Casulo
Época do minimalismo, da coisa pequena,
invisível como a energia limpa, para ser mais moderno. Passei alguns minutos
observando, fascinado, o trajeto de uma formiga carregando uma enorme folha
verde. A rapidez com que ela realizava sua tarefa chamou minha atenção. Mas
vendo bem não era pressa, era destreza, organização. Segui seus passos, quase
sem breves paradas para contatos. Comentei com Selmas, que, em termos de
novidade, me contou do ninho da beija-flor visto numa plantinha do caqueiro no
alpendre. E brigava com outra em disputa pelo berçário. Então, falei
também do meu amigo Heitor, um anfíbio que aparecia periodicamente, que a gente
já o considerava de casa e contava com nosso respeito, a exemplo dos felinos,
mais amestrados, dentro de nosso costume.
A gente guarda mais a casa de infância,
nosso casulo.
a porta se abre
e os felinos me
cercam
como se eu fosse o
responsável
pelo segredinho da
ração.
Heitor passava, imponente, exibindo
elegância. E sempre que ele aparecia, era festa, feriado internacional, por
nosso decreto. A vez era de agitação. Vinha tomar um banho, numa horinha de
mergulho no recipiente de água potável dos bichos, na entrada da cozinha. Em
seguida, trocava-se a água e "vida que segue” aos demais. Era necessário
aguardar que sua Excelência Heitor desocupasse a banheira improvisada.
Aprendendo a ser parceiros com eles,
levava-se a termo a vida.
- Claro. É isso – concordava Selmas.
Daí a observação do mundo das formigas.
De onde se buscavam exemplos para essa jornada de vida inteira. E essa harmonia
era divulgada por toda parte. Esse procedimento era colhido em pequenas porções
e apreciado como um bom vinho.
Fui chamado por Selmas, que estava com
a manicure no terraço, para ver uma delas, operária, carregando um pedaço de
sua cutícula, na maior, desfilando pela casa.
Embora eu protestasse e Selmas tentasse
agradá-lo, Tonico circulava entre os gatos sem se envolver diretamente na
trama. Porém, em um só gesto, o cachorro fez sumir o que tanto admirávamos: abocanhou a formiga e
sua carga. Fomos resilientes, mas agora estávamos vulneráveis.
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