A lista
Ao lidar com fantasmas das escritas, ele
se via fazendo anotações de nomes aleatórios como Alaine, Sandrita, Ednei e Ana
Francisca, em busca de um título: umas primas.
Não seriam mais do que primas, como tantas outras, se não fosse um
pequeno detalhe: o desejo de ficar abraçado com elas para sempre. E assim caminhar pelos campos. Muito forte
dizer isso, mas a verdade era para ser dita. Sorriso tímido, companheira, nunca
Alaine iria deixar-lhe de lado. Sandrita, com seu abraço volumoso e sensual.
Ednei, o que a enxuta escondia, enrolada na toalha? Naquela alvura de pele e
firmeza no olhar, de que se escapulia a arredia Ana Francisca?
-
Em quaisquer desses braços eu cairia e me encontraria – dizia ele aos quatro
ventos.
- Qual dessas você elegeria a predileta,
Ítalo? – perguntava-se nessa ocasião de prosa.
Mas o cuidado delas por Ítalo seria o
ponto em comum entre as primas.
- Vou colocá-las na minha lista de pessoas
que eu gosto de graça. Acho que não tem nenhum problema.
- Quem está nessa lista, Ítalo? Você me
falou, faz tempo, que de atriz só tinha Lídia Brondi, e agora? – perguntava a
filha de Ítalo.
- Ih, relacionei muita gente.
- Seus filhos? – insistia a filha.
- Nenhum parente próximo, além de duas
sobrinhas: Beatriz e Angélica.
Todos concordaram sacudindo a cabeça:
- Realmente, as meninas são de primeira. Mas o senhor as vê tão pouco! Quem mais?
- Nenhuma pessoa que vocês acham
especiais. Pessoas simples... como Marcão de seu Sizínio e Zéu, um taxista, por
exemplo.
- Qual é o caso de Marcão de seu Sizínio?
- Não foi amor à primeira vista como
aconteceu com seus irmãos Orlando, César e Marivaldo, todos mencionados na
minha lista. Pensei em colocar o nome de um amigo de infância, Orlando, ao
mesmo tempo em que lembrava de César, que o substituía no companheirismo diário
após sua mudança. Também considerava o mais novo, Marivaldo, para quem
emprestava livros e era muito gente boa.
- Sim, e Marcão?
- Marcão é irmão deles, mas apenas por
parte paterna. Depois de cobrar dele uma dívida, fui descobrindo quem ele
realmente era, coitado. Ele
comercializava produtos paraguaios e se comprometeu a devolver um valor, pois a
peça que solicitei não funcionou. Acabei por conhecê-lo melhor e nem pensei em receber
nada. É um grande amigo... faz qualquer coisa por você, até mesmo morrer. Já
havia adicionado três, então foi fácil incluir o Marcão.
- E Zéu?
- Zéu, nós nos encontramos em um bar. Eu
percebia que tudo que eu dizia concordava. Cheguei até a ter a ideia de mudar
de bar e propus um nome que Zéu já havia considerado. O jogo do Vasco estava
sendo exibido na TV. Achei os palpites que ele dava interessantes, até
descobrir que ele também era vascaíno. Recolho-me.Concordou com as cervejas que
eu solicitava e com o momento de partir. Sempre que procurado, ele me servia.
Disse de Elton Melo, Rubão e Fabinho,
todos músicos, e, pelo menos, ninguém tinha nada contra, mas não sabiam.
- Tem o nome aqui de Aroldo Jr, quem é?
- Um locutor de rádio dos programas da
madrugada que eu acompanhava. Tinha uma voz amiga que passava tranquilidade do
dia a dia.
- Você incluiu também a filha de um cantor
famoso! – inquietou-se Clara.
Ítalo sorriu e disse fechando os olhos;
- Você acompanhou o sofrimento dessa
menina? Ao final, acompanhada por um ukulelê, ela interpreta um dos hits do
pai, vencedor do Prêmio Roquete Pinto do Estado da Guanabara em 1970!
- Mas o que você viu naquela menina?
- Vocês podem considerar piegas, mas eu
diria que é de uma fofura imensa.
- Você incluiu na lista até a
apresentadora Mara Maravilha, como se explica?
- Meu lado bobo de menino, eu a conheci de
um programa infantil da TV Itapoã, nas tardes de sábado, gente boa também, mas
depois ela se projetou mais e nos perdemos um do outro.
- E por que você não pode incluir um filho
seu nessa lista?
- Porque filho a gente tem que gostar por
obrigação natural; não faz parte de lista nenhuma – disse ítalo, pondo um fim.
Dando-se por esclarecido, ainda gritou:
Nenhum comentário:
Postar um comentário