O Diploma
Mãe e pai. Aquela coisa de
empolgação com formatura de filho. Etapa cumprida. Gente por todo lado, lotação
completa no espaço festivo destinado à colação de grau. Beca alugada,
fotografia, parentes, abraços, aquela solenidade toda que parece dizer a cada
formando: agora você está pronto para a vida.
Ítalo caminhou até a mesa da comissão encarregada de proceder à formalidade do compromisso de formando e, ao mesmo tempo, entregar-lhe o canudo de formatura. Foi, recebeu os cumprimentos dos mestres que se encontravam à mesa e saiu pelo lado, à procura da mãe bonita, que o esperava para conduzi-lo, filho bacharel, até os demais formandos.
No auditório, sentou-se ao
lado de Mauro, conforme a ordem estabelecida para a solenidade.
Foi aí que a coisa começou a
desandar. Mauro, seu vizinho de cadeira, resolveu abrir a porra do invólucro do
diploma. Abriu. De dentro retirou um belo pergaminho, tudo certinho, assinado,
conferido, com letras douradas, coisa de diploma mesmo. Ficou olhando,
orgulhoso.
Ítalo achou bonito. E,
naturalmente, achou de pegar o seu. Pegou. Só que, ao contrário do de Mauro,
não havia diploma algum. Havia um papel. Um simples papel. E nele,
datilografado, um bilhete curto, seco, quase hostil: Comparecer à Secretaria
Geral de Cursos.
Só isso. Nenhuma explicação.
Nenhuma palavra de conforto. Nenhum “parabéns”. Nenhum “estamos felizes por
você”. Nada.
Ítalo sentiu uma coisa fria
percorrer-lhe o corpo.
— Oh, céus!
Naquele instante, enquanto a
solenidade continuava, ele já não ouvia mais nada. As vozes dos professores
pareciam vir de muito longe. Os aplausos chegavam abafados. O auditório
continuava iluminado, as famílias continuavam sorrindo, os fotógrafos continuavam
trabalhando, mas, para ele, alguma coisa havia acabado de morrer.
A festa, pelo menos para
Ítalo, terminara ali.
Depois veio o baile no
clube. Fotos com a família. Abraços. Parabéns. Risadas. Taças levantadas. E
Ítalo com aquela cara. A mãe, bonita e maternal, interpretou imediatamente:
— Oh, gente! Ele está assim
porque vai embora e vai deixar os amigos de mais de dez anos aqui.
Pronto. Estava encontrada a
explicação. Ninguém mais perguntou nada. E Ítalo deixou. Era melhor assim, porque,
na cabeça dele, tudo estava explicado. Lembrou-se da prova de Direito Civil. Aquela
maldita prova. Precisava de uma nota média, estava em recuperação, e, numa
estupidez que agora lhe parecia monumental, nem sequer havia olhado o resultado
afixado na parede da escola.
E então começou a montar a
história. A diretoria, para não decepcioná-lo — principalmente para não
decepcionar a família —, teria permitido a simulação da colação de grau.
Deixaram-no participar da solenidade, receber os cumprimentos, posar para
fotografias, tudo. Só não poderiam entregar o diploma. O diploma verdadeiro
ficaria retido. Ele havia sido reprovado. Pronto. Era isso. Por isso o bilhete,
a frieza, o papel no lugar do pergaminho.
Enquanto todos festejavam o
bacharel, Ítalo já se imaginava condenado a mais um semestre de faculdade,
tendo de voltar às aulas, rever professores, enfrentar colegas e, sobretudo,
contar em casa que aquela noite toda havia sido uma espécie de encenação piedosa.
E assim atravessou a festa. A
família sorrindo. A mãe explicando sua tristeza. Os amigos comemorando. E ele,
por dentro, fazendo velório.
Na segunda-feira, saltou da
cama cedo. Não havia mais como adiar. Foi à Secretaria Geral de Cursos
preparado para receber a sentença. Já entraria na sala resignado. Sabia até o
que iria ouvir:
“Você foi reprovado em
Direito Civil. Terá de permanecer mais um semestre.”
Estava pronto. Ou quase. O
funcionário consultou alguma coisa no computador, mexeu em papéis, conferiu um
cadastro e, sem demonstrar a menor preocupação com a tragédia que Ítalo
carregava no peito, disse:
— Para receber o diploma, o
aluno tem que estar quite com a faculdade.
Ítalo baixou a cabeça.
Era o começo.
— E você está devendo um
livro à biblioteca.
Silêncio. Ítalo olhou para o
homem. O homem olhou para Ítalo. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse
nada.
— Um livro?
— Um livro.
Foi quando Ítalo sentiu
vontade de beijar o funcionário. Um livro! Não era Direito Civil. Não era
reprovação. Não era mais um semestre. Não era fracasso. Não era a vergonha de
voltar para casa sem o diploma.
Era um livro. Um simples
livro que, sabe-se lá por que razão, permanecera esquecido em algum canto da
vida acadêmica. Ítalo saiu dali quase correndo.
Foi para casa buscar o livro
para devolvê-lo.
E voltou à faculdade com a
disposição de quem acabara de descobrir que havia ganhado a partida no último
minuto.
Saiu da Secretaria Geral
como se tivesse feito gol em pleno Maracanã. E, pensando bem, tinha
feito. Só não sabia que a partida era tão fácil.
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