Diva
A rigor, não houve despesa alguma com o
resultado de uma aventura que arriscara na juventude, além de alguns
telefonemas, exames laboratoriais, serviços jurídicos junto ao Ministério
Público e uns sorvetes de coco numa manhã clara na avenida principal. Tudo teve
início com um telefonema recebido no local de trabalho:
- Ela agora pergunta pelo pai, quer
saber como foi – dizia a mãe, numa voz que vinha limpa de terra distante.
- Oxe, como foi como? Final de festa,
ué – estranhou Ítalo numa posição defensiva.
- Não. Isso ela já sabe – raquetou a
mãe
- Você estava com seu namorado – Ítalo devolveu
a bola.
- Mas não me deitei com aquele cachorro,
ela sabe também. Aí você vai ter que falar com a avó, minha mãe, que pôs na
cabecinha dela o que rolou na cidade, que é filha sua – arrebatou por fim a
garota daquela ocasião.
- Minha? – gritou Ítalo.
Subitamente,
ele, na posição que detinha na comunidade, com uma filha pré-adolescente
suposta. Um breve entusiasmo com a ideia a acompanhou por onde passava,
especialmente depois de ouvir a voz da menina pelo telefone.
-
Aquele dia eu dei uns conselhos a ela porque você me pediu.
-
É, eu sei. É que eu não tinha a quem recorrer nessas horas.
Nesse
dia falou como se fosse pai atencioso de uma criança, que acabou sossegadinha e
foi dormir, mas agora era uma mocinha.
Teve
que tomar providência. Primeiro, ajeitar passagens ida e volta e vagas num
hotel de classe, bem como exames de laboratório e caminhadas para o Ministério
Público. Depois, escalar tia Brenda para um sorvete de recepção numa lanchonete
decente.
- Por que eu?
- Uma pessoa amiga, né, tia? Você queria
que eu chamasse Selmas?
- E ela não sabe de nada?
- Sabe da conversa da época, superado, é
só, sem maiores riscos. Afinal, as
cabaças acabam se ajeitando.
- Mas você vai ter que mexer com isso
de novo, Ítalo.
- Perdeu o calor da coisa, tia –
tentava explicar. - Hoje se olha pelo retrovisor: eu era jovem e coisa e tal...
- Vocês homens...
- Você vai ficar um pouco para quebrar o
gelo, fazer a maciota, vamos dizer assim, que nós só nos falamos umas poucas
vezes e ainda assim por telefone – argumentava Ítalo.
Ela sorriu, mas, em troca, queria
informações sobre o caso. Então, houve a necessidade de recuperar da memória
distante imagens dele, ainda na frescura do caminho a seguir, tateante nas
aventuras das noites. E foi em um final de festa que decidiu tanger um garoto,
que devia lá ser o namoradinho dela, para dançar com algumas garotas já experimentadas:
- A gente passa em casa e curte um som
legal – era o chama.
Assim que colocou o disco na vitrola,
eles já estavam transando na cama. Ele adormeceu rapidamente, sem se recordar
da despedida com a amiguinha que esperava na sala.
- Depois, lá um dia, apareceu esse bebê
e a mãe, apertando a filha, contou com quem tinha saído.
- Já sei da história: seu nome estava
no meio - o cara, e foi fácil espalhar a notícia – disse e ficou contemplando
Ítalo. - Está bem, vamos aguardar –
confirmou tia Brenda, por fim.
Cumpriria
mais uma etapa. A próxima batalha seria travada no momento adequado, quando a
disposição dos astros fosse diferente. Por enquanto, ele optava por desfrutar
do papel de pai de uma garotinha, suspirando com uma expressão de preocupação.
Italo pesquisou o passado familiar e
descobriu que a razão para o divórcio de seu avô foi a mesma circunstância: ao
matricular na escola dos filhos uma menina que ele teve fora do matrimônio. Mas
suspirava aliviado ao constatar que o incidente ocorreu na década de cinquenta
e que novos tempos haviam chegado.
- Dizem que o exame é seguro, 99% de
certeza. É caro?
- É, mas existe desconto para o Ministério Público,
que tem convênio.
- E você espera positivo ou negativo?
- Na época eu não ia querer não, mas
agora estou mais preparado para me entender com Selmas e não acontecer o que
aconteceu com meu avô, né?
Nem por instantes lhe passou pela
cabeça um abalo na sua relação com Selmas. Uma nova versão, um remaker da
historia do seu avô? A batalha que tinha que enfrentar estava perto, que era
saber o resultado.
Ítalo
chegou cedo ao hotel para as orientações necessárias e até tomou café da manhã
com mãe e filha para se integrar. Foi combinado um passeio para tomar sorvete
mais tarde e, no dia seguinte, a ida à sede do Ministério Público para o lacre
da coleta de sangue com os técnicos de enfermagem.
Assim,
quando Ítalo se encontrou com a tia Brenda, já estavam próximos, e ele ajustou
um detalhe da blusa dela, tudo ocorreu de maneira ordenada, tanto que veio em
boa hora a ideia do sorvete.
-
O delas conforme pedido delas – explicava ao garçom o suposto pai. - O meu é de coco branco com pouco de coco
queimado.
No
dia seguinte, após a realização do serviço de protocolo perante a autoridade do
Ministério Público, que enviaria os documentos via SEDEX para Belo Horizonte,
despediram-se da garota Diva sem que um fotógrafo estivesse presente para
registrar a ocasião especial. Mas a tristeza maior veio tempo depois com abertura
do lacre do resultado, deixando a garota completamente frustrada. Após um
assentar da poeira, Ítalo recebeu a informação de que havia um outro e que esse
suposto pai havia se mudado para o Estado do Mato Grosso.
- Chega! se não foi desta vez, não
quero saber mais não – dizia Diva, inconsolável.