Charlote
A ramificação do pé de maracujá buscou
suporte na encanação que conduzia da caixa d'água para a casa, e acabou
descolando de forma abrupta, ocasionando um jorro explosivo de água. Essa
imagem veio à mente de Ítalo quando ele avistou Charlote se posicionando diante
do microfone para cantar. Ele viu o enlace da trepadeira no tubo de plástico. Ele
sentia esse mesmo impacto. Ato de consciência da superioridade sem peças de
apoio, sem espeques, sem nada, flutuante. De onde podia acompanhar tudo como um
farol o faria. Sua voz, que não se distinguia de que local soava, como um miado
de felino, elevava-se tendo em resposta e ao fundo o coral da igreja, que
parecia encher o ambiente. Abaixado o som, Charlote surgia de novo mais
presente, localizada, soberana. Após o grande silêncio, seguiram os
comentários:
- Mas ela tem a voz boa! – dizia Selmas.
- Não é só isso, de voz boa, isso muitos
têm – Ítalo replicava. E todos em volta ficavam em suspense.
– Ela é aquilo que um certo crítico disse,
referindo-se a Frank Sinatra.
- O que ele disse?
- Ele, Sinatra, não tem a voz boa, ele é a
“Voz”. Assim é Charlote.
Nesse momento, a conversa passou para
outros adjetivos mais adequados à linguagem cotidiana de plebeus. Que Charlote
era uma mulher atraente, especialmente com aquele vestido, e assim por diante.
- Elegante! – gritou Ítalo, pondo um ponto final na questão.
Notou que era uma característica comum no
propósito de todo ser humano. Ao criar seu habitat, entrava no desejo de
possuir essa parte que lhe faltava, daí a variedade de intenções e toda luta de
interesses. A partir desse entendimento vinha a negociação. Muitos se achavam,
outros sofriam nessa caminhada.
- Eu não teria dificuldade – disse Ítalo.
- De quê? – perguntou Selmas.
- Sem alardeios, estou pensando: eu não
teria dificuldade nenhuma de nesse marasmo todo encontrar essa joia, um complemento.
- Oxe! Obrigada até aqui e me desculpe por
qualquer coisa.
Para evitar
embaraço com o silêncio, Selmas procurou dar novo rumo à conversa:
- Ela tem uma filha pequena, que é uma
graça.
Ítalo deu de ombros, como se fosse mais um recheio.
- Da mesma idade da nossa filha – completou Selmas, como se colocasse a última
das cerejas no papo de trivialidades.
Para evitar um impasse, Ítalo disse, por
fim:
- A gente precisa conversar
depois.
Havia necessidade de conversar? Charlote
já havia sido apresentada a ele. O
problema estava nele, e Ítalo precisava conversar com Selmas sobre isso. De
forma tranquila, seria sincero e contaria tudo, com seu jeito perscrutador.
- Dentro de mim, Selmas, carrego essa
preocupação, eu vejo, eu enxergo...
- Você enxerga o quê, Ítalo?
- Essa minha gagueira diz tudo, não é?
- Não sei. Há pouco você
ficou assim diante de uma servidora da saúde, me contando a história de seu
avô, de mulheres que têm flores brancas. Agora de novo esse vacilo. A
explicação é a mesma? Ou, nesse caso, o que diria seu avô?
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