quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

 Diva

 

         A rigor, não houve despesa alguma com o resultado de uma aventura que arriscara na juventude, além de alguns telefonemas, exames laboratoriais, serviços jurídicos junto ao Ministério Público e uns sorvetes de coco numa manhã clara na avenida principal. Tudo teve início com um telefonema recebido no local de trabalho:

         - Ela agora pergunta pelo pai, quer saber como foi – dizia a mãe, numa voz que vinha limpa de terra distante.

         - Oxe, como foi como? Final de festa, ué – estranhou Ítalo numa posição defensiva.

         - Não. Isso ela já sabe – raquetou a mãe

         - Você estava com seu namorado – Ítalo devolveu a bola.

         - Mas não me deitei com aquele cachorro, ela sabe também. Aí você vai ter que falar com a avó, minha mãe, que pôs na cabecinha dela o que rolou na cidade, que é filha sua – arrebatou por fim a garota daquela ocasião.

         - Minha? – gritou Ítalo.

Subitamente, ele, na posição que detinha na comunidade, com uma filha pré-adolescente suposta. Um breve entusiasmo com a ideia a acompanhou por onde passava, especialmente depois de ouvir a voz da menina pelo telefone.

- Aquele dia eu dei uns conselhos a ela porque você me pediu.

- É, eu sei. É que eu não tinha a quem recorrer nessas horas.

Nesse dia falou como se fosse pai atencioso de uma criança, que acabou sossegadinha e foi dormir, mas agora era uma mocinha.

Teve que tomar providência. Primeiro, ajeitar passagens ida e volta e vagas num hotel de classe, bem como exames de laboratório e caminhadas para o Ministério Público. Depois, escalar tia Brenda para um sorvete de recepção numa lanchonete decente.

         - Por que eu?

         - Uma pessoa amiga, né, tia? Você queria que eu chamasse Selmas?

         - E ela não sabe de nada?

         - Sabe da conversa da época, superado, é só, sem maiores riscos.  Afinal, as cabaças acabam se ajeitando.

         - Mas você vai ter que mexer com isso de novo, Ítalo.

         - Perdeu o calor da coisa, tia – tentava explicar. - Hoje se olha pelo retrovisor: eu era jovem e coisa e tal...

         - Vocês homens...

         - Você vai ficar um pouco para quebrar o gelo, fazer a maciota, vamos dizer assim, que nós só nos falamos umas poucas vezes e ainda assim por telefone – argumentava Ítalo.

         Ela sorriu, mas, em troca, queria informações sobre o caso. Então, houve a necessidade de recuperar da memória distante imagens dele, ainda na frescura do caminho a seguir, tateante nas aventuras das noites. E foi em um final de festa que decidiu tanger um garoto, que devia lá ser o namoradinho dela, para dançar com algumas garotas já experimentadas:

         - A gente passa em casa e curte um som legal – era o chama.

         Assim que colocou o disco na vitrola, eles já estavam transando na cama. Ele adormeceu rapidamente, sem se recordar da despedida com a amiguinha que esperava na sala.

         - Depois, lá um dia, apareceu esse bebê e a mãe, apertando a filha, contou com quem tinha saído.

         - Já sei da história: seu nome estava no meio - o cara, e foi fácil espalhar a notícia – disse e ficou contemplando Ítalo. -  Está bem, vamos aguardar – confirmou tia Brenda, por fim.

Cumpriria mais uma etapa. A próxima batalha seria travada no momento adequado, quando a disposição dos astros fosse diferente. Por enquanto, ele optava por desfrutar do papel de pai de uma garotinha, suspirando com uma expressão de preocupação.

         Italo pesquisou o passado familiar e descobriu que a razão para o divórcio de seu avô foi a mesma circunstância: ao matricular na escola dos filhos uma menina que ele teve fora do matrimônio. Mas suspirava aliviado ao constatar que o incidente ocorreu na década de cinquenta e que novos tempos haviam chegado.

         - Dizem que o exame é seguro, 99% de certeza. É caro?

         - É, mas  existe desconto para o Ministério Público, que tem convênio.

         - E você espera positivo ou negativo?

         - Na época eu não ia querer não, mas agora estou mais preparado para me entender com Selmas e não acontecer o que aconteceu com meu avô, né?

         Nem por instantes lhe passou pela cabeça um abalo na sua relação com Selmas. Uma nova versão, um remaker da historia do seu avô? A batalha que tinha que enfrentar estava perto, que era saber o resultado.

Ítalo chegou cedo ao hotel para as orientações necessárias e até tomou café da manhã com mãe e filha para se integrar. Foi combinado um passeio para tomar sorvete mais tarde e, no dia seguinte, a ida à sede do Ministério Público para o lacre da coleta de sangue com os técnicos de enfermagem.

Assim, quando Ítalo se encontrou com a tia Brenda, já estavam próximos, e ele ajustou um detalhe da blusa dela, tudo ocorreu de maneira ordenada, tanto que veio em boa hora a ideia do sorvete.

- O delas conforme pedido delas – explicava ao garçom o suposto pai. -  O meu é de coco branco com pouco de coco queimado.

No dia seguinte, após a realização do serviço de protocolo perante a autoridade do Ministério Público, que enviaria os documentos via SEDEX para Belo Horizonte, despediram-se da garota Diva sem que um fotógrafo estivesse presente para registrar a ocasião especial. Mas a tristeza maior veio tempo depois com abertura do lacre do resultado, deixando a garota completamente frustrada. Após um assentar da poeira, Ítalo recebeu a informação de que havia um outro e que esse suposto pai havia se mudado para o Estado do Mato Grosso.

         - Chega! se não foi desta vez, não quero saber mais não – dizia Diva, inconsolável.

 

 

 

 

 

 

 

           

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

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