terça-feira, 18 de agosto de 2026

  

 

O Diploma

Mãe e pai. Aquela coisa de empolgação com formatura de filho. Etapa cumprida. Gente por todo lado, lotação completa no espaço festivo destinado à colação de grau. Beca alugada, fotografia, parentes, abraços, aquela solenidade toda que parece dizer a cada formando: agora você está pronto para a vida.

        Ítalo caminhou até a mesa da comissão encarregada de proceder à formalidade do compromisso de formando e, ao mesmo tempo, entregar-lhe o canudo de formatura. Foi, recebeu os cumprimentos dos mestres que se encontravam à mesa e saiu pelo lado, à procura da mãe bonita, que o esperava para conduzi-lo, filho bacharel, até os demais formandos.

No auditório, sentou-se ao lado de Mauro, conforme a ordem estabelecida para a solenidade.

Foi aí que a coisa começou a desandar. Mauro, seu vizinho de cadeira, resolveu abrir a porra do invólucro do diploma. Abriu. De dentro retirou um belo pergaminho, tudo certinho, assinado, conferido, com letras douradas, coisa de diploma mesmo. Ficou olhando, orgulhoso.

Ítalo achou bonito. E, naturalmente, achou de pegar o seu. Pegou. Só que, ao contrário do de Mauro, não havia diploma algum. Havia um papel. Um simples papel. E nele, datilografado, um bilhete curto, seco, quase hostil: Comparecer à Secretaria Geral de Cursos.

Só isso. Nenhuma explicação. Nenhuma palavra de conforto. Nenhum “parabéns”. Nenhum “estamos felizes por você”. Nada.

Ítalo sentiu uma coisa fria percorrer-lhe o corpo.

— Oh, céus!

Naquele instante, enquanto a solenidade continuava, ele já não ouvia mais nada. As vozes dos professores pareciam vir de muito longe. Os aplausos chegavam abafados. O auditório continuava iluminado, as famílias continuavam sorrindo, os fotógrafos continuavam trabalhando, mas, para ele, alguma coisa havia acabado de morrer.

A festa, pelo menos para Ítalo, terminara ali.

Depois veio o baile no clube. Fotos com a família. Abraços. Parabéns. Risadas. Taças levantadas. E Ítalo com aquela cara. A mãe, bonita e maternal, interpretou imediatamente:

— Oh, gente! Ele está assim porque vai embora e vai deixar os amigos de mais de dez anos aqui.

Pronto. Estava encontrada a explicação. Ninguém mais perguntou nada. E Ítalo deixou. Era melhor assim, porque, na cabeça dele, tudo estava explicado. Lembrou-se da prova de Direito Civil. Aquela maldita prova. Precisava de uma nota média, estava em recuperação, e, numa estupidez que agora lhe parecia monumental, nem sequer havia olhado o resultado afixado na parede da escola.

E então começou a montar a história. A diretoria, para não decepcioná-lo — principalmente para não decepcionar a família —, teria permitido a simulação da colação de grau. Deixaram-no participar da solenidade, receber os cumprimentos, posar para fotografias, tudo. Só não poderiam entregar o diploma. O diploma verdadeiro ficaria retido. Ele havia sido reprovado. Pronto. Era isso. Por isso o bilhete, a frieza, o papel no lugar do pergaminho.

Enquanto todos festejavam o bacharel, Ítalo já se imaginava condenado a mais um semestre de faculdade, tendo de voltar às aulas, rever professores, enfrentar colegas e, sobretudo, contar em casa que aquela noite toda havia sido uma espécie de encenação piedosa.

E assim atravessou a festa. A família sorrindo. A mãe explicando sua tristeza. Os amigos comemorando. E ele, por dentro, fazendo velório.

Na segunda-feira, saltou da cama cedo. Não havia mais como adiar. Foi à Secretaria Geral de Cursos preparado para receber a sentença. Já entraria na sala resignado. Sabia até o que iria ouvir:

“Você foi reprovado em Direito Civil. Terá de permanecer mais um semestre.”

Estava pronto. Ou quase. O funcionário consultou alguma coisa no computador, mexeu em papéis, conferiu um cadastro e, sem demonstrar a menor preocupação com a tragédia que Ítalo carregava no peito, disse:

— Para receber o diploma, o aluno tem que estar quite com a faculdade.

        Ítalo baixou a cabeça.

Era o começo.

— E você está devendo um livro à biblioteca.

Silêncio. Ítalo olhou para o homem. O homem olhou para Ítalo. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

— Um livro?

— Um livro.

Foi quando Ítalo sentiu vontade de beijar o funcionário. Um livro! Não era Direito Civil. Não era reprovação. Não era mais um semestre. Não era fracasso. Não era a vergonha de voltar para casa sem o diploma.

Era um livro. Um simples livro que, sabe-se lá por que razão, permanecera esquecido em algum canto da vida acadêmica. Ítalo saiu dali quase correndo.

Foi para casa buscar o livro para devolvê-lo.

E voltou à faculdade com a disposição de quem acabara de descobrir que havia ganhado a partida no último minuto.

Saiu da Secretaria Geral como se tivesse feito gol em pleno Maracanã. E, pensando bem, tinha feito. Só não sabia que a partida era tão fácil.

 

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