Chamando Maria
Conheceu o idoso que afirmavam estar
acamado por mais de duas décadas. Não fazia sentido. Falava Maria... ô Maria!
Quem poderia ser? Queria saber da tia, agitada com as declarações do marido:
- Deve ser alguma rapariga que ele
conheceu na época de moço, meu filho. Ele andava muito a cavalo por esses ermos
afora.
Estava ciente de que a senhora não estava
propriamente esculhambando; ressentida, ela fazia alusão ao feminino de
"rapaz" em seu vocabulário conservador. Ao notar que a tia-avó estava
incomodada, decidiu não prosseguir com a conversa.
Também era hora de voltar. Afinal, estava
aprendendo a dirigir o carro. Devido à tia, que era muito querida e morava nas
redondezas, ele havia recebido uma autorização implícita para utilizá-lo.
Embora fosse a mais velha e coxa, a tia, uma lutadora, não tinha sido moça
casadoira, foi a terceira na fila para se casar na família. Contudo, obrigada a
tomar as rédeas dos negócios, mesmo sem ostentar os adornos da beleza, o
destino se mostraria fundamental em sua vida conjugal. Assim, após alguns anos
de espera, diante da invalidez que se tornaria permanente do marido, ela teve
que arregaçar as mangas e usar seus esboçados talentos para substituí-lo. Criou
os filhos, arrumou casamentos para todos eles e os orientou na vida. Agora,
após todos esses anos, ele estava presente, em um momento de clareza mesclado
com delírio, chamando por Maria... ô Maria com uma voz que ressoava pelos
amplos cômodos da casa.
A prática de andar mancando levou à
criação de um estilo nos afazeres diários, como abrir e fechar a porteira do
curral, agachar-se para alimentar os animais, acariciá-los e conversar com eles
em uma língua compartilhada. Sem contar o combate que ainda dava nos serviços
de cozinha, a comidinha, o doce, o bolo e o café, na hora certa.
Melhor que tentasse logo manter uma conversa
com o velho. Queria entender quem era essa Maria a quem ele se referia. Talvez,
num lampejo de memória, ele conseguisse dizer. Ele se punha, naquelas tardes de
treinamento, a imaginar toda uma história de um moço de boa cepa e cheio de
entusiasmo com uma moça com tal nome. E ele falava com firmeza de voz, não
delírio de uma pessoa embriagada. Afinal era um homem paralisado no leito, sem
ninguém para lhe dar ouvidos. A tia, cuidando de assuntos importantes e também
já calejada, não se curvava a esses desvarios. Mas de tanto apresentar
questionamentos, respondia em atenção ao sobrinho visitante:
- Ítalo, mô fi, não ligue pra ele não,
isso é só quando aparece gente que lhe dá prosa que ele lembra dessa moça.
- E ela existe ou chegou a existir?
- Uns diziam que era bestagem dele, outros
que ele andava variado da cabeça.
Falava-se pouco sobre o caso, mas, em
conversas informais, especulava-se que ele havia se envolvido com algum rabo de
saia na época. Essa ideia persistia em episódios de ataques que o tempo não
conseguia apagar.
O
pai havia mencionado algumas travessuras do tio nos seus primeiros anos de
casamento, e que, com certeza, havia um flerte com uma mulher na cidade que o
deixava animado. Mas a tia nem sonhava, até que veio a doença, e ele ficou como
se dependesse de uma conversa com alguém, que ninguém sabia. Como forma de
respeito, o tema era discutido às escondidas da senhora da casa, que, de sua
própria maneira, demonstrava estar além do mero ciúme.
Um dia questionara ao pai por que tanta
atenção dedicada a essa tia:
- Ela é a que mais se parece com minha
mãe.
A fazendinha escurecia, e ao se despedir
da tia, ele manobrou o veículo, assustando os bichos de quintal — perus, cocás
e galinhas — ao redor da tia, que dizia “está cedo”. De lá, ainda conseguiu
ouvir o velho chamando em um delírio repetitivo: "Ô Maria!"