domingo, 11 de janeiro de 2026

 Charlote

 

A ramificação do pé de maracujá buscou suporte na encanação que conduzia da caixa d'água para a casa, e acabou descolando de forma abrupta, ocasionando um jorro explosivo de água. Essa imagem veio à mente de Ítalo quando ele avistou Charlote se posicionando diante do microfone para cantar. Ele viu o enlace da trepadeira no tubo de plástico. Ele sentia esse mesmo impacto. Ato de consciência da superioridade sem peças de apoio, sem espeques, sem nada, flutuante. De onde podia acompanhar tudo como um farol o faria. Sua voz, que não se distinguia de que local soava, como um miado de felino, elevava-se tendo em resposta e ao fundo o coral da igreja, que parecia encher o ambiente. Abaixado o som, Charlote surgia de novo mais presente, localizada, soberana. Após o grande silêncio, seguiram os comentários:

- Mas ela tem a voz boa! – dizia Selmas.

- Não é só isso, de voz boa, isso muitos têm – Ítalo replicava. E todos em volta ficavam em suspense.

– Ela é aquilo que um certo crítico disse, referindo-se a Frank Sinatra.

- O que ele disse?

-  Ele, Sinatra, não tem a voz boa, ele é a “Voz”. Assim é Charlote.

Nesse momento, a conversa passou para outros adjetivos mais adequados à linguagem cotidiana de plebeus. Que Charlote era uma mulher atraente, especialmente com aquele vestido, e assim por diante.

- Elegante! – gritou Ítalo,  pondo um ponto final na questão.

Notou que era uma característica comum no propósito de todo ser humano. Ao criar seu habitat, entrava no desejo de possuir essa parte que lhe faltava, daí a variedade de intenções e toda luta de interesses. A partir desse entendimento vinha a negociação. Muitos se achavam, outros sofriam nessa caminhada.

- Eu não teria dificuldade – disse Ítalo.

- De quê? – perguntou Selmas.

- Sem alardeios, estou pensando: eu não teria dificuldade nenhuma de nesse marasmo todo encontrar essa joia, um complemento.

- Oxe! Obrigada até aqui e me desculpe por qualquer coisa.

Para evitar embaraço com o silêncio, Selmas procurou dar novo rumo à conversa:
-  Ela tem uma filha pequena, que é uma graça.

Ítalo deu de ombros, como se fosse mais um recheio.

- Da mesma idade da nossa filha – completou Selmas, como se colocasse a última

das cerejas no papo de trivialidades.

Para evitar um impasse, Ítalo disse, por fim:

- A gente precisa conversar depois.

         Havia necessidade de conversar? Charlote já havia sido apresentada a ele.  O problema estava nele, e Ítalo precisava conversar com Selmas sobre isso. De forma tranquila, seria sincero e contaria tudo, com seu jeito perscrutador.

         - Dentro de mim, Selmas, carrego essa preocupação, eu vejo, eu enxergo...

         - Você enxerga o quê, Ítalo?

         - Essa minha gagueira diz tudo, não é?

         - Não sei. Há pouco você ficou assim diante de uma servidora da saúde, me contando a história de seu avô, de mulheres que têm flores brancas. Agora de novo esse vacilo. A explicação é a mesma? Ou, nesse caso, o que diria seu avô?

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