Cíntia
Ítalo nunca soube ao certo em que
momento começou a olhar para Cíntia daquele jeito. Talvez tivesse sido aos
poucos, numa dessas tardes abafadas em que ela passava pela rua com os cabelos
escuros presos às pressas e os olhos baixos, como quem atravessa o mundo sem
desejar chamar atenção. Ou talvez tivesse sido no dia em que ouvira falar do
choro por Maneco — um choro exagerado, diziam, de arrancar os cabelos e perder
o juízo no meio da loja.
Quem lhe
contou foi Zezito.
O
pobre-diabo do Zezito, motivo de deboche para quase todo mundo, servia para as
risadas fáceis da esquina, para os apelidos cruéis e para os mandados de última
hora. Só Ítalo lhe dava algum crédito. Comprava-lhe cigarros às vezes, escutava
suas histórias pela metade e tolerava aquela presença magra e inquieta que
parecia sempre pedir licença ao mundo.
Ainda assim,
fora Zezito quem um dia lhe salvara a vida.
Ítalo se
lembrava perfeitamente da tarde em que quase batera de frente com um carro na
estrada. O outro veículo vinha rápido, surgindo numa curva estreita, e ele
provavelmente não teria tido tempo de reagir se Zezito não tivesse avançado
para o meio da rua, agitando os braços como um louco. Na época, Ítalo xingara o
susto. Só depois percebera o tamanho do desastre evitado.
Talvez por
isso nunca o afastasse completamente.
Naquela
tarde, estavam sentados perto do bar, olhando o movimento da rua, quando Cíntia
passou.
— Eu
estava aqui no dia em que essa menina chorou por causa de Maneco — comentou
Zezito, com a naturalidade de quem fala do tempo. — Chorava que era um horror.
— Ele só
bolinou ela e depois caiu fora — acrescentou Zito.
Ítalo
acompanhou a figura da moça desaparecendo pela esquina.
— Agora
ela está até mais bonita. Maneco perdeu.
Zezito
abriu um sorriso torto.
— Mas
agora ela está disponível.
Aquilo
ficou pairando no ar por alguns segundos. Ítalo riu sem compromisso e, antes de
sair, bateu no ombro dele:
— Só você
mesmo, Zito, pra ajeitar Cíntia pra mim.
Dissera
brincando. Ou quase.
Durante
algum tempo, Ítalo alimentara a impressão perigosa de que certas pessoas podiam
ser conduzidas apenas pelo desejo firme de quem as queria. Como se bastasse
imaginar muito uma coisa para que o mundo, discretamente, começasse a
empurrá-la em sua direção.
Por isso
não se espantou tanto quando Zezito apareceu dias depois, no meio do
aquecimento de uma festa, com os olhos brilhando de importância.
— Cíntia
vai estar esperando você depois das nove.
Ítalo
sentiu um calor subir-lhe pelo corpo.
— Você
falou com ela?
— Falei
que você vivia comentando… que queria sair com ela.
— E ela?
— Achou
que eu estava mentindo.
— Depois?
— O patrão
apareceu na loja. Ela teve que fingir que não era nada. Mas eu voltei lá
depois. Ela mandou dizer pra você passar no ponto.
Enquanto
falava, Zezito parecia satisfeito consigo mesmo, como um sujeito que finalmente
carregava algo precioso nas mãos.
Ítalo
imaginou Cíntia atrás do balcão da loja de móveis, desviando os olhos, fingindo
desinteresse. Gostou disso. Gostou até do ciúme repentino ao saber que o dono
da loja era ligado à igreja da mãe dela. Preferiu não perguntar mais nada.
Quando a
encontrou naquela noite, tudo aconteceu numa calma estranha.
Ela veio
silenciosa, encostando-se nele com uma intimidade tímida, e o perfume dos
cabelos ocupou o interior do carro. Ítalo a abraçou primeiro com desejo, depois
com cuidado, como se precisasse confirmar que ela existia mesmo.
Afastou-a
devagar apenas para olhá-la.
— Que foi?
— ela perguntou, sorrindo de leve.
— Quero
ver seu rosto.
— Ah… meus
olhos verdes?
— Também.
Posso imaginar o resto.
Ela riu
baixo.
Conversaram
mais do que ele esperava. No caminho até o quarto, nas pausas entre um beijo e
outro, nas pequenas perguntas inúteis que duas pessoas fazem quando já sabem o
que vai acontecer.
Depois
veio o silêncio.
O silêncio
das mãos correndo pela pele, dos botões cedendo, dos zíperes abrindo caminho. O
beijo que trocaram tinha alguma coisa acumulada, antiga, como se chegasse
atrasado de muitos meses.
Mais
tarde, os corpos cansados e quentes entre os lençóis, Ítalo murmurou junto ao
ouvido dela:
— Faz
tempo que fico te olhando.
— Eu não
acreditei no recado — confessou ela. — Achei que fosse brincadeira de Zezito.
Ítalo
sorriu no escuro.
Só então
percebeu os pelos macios escondidos entre suas pernas e comentou aquilo com uma
ternura inesperada.
Cíntia
ficou envergonhada.
— As
meninas dizem pra tirar…
— Não
tira.
— Tenho
vergonha.
— Não tem
do quê.
Beijou-a
de novo, demoradamente, como se quisesse protegê-la até dela mesma.
Anos
depois, era chuva o que havia entre eles.
Uma chuva
fina, transformada em névoa sobre a cidade silenciosa. Ítalo procurava lugar
para estacionar perto do velório sem se importar com o cansaço da viagem. Tinha
atravessado quase dois mil quilômetros para se despedir de Zezito.
Não
abandonaria o amigo naquele instante final.
Foi então
que viu Cíntia.
Ela estava
parada entre outras pessoas, segurando uma sombrinha escura. Parecia diferente
— mais velha talvez, mais quieta —, mas os olhos permaneciam os mesmos.
Trocaram
apenas um olhar breve.
Ítalo
imaginou que ela viesse agora de Minas, onde ouvira dizer que morava. E achou
estranho perceber que ambos tinham retornado pelo mesmo motivo: aquele homem
ridicularizado por todos, o sujeito magro e desajeitado que atravessara suas
vidas quase sem ser notado.
Talvez
certas pessoas existam apenas para ligar umas vidas às outras.