Ana
Ítalo tomou o café na hora em que a garota apareceu
na sala com a bandeja. Jeitosa, a filha do caseiro, foi o que lhe acudiu de
momento. Mas estava meio borocoxô. Arrastado para a fazenda, quase que forçado,
a família no cerco contra seu relacionamento com Dilma, era o estado em que
podia encontrar o menino. Que não era mais menino, mas um acadêmico, graduando
em Letras Vernáculas.
Ítalo
estava agora necessitando de um paracetamol. Estar sob sua influência era uma
experiência incrível. Ele experimentou diversos momentos de catarze
natural, como ocorreu por ocasião de uma parada para um lanche num posto
de combustível à beira da estrada. Era um contentamento obtido por aqueles que
se satisfazem com pouco. Passou-lhe à mente lembrança de um furto que praticara
quando criança, quando teve que saltar o muro e cair num quintal do vizinho
para pegar no pé uma manguita madura. Um momento de ponderação entre o medo, o
furto e o proibido. Um olhar para os lados, depois com os braços estendidos em
comemoração, como símbolo de felicidade em sua expressão mais íntima. Era
tão dele que chegava a se recolher. Um, para não quebrar o encanto; dois, sem
estardalhaço, para não perturbar quem ainda não galgou os degraus.
Tudo
isso vinha a propósito de se encontrar numa inquietação, sem dor localizada. Em
termos de localização, era uma dor interna. Não seria o sentimento de ausência?
- Pegue a placa da porteira, que está
desbotada, e verifique se consegue pintar o nome da fazenda - falou o pai
durante o café da manhã, como se fosse uma ordem de trabalho, equivocadamente
associando a formação do filho à carreira de um letrista pintor. E ele tinha
que aceitar como uma amostra do que estava por vir para preservar a
estabilidade.
-
Seu pai queria que você fizesse pra medicina, mas não deu, né, cara? – era a
filha da empregada tomando boca, como dizia a mãe.
Percorria
o jardim em volta da casa, enquanto escutava o ruído de galinhas garnisés e
alguns patos que vinham da lagoa próxima. Pretendia observar a paisagem
enquanto cumpria sua sentença. Quem disse que ele deveria apreciar as letras?
Portanto, pegue, calce as sandálias de veludo e reconstrua a placa da
propriedade rural.
-
Ana, na próxima vez que for à cidade, traga-me folhas de lixa para lixar essa
placa de zinco, um pincel e algumas latas de tinta preta, branca e vermelha,
combinado?
Depois de resolver a questão da placa,
que aguardaria sob o pé de juazeiro (Ana já havia varrido o local), era
necessário resolver a questão da horta. Ítalo discutiu a ideia com a família
pela manhã. Porém, horas mais tarde, apareceu seu Gerônimo, carregando uma
enxada e um enxadão, acompanhado de dois ajudantes:
-
Sua mãe mandou o senhor marcar o local.
Ele
havia amadurecido o desejo de cultivar uma horta doméstica ao invés de adquirir
uma propriedade rural, que demandaria a contratação de trabalhadores. No entanto,
a mãe, talvez com a intenção de satisfazer o filho e conduzi-lo aos negócios
agrícolas, não aceitava essa perspectiva.
O dia prosseguia fresco, depois do café
gentilmente servido por Ana, toda elegante, quando Ítalo foi pego de surpresa
pela chegada de Alda, que dissiparia o clima tenso:
-
Oi, Ítalo, que saudade! – exclamou a moça com quem já havia trocado alguns
abraços escondidos.
Alda,
disfarçada de entregar correspondências ao seu chefe, aparecia de shorts com
uma companheira.
-
Vai mostrar pra ela a cachoeira, Ítalo – articulava a mãe.
Para compensar essa falta, para
felicidade da mãe, Ítalo envolveu Alda num abraço de antiga paixão e caminharam
entre os galináceos do quintal:
-
Esse daqui, todo imponente, é meu amigo peru, Alda; aquele de uma tecla
“tô-fraco tô-fraco”, barulhento, é o meu amigo cocá, a tal galinha de Angola...
Esteja em casa, Alda, e vamos seguindo que eu quero lhe falar.
-
Também nasci na zona rural, Ítalo, os bichos são de casa.
Contou
a ela da namorada. Não queria magoar os pais. E pediu ajuda.
-
Poxa, gosto muito de Dilma. Ela é minha amiga. Mando meu primo apanhá-la de
moto agora mesmo – disse e foi até a porteira ordenar.
Ao
avistar a cachoeira, Alda não conseguiu resistir e mergulhou a cabeça na água,
sacudindo seu cabelo curto para se refrescar.
-
Maravilha, cara.
Sentaram-se
no lajedo e conversaram, até que Ítalo soltou um grito:
-
Poxa, Alda, será que eles vão falar alguma coisa?
-
Nada, Ítalo. São civilizados, afinal. Além do mais, somos amigas. Respeito.
Ítalo
sentiu-se mais seguro durante a conversa. Com mais vigor, dirigiu-se à queda
d'água e ali enfiou a cabeça, como se estivesse recebendo um batismo:
-
Agradeço, Alda - afirmou, penteando os cabelos com as pontas dos dedos. - E
eles sabem da minha posição.
-
Mas você já conversou numa boa com eles?
Ítalo
sacudia os cabelos ao sol:
-
Não dá nem para isso, Alda.
-
Pessoas civilizadas.
-
Para inglês ver.
- Vamos
conceder um crédito. Ao chegar aqui, parece que ela faz parte da minha
comitiva. Não está na moda dizer assim? Na minha comitiva, e vocês ficam à
vontade.
-
Combinado. Então, vou à pescaria com o meu pai, você fica na cachoeira com sua
amiga até ela chegar, e depois aparece na lagoa, que eu vou com vocês.
Passou
um bom tempo em silêncio durante a pescaria, fornecendo piaba para o pai
utilizar como isca e capturar os peixes, até que sentiu um puxão na sua vara de
pesca:
-
Dê linha - falou o pai, e fez calma.
Ítalo,
satisfeito, acatou as ordens do pai, um experiente pescador. Era uma tilápia robusta
para uma vara de anzol de piaba. Tanto que a vara se entortou no momento da sua
captura.
Da margem oposta, conseguiu observar as linhas
de pernas bem definidas no short branco de Dilma e o cabelo ondulado de Alda.
Perante o silêncio de pescador do pai, antes de guardar o troféu em um
saquinho, levantou o peixe como sinal de triunfo.
Em
boa hora, o garoto Ítalo, mais que depressa, deu por terminada a pescaria e foi
juntar-se às visitantes, falando com entusiasmo da captura do peixe graúdo.
*
Ao refletir,
parecia digno de um postal, com a cachoeira despejando na lagoa repleta de
peixes, patos e marrecos, rodeada por folhas de árvores e o barco que se movia devagar ao movimento do
remo.
-
Dilma, sente aqui, sente.
Dilma, elegantemente vestida com um short
branco, se acomodava no banco, fazendo com que até os animais viessem saudá-la.
Sem mencionar o sol, em busca do cumprimento de paz através de pinceladas
finais. Então, eles se beijaram.
- Você trouxe o biquíni?
De forma astuta, Dilma exibiu
por baixo da blusa a roupa de banho superior. Em seguida, agachou-se e, num
movimento ágil, pegou o short com a mão, momento em que Ítalo a envolveu num
abraço apertado.
Sob o brilho de um sol que
parecia saudá-los finalmente como num ritual de batismo, os dois corpos jovens
se entrelaçaram num abraço molhado e, parte submersa na água, se amaram sem
pressa. Quando retornou à realidade, viu Ana saindo de um matagal, carregando
uma garrafa de suco de caju. Ítalo sorriu ao sentir imagens que mais tarde
recordaria em um poema:
Silêncio de lago
Então aquela pescaria com meu pai, aquele peixe que
fisguei
com anzol de piaba... que até a vara envergou...
era só para aquele instante?
Então o barco daquele dia na lagoa era só para nós
dois;
também a lagoa com seu silêncio de lago
e orquestra de pássaros
num fim de tarde.
E era um instante nosso, local nosso,
nesse pedacinho de mundo
nosso