domingo, 24 de maio de 2026

 


Cíntia

 

Ítalo nunca soube ao certo em que momento começou a olhar para Cíntia daquele jeito. Talvez tivesse sido aos poucos, numa dessas tardes abafadas em que ela passava pela rua com os cabelos escuros presos às pressas e os olhos baixos, como quem atravessa o mundo sem desejar chamar atenção. Ou talvez tivesse sido no dia em que ouvira falar do choro por Maneco — um choro exagerado, diziam, de arrancar os cabelos e perder o juízo no meio da loja.

Quem lhe contou foi Zezito.

O pobre-diabo do Zezito, motivo de deboche para quase todo mundo, servia para as risadas fáceis da esquina, para os apelidos cruéis e para os mandados de última hora. Só Ítalo lhe dava algum crédito. Comprava-lhe cigarros às vezes, escutava suas histórias pela metade e tolerava aquela presença magra e inquieta que parecia sempre pedir licença ao mundo.

Ainda assim, fora Zezito quem um dia lhe salvara a vida.

Ítalo se lembrava perfeitamente da tarde em que quase batera de frente com um carro na estrada. O outro veículo vinha rápido, surgindo numa curva estreita, e ele provavelmente não teria tido tempo de reagir se Zezito não tivesse avançado para o meio da rua, agitando os braços como um louco. Na época, Ítalo xingara o susto. Só depois percebera o tamanho do desastre evitado.

Talvez por isso nunca o afastasse completamente.

Naquela tarde, estavam sentados perto do bar, olhando o movimento da rua, quando Cíntia passou.

— Eu estava aqui no dia em que essa menina chorou por causa de Maneco — comentou Zezito, com a naturalidade de quem fala do tempo. — Chorava que era um horror.

— Ele só bolinou ela e depois caiu fora — acrescentou Zito.

Ítalo acompanhou a figura da moça desaparecendo pela esquina.

— Agora ela está até mais bonita. Maneco perdeu.

Zezito abriu um sorriso torto.

— Mas agora ela está disponível.

Aquilo ficou pairando no ar por alguns segundos. Ítalo riu sem compromisso e, antes de sair, bateu no ombro dele:

— Só você mesmo, Zito, pra ajeitar Cíntia pra mim.

Dissera brincando. Ou quase.

Durante algum tempo, Ítalo alimentara a impressão perigosa de que certas pessoas podiam ser conduzidas apenas pelo desejo firme de quem as queria. Como se bastasse imaginar muito uma coisa para que o mundo, discretamente, começasse a empurrá-la em sua direção.

Por isso não se espantou tanto quando Zezito apareceu dias depois, no meio do aquecimento de uma festa, com os olhos brilhando de importância.

— Cíntia vai estar esperando você depois das nove.

Ítalo sentiu um calor subir-lhe pelo corpo.

— Você falou com ela?

— Falei que você vivia comentando… que queria sair com ela.

— E ela?

— Achou que eu estava mentindo.

— Depois?

— O patrão apareceu na loja. Ela teve que fingir que não era nada. Mas eu voltei lá depois. Ela mandou dizer pra você passar no ponto.

Enquanto falava, Zezito parecia satisfeito consigo mesmo, como um sujeito que finalmente carregava algo precioso nas mãos.

Ítalo imaginou Cíntia atrás do balcão da loja de móveis, desviando os olhos, fingindo desinteresse. Gostou disso. Gostou até do ciúme repentino ao saber que o dono da loja era ligado à igreja da mãe dela. Preferiu não perguntar mais nada.

Quando a encontrou naquela noite, tudo aconteceu numa calma estranha.

Ela veio silenciosa, encostando-se nele com uma intimidade tímida, e o perfume dos cabelos ocupou o interior do carro. Ítalo a abraçou primeiro com desejo, depois com cuidado, como se precisasse confirmar que ela existia mesmo.

Afastou-a devagar apenas para olhá-la.

— Que foi? — ela perguntou, sorrindo de leve.

— Quero ver seu rosto.

— Ah… meus olhos verdes?

— Também. Posso imaginar o resto.

Ela riu baixo.

Conversaram mais do que ele esperava. No caminho até o quarto, nas pausas entre um beijo e outro, nas pequenas perguntas inúteis que duas pessoas fazem quando já sabem o que vai acontecer.

Depois veio o silêncio.

O silêncio das mãos correndo pela pele, dos botões cedendo, dos zíperes abrindo caminho. O beijo que trocaram tinha alguma coisa acumulada, antiga, como se chegasse atrasado de muitos meses.

Mais tarde, os corpos cansados e quentes entre os lençóis, Ítalo murmurou junto ao ouvido dela:

— Faz tempo que fico te olhando.

— Eu não acreditei no recado — confessou ela. — Achei que fosse brincadeira de Zezito.

Ítalo sorriu no escuro.

Só então percebeu os pelos macios escondidos entre suas pernas e comentou aquilo com uma ternura inesperada.

Cíntia ficou envergonhada.

— As meninas dizem pra tirar…

— Não tira.

— Tenho vergonha.

— Não tem do quê.

Beijou-a de novo, demoradamente, como se quisesse protegê-la até dela mesma.

Anos depois, era chuva o que havia entre eles.

Uma chuva fina, transformada em névoa sobre a cidade silenciosa. Ítalo procurava lugar para estacionar perto do velório sem se importar com o cansaço da viagem. Tinha atravessado quase dois mil quilômetros para se despedir de Zezito.

Não abandonaria o amigo naquele instante final.

Foi então que viu Cíntia.

Ela estava parada entre outras pessoas, segurando uma sombrinha escura. Parecia diferente — mais velha talvez, mais quieta —, mas os olhos permaneciam os mesmos.

Trocaram apenas um olhar breve.

Ítalo imaginou que ela viesse agora de Minas, onde ouvira dizer que morava. E achou estranho perceber que ambos tinham retornado pelo mesmo motivo: aquele homem ridicularizado por todos, o sujeito magro e desajeitado que atravessara suas vidas quase sem ser notado.

Talvez certas pessoas existam apenas para ligar umas vidas às outras.

 

 

 

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