segunda-feira, 27 de julho de 2026

  

Chamando Maria

Conheceu o idoso que afirmavam estar acamado por mais de duas décadas. Não fazia sentido. Falava Maria... ô Maria! Quem poderia ser? Queria saber da tia, agitada com as declarações do marido:

- Deve ser alguma rapariga que ele conheceu na época de moço, meu filho. Ele andava muito a cavalo por esses ermos afora.

 Estava ciente de que a senhora não estava propriamente esculhambando; ressentida, ela fazia alusão ao feminino de "rapaz" em seu vocabulário conservador. Ao notar que a tia-avó estava incomodada, decidiu não prosseguir com a conversa.

Também era hora de voltar. Afinal, estava aprendendo a dirigir o carro. Devido à tia, que era muito querida e morava nas redondezas, ele havia recebido uma autorização implícita para utilizá-lo. Embora fosse a mais velha e coxa, a tia, uma lutadora, não tinha sido moça casadoira, foi a terceira na fila para se casar na família. Contudo, obrigada a tomar as rédeas dos negócios, mesmo sem ostentar os adornos da beleza, o destino se mostraria fundamental em sua vida conjugal. Assim, após alguns anos de espera, diante da invalidez que se tornaria permanente do marido, ela teve que arregaçar as mangas e usar seus esboçados talentos para substituí-lo. Criou os filhos, arrumou casamentos para todos eles e os orientou na vida. Agora, após todos esses anos, ele estava presente, em um momento de clareza mesclado com delírio, chamando por Maria... ô Maria com uma voz que ressoava pelos amplos cômodos da casa.

A prática de andar mancando levou à criação de um estilo nos afazeres diários, como abrir e fechar a porteira do curral, agachar-se para alimentar os animais, acariciá-los e conversar com eles em uma língua compartilhada. Sem contar o combate que ainda dava nos serviços de cozinha, a comidinha, o doce, o bolo e o café, na hora certa.

 Melhor que tentasse logo manter uma conversa com o velho. Queria entender quem era essa Maria a quem ele se referia. Talvez, num lampejo de memória, ele conseguisse dizer. Ele se punha, naquelas tardes de treinamento, a imaginar toda uma história de um moço de boa cepa e cheio de entusiasmo com uma moça com tal nome. E ele falava com firmeza de voz, não delírio de uma pessoa embriagada. Afinal era um homem paralisado no leito, sem ninguém para lhe dar ouvidos. A tia, cuidando de assuntos importantes e também já calejada, não se curvava a esses desvarios. Mas de tanto apresentar questionamentos, respondia em atenção ao sobrinho visitante:

- Ítalo, mô fi, não ligue pra ele não, isso é só quando aparece gente que lhe dá prosa que ele lembra dessa moça.

- E ela existe ou chegou a existir?

- Uns diziam que era bestagem dele, outros que ele andava variado da cabeça.

Falava-se pouco sobre o caso, mas, em conversas informais, especulava-se que ele havia se envolvido com algum rabo de saia na época. Essa ideia persistia em episódios de ataques que o tempo não conseguia apagar.

 O pai havia mencionado algumas travessuras do tio nos seus primeiros anos de casamento, e que, com certeza, havia um flerte com uma mulher na cidade que o deixava animado. Mas a tia nem sonhava, até que veio a doença, e ele ficou como se dependesse de uma conversa com alguém, que ninguém sabia. Como forma de respeito, o tema era discutido às escondidas da senhora da casa, que, de sua própria maneira, demonstrava estar além do mero ciúme.

Um dia questionara ao pai por que tanta atenção dedicada a essa tia:

- Ela é a que mais se parece com minha mãe.

A fazendinha escurecia, e ao se despedir da tia, ele manobrou o veículo, assustando os bichos de quintal — perus, cocás e galinhas — ao redor da tia, que dizia “está cedo”. De lá, ainda conseguiu ouvir o velho chamando em um delírio repetitivo: "Ô Maria!"