domingo, 12 de abril de 2026

                                                      Medusa

         Ele acabara de se barbear e estava prestes a experimentar um lencinho de amostra grátis daquelas loções pós-barba, que apareciam no encarte da revista Playboy, para fazer o teste de charme com o público feminino. Ao olhar-se no espelho e ver seu rosto com a alvura de pele macia deixada pelo aparelho Gilette G2, pronta para receber o produto perfumado, convenceu-se da propaganda: estava irresistível.  Um jovem universitário, nos seus atos preparatórios, em sua essência, para enfrentar a realidade.

- Dê um cheiro aqui pra avaliar se é mesmo do bom – oferecia o rosto branco, de barba tirada, aos tripulantes da barca, como denominava o apê em que moravam, para as irmãs, a empregada, que também, meio tímida, procurava se aproximar:

- Hummm! – dizia cada uma depois de um rápido encosto.

- Vai pra onde assim? – perguntava a outra.

- Vou sair por aí, vamos ver quem vai ser a premiada – disse Ítalo em tom de brincadeira.

Como em um dia mágico, logo o telefone começou a tocar. Certamente para confirmar a reunião com ela, a beneficiada. Quem era de fato ela? Não, não era uma de suas colegas, pois ela ainda iria formar no ano seguinte. Ao cumprimentar seu colega Simeão, conheceu Mercedes:

- Vocês se conhecem de onde? - quis ela saber.

- Do curso de Direito que temos pela manhã. E quanto a vocês? Não me diga que você já paquerou Simeão – devolveu Ítalo, que também tentava contato com Medusa, assim chamada por causa do cabelo.

         Em Simeão, de pele branca, uma vermelhidão subiu pelo rosto e levou tempo para desaparecer. Ítalo percebeu rapidamente que o colega estava interessado na garota e ao seu modo decidiu investigar essa suspeita. Mercedes, embora parecesse filhinha de papai, burguesa, era pelo menos um ensaio do tipo boazuda.

         - Pronto. É Ítalo. Diga, Medusa! Passo aí daqui a vinte minutos.

         Após um certo tempo, Ítalo arrematou a conversa:

         - O meu TCC? Quem te falou? Você vai querer emprestado? Você ouviu comentários, é? Tá bom, estarei levando comigo.

         Ítalo sabia da importância do TCC, mas não dessa loucura toda entre a turma. Desleixado que era para essas arrumações, cuidou de fazer um relatório sem floreio, com o necessário, e tirou nota oito e meio. Os alunos que se formariam no ano seguinte se movimentaram em busca do trabalho para usar como modelo. Até quem andava sumido aparecia pleiteando.

         - Deu muito trabalho pra encontrar, mas agora está comigo, e nem reconheci porque colocaram uma outra capa, mais agradável – completou.

         Fazia mais de quinze minutos que ele estava ali, em uma sala de estar de um apartamento em um condomínio na Barra. Enquanto a vida acontecia lá fora, acomodado no sofá com um monumento no colo, ele subia e descia os morros de Medusa, mas que não deixava se aproximar da gruta.

Devagar para não quebrar o encanto, apesar dos cuidados dela, de surgir algum familiar. Quis perguntar sobre esse detalhe, mas achou demostrar fraqueza sua e acabou por desistir. Além do mais o jovem posava numa de quase veterano, matriculado em dois cursos, bacharelado em Direito, matutino, numa escola pública e concluindo o de licenciatura em Letras, noturno, na outra particular.

- Mas o cara, esse tal de Simeão, não está de volteios com a moça?

     Mas da lembrança desse tempo, ficou apenas com um rascunho do TCC, que lia se perdendo no emaranhado das cobras de Medusa. Ah, Simeão que se contentasse lá com seu curso de Direito.

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