Tiana
Ítalo retornou de férias à cidade como se tivesse acabado de fazer um exame de vista, passando a enxergar melhor e sem admitir qualquer erro no uso do idioma. Ainda mais agora que havia descoberto uma coleção de clássicos em casa e começou a apreciar a linguagem de M. de Assis, que ressoava em seu íntimo como uma flauta doce, revelando novos significados.
Naquela época, não era surpreendente ver o garoto sempre com um livro na mão, mergulhado na exploração da coleção. Até se permitiu escrever versos no estilo soneto, como o que dedicou a Talita, expressando seu amor platônico. No entanto, antes disso, o garoto passou por uma fase um tanto radical em suas críticas, observando a maneira como os outros se expressavam:
-
“Para eu brincar”, você quis dizer, não é? – Ítalo corrigia a pessoa que
acabara de dizer “para mim brincar”. Não o fazia para se mostrar superior, mas para
deixar encaixado nele o aprendizado.
Mas,
com o tempo, o cara pegava a mania. E foi o que ocorreu com Ítalo, que acabou
perdendo uma despedida de namorado com uma garota que então se destacava e se
tornaria maior sensação depois. Era
Tiana, de pele morena bronzeada, que, montada em seu cavalo, parecia derramar
tinta sob seus cabelos negros, que esvoaçavam ao vento. Ao modo de rapaz, uma
amazona, montava muito bem e tinha lá seu charme com aqueles lábios grossos
dizendo qualquer coisa.
Enquanto
isso, Ítalo chegou ao ponto de dizer que era de perder o tesão de pessoas que
pronunciavam mal o português. Mas lambido o cabelo de lavanda marca Trim, ele
se lançava em busca de namoricos. Até que viu em Tiana um potencial a explorar:
-
Tomando um banho de loja lá em São Paulo, essa menina vai ser um estrondo – era o
comentário que começava a circular na cidade.
Tal
conversa vinha a propósito da presença dos irmãos de Tiana no funeral do velho
pai, que voltariam com ela para S. Paulo.
Quis
o destino que os dois se encontrassem e era para despedida daqueles dias de
ronda feita em torno da menina do cavalo. Mas nesse dia ela estava toda “pra-frentex”,
já enturmada com as gírias trazidas pelos irmãos naquele início da década de
setenta. Por isso que o que seria considerado “fofo” na voz de uma morena como
Tiana, Ítalo teve que terminar com a garota ali mesmo na hora que ela disse,
como que para reacender o papo, ela disse (viu sua voz sair da beleza dos
lábios grossos):
-
Amanhã eu vou se picar pra São Paulo!
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