quarta-feira, 7 de outubro de 2026

 

 

Chupando Picolé

Ítalo percebeu a beleza que havia por trás dela e, no silêncio de sua prece, desejou-a para si. Tangia de perto os intrusos garanhões, esses que passavam sem perceber aquilo que para ele já se tornara descoberta. Sabia de seus segredos e sonhos, não muito distantes dos dele. Possuíam essas pequenas embarcações para se evadirem em trabalho e lazer, como quem precisa de um barco para atravessar as águas da vida sem se afogar.

Tomava como parâmetro o modo de vida de gente decente, um pouco das suas próprias irmãs, primas e vizinhas. Mas aí entrava também a beleza, discretamente, para não refrear aquilo que cantaria o poeta. Essa beleza de roupa simples, uma flor no cabelo que talvez ninguém mais tivesse visto, mas que para ele estava ali, nítida.

Não necessariamente por imperar o machismo — os novos tempos e o estudo viriam contemporizar muita coisa —, mas a proteção vigiada ainda tinha seu lugar. Eram tantas pedras no caminho que, de algum modo, a vigilância se apresentava como cuidado. Simbolizava essa situação o episódio da proibição de uma fantasia de carnaval, por causa de um detalhe na saia que, com o movimento, fazia entrever as coxas.

E que coxas! Era um estouro, uma maravilha, coisa capaz de acender qualquer despreparado, sobretudo naquele tempo e naquele lugar, onde ainda predominavam certos entendimentos sobre o que uma mulher podia ou não podia mostrar.

— Desagradou o namorado, não pode — alguém disse.

Ao contrário: agradara e muito. A questão era outra, era o combate travestido de proteção. Daí que, aproveitando o lado do vento, teve de endossar a ideia:

— Não pode, meu bem.

Mas alguém sempre aparecia com uma solução:

— Veste um short por baixo, que não precisa tirar, e está pronto para a brincadeira.

E o carnaval foi um sucesso.

Tudo a seu tempo, nostalgicamente recordado. Cuidadora de tudo, contando com o assentimento dele, Selmas destacava-se também pela solidariedade humana, num trabalho que exercia como parte de sua prática do catolicismo. Seu comportamento, às vezes, confundia-se com o de um político, daqueles que fazem da assistência uma espécie de vocação. Parecia ainda viver o tempo de funcionária pública, que também fora, agora aposentada, mas sem se aposentar inteiramente da obrigação de cuidar dos outros.

De início, Ítalo até ironizava. Com o tempo, foi se acostumando. Principalmente porque havia ocasiões em que ele próprio precisava de alguém que cuidasse dele. Sobretudo quando abusava da bebida, coisa de que ela reclamava, mas que, de algum modo, ia tolerando.

Se o mundo fosse embaralhado ao fim daquele encontro, estariam juntos na parada seguinte. O aprendizado que tiveram parecia suficiente para a travessia. Daí um relevar silencioso das faltas, uma espécie de pacto sem assinatura, feito mais de convivência que de palavras.

E ele superou. Teve, inclusive, o maior apoio da companheira quando decidiu se recuperar do alcoolismo. Como não cuidar dele? Cuidou. Cuidou quando ele estava sujo de merda, na preparação do banho, sem nojo, sem discurso, fazendo do necessário uma tarefa doméstica qualquer. Tanto que, naquele momento, ela ainda sorriu.

— Sorrindo de quê?

— Daquela conversa do vigário: “na tristeza e na saúde” — respondeu, tentando imitar o velho padre da paróquia.

— Hora de ser escrava, você quer dizer — arrematou ela.

Houve também a hora de maior profundidade, aquela em que o relacionamento a dois deixou de ser simplesmente convivência e passou a exigir reflexão. Foi quando estourou a bomba de uma possível separação, por vir a furo um rastro de infidelidade ao princípio monogâmico.

Observando os gatos no quintal, brincando com uma caixa de papelão, Ítalo parou por um momento e refletiu. A vida seguia. As cabaças se ajeitaram a contento e ninguém falou mais nada.

Talvez porque, depois de tantos anos, certas coisas já não precisassem ser ditas. Ou porque dizer fosse, às vezes, uma maneira de desfazer aquilo que o tempo havia conseguido remendar.

E tudo estava disponível, desflorado, oferecendo-se à sombra, mas com frinchas de sol mostrando o advento de uma nova estação.

Ítalo havia acabado de pagar uma dívida da esposa no comércio local. Negócio terminado, vinha pelas sarjetas chupando um picolé de groselha. Parecia, modernamente, epigrafar o que acontecera consigo naquele instante.

Descobrira que, depois de engolido o doce, precedente ao nada, restava contentar-se com um adocicado pauzinho.

“Pagareis o que deveis e vereis o que sobra.”

A frase lhe escarafunchou a cabeça. Era um velho dito popular, de preferência do avô, e que naquele momento parecia estar em perfeita consonância com o feito.

Grande feito. Pagar uma dívida pretérita contraída pela parceira na reforma da casa, quando se tinha a impressão de que tudo estava quite.

Havia, contudo, algo de desconfiado na cobrança. Cuidado excessivo na maneira de abordá-lo. Necessidade de falar pessoalmente.

— Ele quer “só vocês dois” — disse ao telefone, baixinho, o filho funcionário.

Ítalo não deixou de pesar aquele “só vocês dois”. Estranhava a imprescindibilidade. Se o homem fazia questão de conversar pessoalmente, devia ser coisa de relevo. Mas em que setor? Não lhe passava pela mente questão financeira.

Até que passaram a existir as notinhas de compra. Foi um choque quando apareceram, uma a uma, com as assinaturas dela, todas datadas de coisa de um ano atrás. Justamente de uma época em que, inclusive, o casal andava brigado.

— O que a gente pode fazer é não cobrar juros. Pague o valor original — falou o dono do crédito, bonzinho.

Mesmo assim, era valor considerável. Não havia muito mais a dizer. Era pagar. E pagou.

Pagou com um dinheiro extra que, coincidentemente, ganhara naqueles dias, o que lhe permitiu dar alguns passos de contentamento pelas ruas. “Pagareis o que deveis e vereis o que sobra.” A explicação para o picolé. Sentimento de dever cumprido.

E, como dizia o avô, nada melhor que pagar as dívidas.

Seguiria em frente, ora, pois.

Não acompanhara bem a obra, mas recordava os recursos repassados durante sua realização. Passaram por apertos, estivera vigilante, fizera o que podia. Não se sabia do destempero. Ainda mais por ser Selmas pessoa de reconhecida performance moral e ética.

“É temperamental”, advertira certa vez um médico amigo, confirmando, de algum modo, o que seu próprio pai dissera por ocasião do noivado:

— É uma menina boa, mas de vez em quando tem uns calundus...

Do tempo que Ítalo tivera de convivência com Selmas, aquele traço psicológico já deveria ter sido amenizado ou expurgado. Ficou imaginando a indignação dela diante do comerciante, talvez por alguma fagulha emocional que tivesse escapado ao controle.

Mas decidiu que o credor tinha imensa razão. Selmas não pagara de acordo.

Ainda assim, seguro naquela convivência, não iria reavivar questiúnculas. Se estava com a importância em conta, melhor que ele, em segredo, pagasse.

E foi o que fez.

Depois, continuou chupando o picolé. Já quase sem doce.

 


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