segunda-feira, 2 de março de 2026

 

Vitoria

 

 

No alto de uma ruazinha da ponta da cidade, Ítalo desceu do carro, com sua bengala, e foi tomando pé do local observando o casario em volta, até a esquina:

- Que casinha simples e bem feitinha, Selmas! Tem placa de numeração, de nome do logradouro, numa parede recém-pintada, mas... pombas! ... com placa de “Vende-se”!

- Você queria o quê? –  indagou a mulher, que terminava de estacionar o veículo. – O dono dessa casa recebeu da mulher o aviso, que eles estavam se separando e que vendesse a casa e a moto, passasse a parte dela, que ela iria pra S. Paulo com seu amante.

- Oxe, e pode assim? – estranhou ele, enquanto se acomodava na sarjeta de uma padaria em frente.

- Esses meninos se casam e se separam ao sabor da onda. De repente, “pintou um lance” e pronto; a responsabilidade que se lixe: não existe compromisso explicava Selmas, mais andeja que o companheiro.

- E os filhos como ficam?

- Ficam.

- Essa não...

Ítalo começou a imaginar. O jovem seria de Marte, de outra galáxia, seria? E quanto aos meninos?

- Afirmam que o pai, além de trabalhar, também dedica tempo para cuidar deles e faz isso com muita competência. "Ele pelejou com ela, mas acabou desistindo", explicou Selmas.

Percebendo o interesse de Ítalo, continuou:

- Ela ia para as festas e ele ficava em casa tomando conta do menino.

- Então era desse jeito?

- Era. A vizinhança se cansou de ver carro chegando tarde da noite, quando ela voltava das festas com os amigos.

- E ele não se queixava?

- Ora, reclamava de quem fazia barulho, para não acordar a esposa.

- Passou os primeiros anos de casado fazendo a casa, que é essa que teve que botar a venda para ter que partilhar com essa mulher.

A dona da padaria se aproximou para atendimento e, tendo assuntado na prosa do casal freguês, informou para encerrar:

- O  nome da mulher dele, a gente brincava na escola para desbancar, é Vitória, Vitória-Correu- cinco-léguas-e-cagou-cinco-toras”.

 

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