Vitoria
No alto de uma ruazinha da ponta da
cidade, Ítalo desceu do carro, com sua bengala, e foi tomando pé do local observando
o casario em volta, até a esquina:
- Que casinha simples e bem feitinha,
Selmas! Tem placa de numeração, de nome do logradouro, numa parede
recém-pintada, mas... pombas! ... com placa de “Vende-se”!
- Você queria o quê? – indagou a mulher, que terminava de estacionar
o veículo. – O dono dessa casa recebeu da mulher o aviso, que eles estavam se
separando e que vendesse a casa e a moto, passasse a parte dela, que ela iria
pra S. Paulo com seu amante.
- Oxe, e pode assim? – estranhou ele, enquanto
se acomodava na sarjeta de uma padaria em frente.
- Esses meninos se casam e se separam ao
sabor da onda. De repente, “pintou um lance” e pronto; a responsabilidade que
se lixe: não existe compromisso - explicava Selmas, mais andeja que o
companheiro.
- E os filhos como ficam?
- Ficam.
- Essa não...
Ítalo
começou a imaginar. O jovem seria de Marte, de outra galáxia, seria? E quanto
aos meninos?
-
Afirmam que o pai, além de trabalhar, também dedica tempo para cuidar deles e
faz isso com muita competência. "Ele pelejou com ela, mas acabou
desistindo", explicou Selmas.
Percebendo
o interesse de Ítalo, continuou:
-
Ela ia para as festas e ele ficava em casa tomando conta do menino.
-
Então era desse jeito?
-
Era. A vizinhança se cansou de ver carro chegando tarde da noite, quando ela
voltava das festas com os amigos.
-
E ele não se queixava?
-
Ora, reclamava de quem fazia barulho, para não acordar a esposa.
- Passou os primeiros anos de casado
fazendo a casa, que é essa que teve que botar a venda para ter que partilhar
com essa mulher.
A dona da padaria se aproximou para atendimento
e, tendo assuntado na prosa do casal freguês, informou para encerrar:
- O nome da mulher dele, a gente brincava na
escola para desbancar, é Vitória, Vitória-Correu- cinco-léguas-e-cagou-cinco-toras”.