do TCC, mas não dessa loucura
toda entre a turma. Desleixado que era para essas arrumações, cuidou de fazer
um relatório sem floreio, com o necessário, e tirou nota oito e meio. Os alunos
que se formariam no ano seguinte se movimentaram em busca do trabalho para usar
como modelo. Até quem andava sumido aparecia pleiteando.
- Deu muito trabalho pra encontrar, mas agora está comigo, e
nem reconheci porque colocaram uma outra capa, mais agradável – completou.
Fazia
mais de quinze minutos que ele estava ali, em uma sala de estar de um
apartamento em um condomínio na Barra. Enquanto a vida acontecia lá fora,
acomodado no sofá com um monumento no colo, ele subia e descia os morros de Medusa,
mas que não deixava se aproximar da gruta.
Devagar
para não quebrar o encanto, apesar dos cuidados dela, de surgir algum familiar.
Quis perguntar sobre esse detalhe, mas achou demostrar fraqueza sua e acabou
por desistir. Além do mais o jovem posava numa de quase veterano, matriculado
em dois cursos, bacharelado em Direito, matutino, numa escola pública e concluindo
o de licenciatura em Letras, noturno, na outra particular.
-
Mas o cara, esse tal de Simeão, não está de volteios com a moça?