Irene
Ítalo iria apenas observar o pessoal da Direção, mas acabou enlaçado
pelos colegas da unidade de ensino onde lecionava. Era dessas ocasiões em que a
pessoa se dispõe a ficar quieta e, quando percebe, já lhe puseram alguma
responsabilidade nas mãos.
— Pronto, chegou Ítalo. Ele toca!
Alguém lhe entregou um violão.
Ítalo recebeu o instrumento com a resignação de quem recebe uma
incumbência para a qual não se preparara. Não era que não soubesse tocar. Sabia
alguma coisa. Arranhava alguns acordes, acompanhava certas canções, tinha lá
seus recursos. Mas daí a ser o professor que toca violão, aquele a quem
se recorre para salvar uma confraternização, havia uma distância considerável.
E justamente ali, diante de colegas, mestres visitantes e gente da
Direção, sua imagem profissional parecia estar em jogo. Professor, afinal,
também vive dessas pequenas reputações que se formam sem que ninguém perceba: o
que sabe falar, o que sabe ensinar, o que tem jeito para isto ou aquilo. Ítalo
não queria inaugurar, naquela tarde, a reputação de quem não sabia tocar.
— Vai, toque logo uma, qualquer uma, pra não ficar em branco. A
professora Irene ainda não chegou, mas o violão está aí.
Correu os dedos pelas cordas.
Turutuntumtum.
O instrumento, para seu azar, estava afinadíssimo.
Não havia sequer a desculpa de uma corda frouxa, de um som desafinado,
de qualquer imperfeição do violão que lhe permitisse devolver a
responsabilidade à matéria. O problema era ele mesmo.
Ítalo conhecia algumas canções, mas nenhuma parecia caber naquele
momento. Uma lembrança puxava outra, um acorde chamava outro, e as músicas iam
se embaralhando na cabeça como papéis de uma gaveta remexida às pressas.
Foi então que Irene entrou.
Chegou sem saber que, naquele instante, era aguardada como quem chega
para apagar um pequeno incêndio.
— Leva alguma aí pra gente, Ítalo!
Ele olhou para ela.
Por um segundo, pareceu-lhe que o tempo, paralisado, dava voltas sem
sair do lugar.
Continuou apenas debulhando o nylon. Os dedos procuravam uma saída. Nada
vinha inteiro. Um começo de música aparecia e desaparecia. Um refrão se
insinuava, mas não encontrava o caminho dos acordes. O violão, agora, parecia
muito maior do que era.
Irene percebeu.
E, talvez por perceber, não o deixou sozinho diante do silêncio.
— Vamos, Ítalo. Começa que eu acompanho.
Aquilo lhe devolveu o chão.
Ele dedilhou outra vez, procurando qualquer coisa que pudesse servir de
porta de entrada. Irene, então, no estalo, o acompanhou num sambinha antigo,
desses que parecem existir há muito tempo justamente para salvar momentos que
não sabem como terminar.
Apanhou o mote, como quem pega o animal pelo rabo, e começou a cantar Nem ouro nem prata, de Rui Maurite:
Eu vi chover,
eu vi relampear
Mas mesmo
assim o céu estava azul
Samborê, pemba,
é folha de jurema,
Oxóssi
reina de norte a sul
A voz saiu firme, surpreendentemente larga, ocupando a sala com uma
segurança que dispensava qualquer apresentação. Ítalo reconheceu a canção
apenas aos poucos. Soube depois que Irene cantava na igreja. Naquele instante,
entretanto, pouco importava de onde vinha aquela voz. Importava que ela havia
chegado.
Ele encontrou os acordes.
Não eram muitos. Não precisava que fossem.
Passou a acompanhar Irene com o cuidado de quem segura uma bandeja cheia
de copos. Ela, por sua vez, não deixou que a música se transformasse numa
demonstração de técnica. Cantava para o momento, não para mostrar que sabia
cantar.
E foi puxando os demais.
Um começou a bater palmas. Outro acompanhou baixinho. Alguém reconheceu
o samba e entrou no refrão. Em pouco tempo, já não havia o professor Ítalo,
aquele que temia desafinar diante dos colegas, nem o músico improvisado que
recebera o violão quase à força. Havia somente uma roda de gente aproveitando
aqueles minutos.
Ítalo percebeu então a delicadeza do que Irene fizera.
Ela não o salvara simplesmente de uma situação constrangedora. Salvou o
próprio instante.
Porque poderia ter dito que não sabia cantar. Poderia ter deixado o
silêncio cair sobre ele, poderia ter feito uma brincadeira e devolvido o
violão. Em vez disso, entrou na música como quem entra numa conversa no momento
exato em que o outro já não sabe o que dizer.
E, enquanto tocava aqueles poucos acordes, Ítalo começou a se sentir
menos preocupado consigo.
A imagem do professor, que minutos antes lhe pesava sobre os ombros, foi
ficando menor. Que importância tinha, afinal, tocar perfeitamente? Que
importância tinha parecer habilidoso diante de colegas que, dali a pouco,
talvez nem se lembrassem de quem tocara?
Irene cantava.
Os mestres visitantes sorriam.
A sala, que antes esperava uma despedida formal, encontrava uma alegria
inesperada.
Ítalo acompanhava.
E aquilo bastava.
Mais tarde, talvez ninguém se lembrasse dos acordes. Talvez nem da
música inteira. Mas se lembrariam daquela tarde em que uma professora cantou
com um vozeirão de igreja, um professor quase sem repertório segurou um violão
como pôde e, por alguns minutos, todos deixaram de ser cargos, funções,
visitantes, direção, mestres e subordinados.
Foram apenas pessoas.
Ítalo olhou de relance para Irene e sorriu.
Ela percebeu e, sem interromper o canto, fez-lhe um pequeno gesto com a
cabeça,
como quem dizia:
Continue. É disso que se trata.
E ele continuou.
Não porque tivesse descoberto, de repente, que sabia tocar.
Mas porque Irene lhe ensinara, sem nenhuma aula, que há momentos em que
não é preciso saber fazer perfeitamente alguma coisa. Basta não deixar que o
momento passe em branco.