sábado, 26 de setembro de 2026

 


Irene


Ítalo iria apenas observar o pessoal da Direção, mas acabou enlaçado pelos colegas da unidade de ensino onde lecionava. Era dessas ocasiões em que a pessoa se dispõe a ficar quieta e, quando percebe, já lhe puseram alguma responsabilidade nas mãos.

— Pronto, chegou Ítalo. Ele toca!

Alguém lhe entregou um violão.

Ítalo recebeu o instrumento com a resignação de quem recebe uma incumbência para a qual não se preparara. Não era que não soubesse tocar. Sabia alguma coisa. Arranhava alguns acordes, acompanhava certas canções, tinha lá seus recursos. Mas daí a ser o professor que toca violão, aquele a quem se recorre para salvar uma confraternização, havia uma distância considerável.

E justamente ali, diante de colegas, mestres visitantes e gente da Direção, sua imagem profissional parecia estar em jogo. Professor, afinal, também vive dessas pequenas reputações que se formam sem que ninguém perceba: o que sabe falar, o que sabe ensinar, o que tem jeito para isto ou aquilo. Ítalo não queria inaugurar, naquela tarde, a reputação de quem não sabia tocar.

— Vai, toque logo uma, qualquer uma, pra não ficar em branco. A professora Irene ainda não chegou, mas o violão está aí.

Correu os dedos pelas cordas.

Turutuntumtum.

O instrumento, para seu azar, estava afinadíssimo.

Não havia sequer a desculpa de uma corda frouxa, de um som desafinado, de qualquer imperfeição do violão que lhe permitisse devolver a responsabilidade à matéria. O problema era ele mesmo.

Ítalo conhecia algumas canções, mas nenhuma parecia caber naquele momento. Uma lembrança puxava outra, um acorde chamava outro, e as músicas iam se embaralhando na cabeça como papéis de uma gaveta remexida às pressas.

Foi então que Irene entrou.

Chegou sem saber que, naquele instante, era aguardada como quem chega para apagar um pequeno incêndio.

— Leva alguma aí pra gente, Ítalo!

Ele olhou para ela.

Por um segundo, pareceu-lhe que o tempo, paralisado, dava voltas sem sair do lugar.

Continuou apenas debulhando o nylon. Os dedos procuravam uma saída. Nada vinha inteiro. Um começo de música aparecia e desaparecia. Um refrão se insinuava, mas não encontrava o caminho dos acordes. O violão, agora, parecia muito maior do que era.

Irene percebeu.

E, talvez por perceber, não o deixou sozinho diante do silêncio.

— Vamos, Ítalo. Começa que eu acompanho.

Aquilo lhe devolveu o chão.

Ele dedilhou outra vez, procurando qualquer coisa que pudesse servir de porta de entrada. Irene, então, no estalo, o acompanhou num sambinha antigo, desses que parecem existir há muito tempo justamente para salvar momentos que não sabem como terminar.

Apanhou o mote, como quem pega o animal pelo rabo,  e começou a cantar Nem ouro nem prata, de Rui Maurite:

Eu vi chover, eu vi relampear

Mas mesmo assim o céu estava azul

Samborê, pemba, é folha de jurema,

Oxóssi reina de norte a sul

A voz saiu firme, surpreendentemente larga, ocupando a sala com uma segurança que dispensava qualquer apresentação. Ítalo reconheceu a canção apenas aos poucos. Soube depois que Irene cantava na igreja. Naquele instante, entretanto, pouco importava de onde vinha aquela voz. Importava que ela havia chegado.

Ele encontrou os acordes.

Não eram muitos. Não precisava que fossem.

Passou a acompanhar Irene com o cuidado de quem segura uma bandeja cheia de copos. Ela, por sua vez, não deixou que a música se transformasse numa demonstração de técnica. Cantava para o momento, não para mostrar que sabia cantar.

E foi puxando os demais.

Um começou a bater palmas. Outro acompanhou baixinho. Alguém reconheceu o samba e entrou no refrão. Em pouco tempo, já não havia o professor Ítalo, aquele que temia desafinar diante dos colegas, nem o músico improvisado que recebera o violão quase à força. Havia somente uma roda de gente aproveitando aqueles minutos.

Ítalo percebeu então a delicadeza do que Irene fizera.

Ela não o salvara simplesmente de uma situação constrangedora. Salvou o próprio instante.

Porque poderia ter dito que não sabia cantar. Poderia ter deixado o silêncio cair sobre ele, poderia ter feito uma brincadeira e devolvido o violão. Em vez disso, entrou na música como quem entra numa conversa no momento exato em que o outro já não sabe o que dizer.

E, enquanto tocava aqueles poucos acordes, Ítalo começou a se sentir menos preocupado consigo.

A imagem do professor, que minutos antes lhe pesava sobre os ombros, foi ficando menor. Que importância tinha, afinal, tocar perfeitamente? Que importância tinha parecer habilidoso diante de colegas que, dali a pouco, talvez nem se lembrassem de quem tocara?

Irene cantava.

Os mestres visitantes sorriam.

A sala, que antes esperava uma despedida formal, encontrava uma alegria inesperada.

Ítalo acompanhava.

E aquilo bastava.

Mais tarde, talvez ninguém se lembrasse dos acordes. Talvez nem da música inteira. Mas se lembrariam daquela tarde em que uma professora cantou com um vozeirão de igreja, um professor quase sem repertório segurou um violão como pôde e, por alguns minutos, todos deixaram de ser cargos, funções, visitantes, direção, mestres e subordinados.

Foram apenas pessoas.

Ítalo olhou de relance para Irene e sorriu.

Ela percebeu e, sem interromper o canto, fez-lhe um pequeno gesto com a cabeça,

como quem dizia:

Continue. É disso que se trata.

E ele continuou.

Não porque tivesse descoberto, de repente, que sabia tocar.

Mas porque Irene lhe ensinara, sem nenhuma aula, que há momentos em que não é preciso saber fazer perfeitamente alguma coisa. Basta não deixar que o momento passe em branco.




terça-feira, 18 de agosto de 2026

  

 

O Diploma

Mãe e pai. Aquela coisa de empolgação com formatura de filho. Etapa cumprida. Gente por todo lado, lotação completa no espaço festivo destinado à colação de grau. Beca alugada, fotografia, parentes, abraços, aquela solenidade toda que parece dizer a cada formando: agora você está pronto para a vida.

        Ítalo caminhou até a mesa da comissão encarregada de proceder à formalidade do compromisso de formando e, ao mesmo tempo, entregar-lhe o canudo de formatura. Foi, recebeu os cumprimentos dos mestres que se encontravam à mesa e saiu pelo lado, à procura da mãe bonita, que o esperava para conduzi-lo, filho bacharel, até os demais formandos.

No auditório, sentou-se ao lado de Mauro, conforme a ordem estabelecida para a solenidade.

Foi aí que a coisa começou a desandar. Mauro, seu vizinho de cadeira, resolveu abrir a porra do invólucro do diploma. Abriu. De dentro retirou um belo pergaminho, tudo certinho, assinado, conferido, com letras douradas, coisa de diploma mesmo. Ficou olhando, orgulhoso.

Ítalo achou bonito. E, naturalmente, achou de pegar o seu. Pegou. Só que, ao contrário do de Mauro, não havia diploma algum. Havia um papel. Um simples papel. E nele, datilografado, um bilhete curto, seco, quase hostil: Comparecer à Secretaria Geral de Cursos.

Só isso. Nenhuma explicação. Nenhuma palavra de conforto. Nenhum “parabéns”. Nenhum “estamos felizes por você”. Nada.

Ítalo sentiu uma coisa fria percorrer-lhe o corpo.

— Oh, céus!

Naquele instante, enquanto a solenidade continuava, ele já não ouvia mais nada. As vozes dos professores pareciam vir de muito longe. Os aplausos chegavam abafados. O auditório continuava iluminado, as famílias continuavam sorrindo, os fotógrafos continuavam trabalhando, mas, para ele, alguma coisa havia acabado de morrer.

A festa, pelo menos para Ítalo, terminara ali.

Depois veio o baile no clube. Fotos com a família. Abraços. Parabéns. Risadas. Taças levantadas. E Ítalo com aquela cara. A mãe, bonita e maternal, interpretou imediatamente:

— Oh, gente! Ele está assim porque vai embora e vai deixar os amigos de mais de dez anos aqui.

Pronto. Estava encontrada a explicação. Ninguém mais perguntou nada. E Ítalo deixou. Era melhor assim, porque, na cabeça dele, tudo estava explicado. Lembrou-se da prova de Direito Civil. Aquela maldita prova. Precisava de uma nota média, estava em recuperação, e, numa estupidez que agora lhe parecia monumental, nem sequer havia olhado o resultado afixado na parede da escola.

E então começou a montar a história. A diretoria, para não decepcioná-lo — principalmente para não decepcionar a família —, teria permitido a simulação da colação de grau. Deixaram-no participar da solenidade, receber os cumprimentos, posar para fotografias, tudo. Só não poderiam entregar o diploma. O diploma verdadeiro ficaria retido. Ele havia sido reprovado. Pronto. Era isso. Por isso o bilhete, a frieza, o papel no lugar do pergaminho.

Enquanto todos festejavam o bacharel, Ítalo já se imaginava condenado a mais um semestre de faculdade, tendo de voltar às aulas, rever professores, enfrentar colegas e, sobretudo, contar em casa que aquela noite toda havia sido uma espécie de encenação piedosa.

E assim atravessou a festa. A família sorrindo. A mãe explicando sua tristeza. Os amigos comemorando. E ele, por dentro, fazendo velório.

Na segunda-feira, saltou da cama cedo. Não havia mais como adiar. Foi à Secretaria Geral de Cursos preparado para receber a sentença. Já entraria na sala resignado. Sabia até o que iria ouvir:

“Você foi reprovado em Direito Civil. Terá de permanecer mais um semestre.”

Estava pronto. Ou quase. O funcionário consultou alguma coisa no computador, mexeu em papéis, conferiu um cadastro e, sem demonstrar a menor preocupação com a tragédia que Ítalo carregava no peito, disse:

— Para receber o diploma, o aluno tem que estar quite com a faculdade.

        Ítalo baixou a cabeça.

Era o começo.

— E você está devendo um livro à biblioteca.

Silêncio. Ítalo olhou para o homem. O homem olhou para Ítalo. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

— Um livro?

— Um livro.

Foi quando Ítalo sentiu vontade de beijar o funcionário. Um livro! Não era Direito Civil. Não era reprovação. Não era mais um semestre. Não era fracasso. Não era a vergonha de voltar para casa sem o diploma.

Era um livro. Um simples livro que, sabe-se lá por que razão, permanecera esquecido em algum canto da vida acadêmica. Ítalo saiu dali quase correndo.

Foi para casa buscar o livro para devolvê-lo.

E voltou à faculdade com a disposição de quem acabara de descobrir que havia ganhado a partida no último minuto.

Saiu da Secretaria Geral como se tivesse feito gol em pleno Maracanã. E, pensando bem, tinha feito. Só não sabia que a partida era tão fácil.

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

  



Chamando Maria

 

Conheceu o idoso que afirmavam estar acamado por quase duas décadas. Não fazia sentido. Falava Maria... ô Maria! Quem poderia ser? Queria saber da tia, agitada com as declarações do marido:

- Deve ser alguma rapariga que ele conheceu na época de moço, mô filho. Ele andava muito a cavalo por esses ermos afora.

 Andava ciente de que a senhora não estava propriamente esculhambando; ressentida, ela fazia alusão ao feminino de "rapaz" em seu vocabulário conservador. Ao notar que a tia-avó estava incomodada, decidiu não prosseguir com a conversa.

Também era hora de voltar. Afinal, estava aprendendo a dirigir o carro. Devido à tia, que era muito querida e morava nas redondezas, ele havia recebido uma autorização implícita para utilizá-lo. Embora fosse a mais velha e coxa, a tia, uma lutadora, não tinha sido moça casadoira, foi a terceira na fila para se casar na família. Contudo, obrigada a tomar as rédeas dos negócios, mesmo sem ostentar os adornos da beleza, o destino se mostraria fundamental em sua vida conjugal. Assim, após alguns anos de espera, diante da invalidez que se tornaria permanente do marido, ela teve que arregaçar as mangas e usar seus esboçados talentos para substituí-lo. Criou os filhos, arrumou casamentos para todos eles e os orientou na vida. Agora, após todos esses anos, ele estava presente, em um momento de clareza mesclado com delírio, chamando por Maria... ô Maria com uma voz que ressoava pelos amplos cômodos da casa.

A prática de andar mancando levou à criação de um estilo nos afazeres diários, como abrir e fechar a porteira do curral, agachar-se para alimentar os animais, acariciá-los e conversar com eles em uma língua compartilhada. Sem contar o combate que ainda dava nos serviços de cozinha, a comidinha, o doce, o bolo e o café, na hora certa.

 Melhor que tentasse logo manter uma conversa com o velho. Queria entender quem era essa Maria a quem ele se referia. Talvez, num lampejo de memória, ele conseguisse dizer. Ele se punha, naquelas tardes de treinamento, a imaginar toda uma história de um moço de boa cepa e cheio de entusiasmo com uma moça com tal nome. E ele falava com firmeza de voz, não delírio de uma pessoa embriagada. Afinal era um homem paralisado no leito, sem ninguém para lhe dar ouvidos. A tia, cuidando de assuntos importantes e também já calejada, não se curvava a esses desvarios. Mas de tanto apresentar questionamentos, respondia em atenção ao sobrinho visitante:

- Ítalo, mô fi, não ligue pra ele não, isso é só quando aparece gente que lhe dá prosa que ele lembra dessa moça.

- E ela existe ou chegou a existir?

- Uns diziam que era bestagem dele, outros que ele andava variado da cabeça.

Falava-se pouco sobre o caso, mas, em conversas informais, especulava-se que ele havia se envolvido com algum rabo de saia na época. Essa ideia persistia em episódios de ataques que o tempo não conseguia apagar.

 O pai havia mencionado algumas travessuras do tio nos seus primeiros anos de casamento, e que, com certeza, havia um flerte com uma mulher na cidade que o deixava animado. Mas a tia nem sonhava, até que veio a doença, e ele ficou como se dependesse de uma conversa com alguém, que ninguém sabia. Como forma de respeito, o tema era discutido às escondidas da senhora da casa, que, de sua própria maneira, demonstrava estar além do mero ciúme.

Um dia questionara ao pai por que tanta atenção dedicada a essa tia:

- Ela é a que mais se parece com minha mãe.

A fazendinha escurecia, e ao se despedir da tia, ele manobrou o veículo, assustando os bichos de quintal — perus, cocás e galinhas — ao redor da tia, que dizia “está cedo”. De lá, ainda conseguiu ouvir o velho chamando em um delírio repetitivo: "Ô Maria!"

 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

                                       Tânia

    Um homem do campo encostou sua bicicleta de maneira descontraída em um cercadinho sob a sombra de um pé de algaroba, como se estivesse deixando ali um animal de montaria. Ao chegar ao barzinho, Italo percebeu que vinha para conversar com ele e pediu uma cerveja, como de costume. Não era para ser consultado nem solicitado, mas para uma palavra. Habitual na interação com os eleitores. O jovem vereador prontamente reconheceu. Era Nildo, que tinha oferecido um forte suporte durante sua campanha e se tornado seu seguidor nas ideias.

— Queria saber o que aconteceu entre o senhor e minha filha. Peço desculpas pela ousadia da menina.

Foi como mergulhar num freezer depois de sair de uma sauna. O choque foi imediato. Felizmente, Nildo logo acrescentou que tudo não passara de um excesso de entusiasmo juvenil durante a campanha. Assim, Ítalo não precisou se aprofundar em explicações que, sem dúvida, soariam absurdas.

Apenas ele sabia o quanto aquele episódio havia reacendido algo do jovem apaixonado que fora um dia. Contido o princípio de incêndio, os dois retomaram as conversas habituais. Ainda assim, Ítalo percebeu que havia ali menos um cabo eleitoral e mais um pai solo preocupado com a filha adolescente. Afinal, criava a garota sem a figura da mãe.

Na despedida, Nildo voltou a pedir desculpas. E Ítalo ficou pensando no que a garota teria contado ao pai, de tanto interessante,  sobre a recepção calorosa que recebera — os abraços, os beijos no rosto, os gestos impulsivos próprios da idade. O que o atormentava era a lembrança daquele breve e acidental encontro de bocas, ocorrido em meio à confusão das despedidas. Não podia se permitir ceder àquela fraqueza. Dependendo de como fosse vista, poderia ser interpretada como a sedução de uma jovem vulnerável — ou algo ainda pior.

         Viu Nildo pegar sua Monark e se afastar, acenando com a cabeça em resposta aos transeuntes, sentindo-se com o dever cumprido. Então, de repente, se lembrou de que ela teria retornado e se encontrado com ele naquele mesmo barzinho. Estavam animados com o jogo que assistiam, tomando cerveja, quando se depararam e se grudaram num beijo, agora com a suavidade professoral do momento.

         Dias depois, Nildo apareceu com um convite de casamento de Tânia com um rapaz da cidade:

         - Ela faz questão que o senhor vá.

         - Claro, Nildo!

 


terça-feira, 9 de junho de 2026

                       Motivo da borboletinha amarela de bando


 borboleta amarela

Era para grandes voos, com o queixo erguido, durante o ensaio, mas a vida era assim:

- De repente, você se vê na situação de ter que cobrar o pênalti – Ítalo dizia para Selmas.

E acrescentava:

 - Queria brincar, provocar, chamar o colega, mas era você e era sério, o tempo estava passando, o estádio estava cheio, só agora você percebeu isso, o que aconteceu, aconteceu. Continuava em frente, saía de baixo, pois você estava na frente, atrapalhava, mas a foto era tirada mesmo assim, sem dar tempo de arrumar o colarinho e se recompor, como estava o emoldurado secular.

Para superar tal imbróglio, ele iria adotar o motivo da borboletinha amarela de bando e pegar o ermo de estrada a partir dali.

- Como é o caso dessa borboletinha amarela, Ítalo? – quis saber Selmas.

Os dois conversavam à mesa do café em um domingo. Depois de tomar um gole e descansar a xícara sobre a mesa, Ítalo contou uma história breve, lembrando-se de quando era criança e se despedia do motorista do caminhão da Bela Vista, que havia deixado alguns produtos alimentícios enlatados e estava prestes a seguir seu caminho de volta. Ao acenar com a mão aberta em um gesto de despedida, uma pequena borboleta amarela em bando apareceu.  Foi um momento de felicidade.

- Momento nostálgico: infância, família no lar, uma situação de conforto, você quer dizer. E daí? – disse Selmas.

- Guarde sempre consigo. Em certos momentos de peso, você não vai ter que enfrentar o touro?

- Sim, mas e daí?

- Quando a assombração vier para te envolver, mude de foco.

- Escapar?

- Vá despertar num lugar aprazível, respirar seu ar puro, sentir seu perfume, e não ficar lamentando o leite derramado.

- Então essa borboletinha vai apagar toda essa frustração?

- Ao contrário, com a imagem do lepidóptero você vai longe. Depois, a vida é grande, comporta recuperações, mudanças e, em outras nuances, reparos camaleônicos, além de sopros de esquecimentos.

- Vai longe, hein?

-  Isso é misericórdia de Deus em nosso favor. Para tolerância de possíveis dores, nos valemos da fé e dessas imagens que trazemos guardadas. Eu li outro dia uma crônica de João Ubaldo Ribeiro e entendi o ponto de vista dele.

- Sobre o quê?

- Ele lutava contra o vício do álcool. Chegou a um ponto que ele teve que se apegar fortemente com Nossa Senhora e conseguiu vencer. Ficou livre e durou mais algum tempo.

- Bonito, mas é triste.

- Por isso guardo dentro de mim essa imagem, entre outras, a de crianças retornando para casa, cada uma segurando seu próprio sorvete de casquinha. Enquanto o pai finalizava o pagamento, o menino começou a chorar porque seu sorvete havia caído devido ao movimento do braço. Então, sua irmãzinha mais velha deixou que ele desse umas chupadinhas no dela. Uma canção de Waldick Soriano, ele saberia depois,  era tocada no alto-falante da sorveteria, o único ponto da cidade. Foi uma cena emoldurada de felicidade passageira.

Selmas colocou a mão no seu ombro e perguntou, olhos nos olhos:

- E aí, você vai cobrar o pênalti ou o quê?

- Desperdicei vários deles e agora esqueci, não vou me desgastar, estou em outra.

 

 

 

 

domingo, 24 de maio de 2026

 


Cíntia

 

Ítalo nunca soube ao certo em que momento começou a olhar para Cíntia daquele jeito. Talvez tivesse sido aos poucos, numa dessas tardes abafadas em que ela passava pela rua com os cabelos escuros presos às pressas e os olhos baixos, como quem atravessa o mundo sem desejar chamar atenção. Ou talvez tivesse sido no dia em que ouvira falar do choro por Maneco — um choro exagerado, diziam, de arrancar os cabelos e perder o juízo no meio da loja.

Quem lhe contou foi Zezito.

O pobre-diabo do Zezito, motivo de deboche para quase todo mundo, servia para as risadas fáceis da esquina, para os apelidos cruéis e para os mandados de última hora. Só Ítalo lhe dava algum crédito. Comprava-lhe cigarros às vezes, escutava suas histórias pela metade e tolerava aquela presença magra e inquieta que parecia sempre pedir licença ao mundo.

Ainda assim, fora Zezito quem um dia lhe salvara a vida.

Ítalo se lembrava perfeitamente da tarde em que quase batera de frente com um carro na estrada. O outro veículo vinha rápido, surgindo numa curva estreita, e ele provavelmente não teria tido tempo de reagir se Zezito não tivesse avançado para o meio da rua, agitando os braços como um louco. Na época, Ítalo xingara o susto. Só depois percebera o tamanho do desastre evitado.

Talvez por isso nunca o afastasse completamente.

Naquela tarde, estavam sentados perto do bar, olhando o movimento da rua, quando Cíntia passou.

— Eu estava aqui no dia em que essa menina chorou por causa de Maneco — comentou Zezito, com a naturalidade de quem fala do tempo. — Chorava que era um horror.

— Ele só bolinou ela e depois caiu fora — acrescentou Zito.

Ítalo acompanhou a figura da moça desaparecendo pela esquina.

— Agora ela está até mais bonita. Maneco perdeu.

Zezito abriu um sorriso torto.

— Mas agora ela está disponível.

Aquilo ficou pairando no ar por alguns segundos. Ítalo riu sem compromisso e, antes de sair, bateu no ombro dele:

— Só você mesmo, Zito, pra ajeitar Cíntia pra mim.

Dissera brincando. Ou quase.

Durante algum tempo, Ítalo alimentara a impressão perigosa de que certas pessoas podiam ser conduzidas apenas pelo desejo firme de quem as queria. Como se bastasse imaginar muito uma coisa para que o mundo, discretamente, começasse a empurrá-la em sua direção.

Por isso não se espantou tanto quando Zezito apareceu dias depois, no meio do aquecimento de uma festa, com os olhos brilhando de importância.

— Cíntia vai estar esperando você depois das nove.

Ítalo sentiu um calor subir-lhe pelo corpo.

— Você falou com ela?

— Falei que você vivia comentando… que queria sair com ela.

— E ela?

— Achou que eu estava mentindo.

— Depois?

— O patrão apareceu na loja. Ela teve que fingir que não era nada. Mas eu voltei lá depois. Ela mandou dizer pra você passar no ponto.

Enquanto falava, Zezito parecia satisfeito consigo mesmo, como um sujeito que finalmente carregava algo precioso nas mãos.

Ítalo imaginou Cíntia atrás do balcão da loja de móveis, desviando os olhos, fingindo desinteresse. Gostou disso. Gostou até do ciúme repentino ao saber que o dono da loja era ligado à igreja da mãe dela. Preferiu não perguntar mais nada.

Quando a encontrou naquela noite, tudo aconteceu numa calma estranha.

Ela veio silenciosa, encostando-se nele com uma intimidade tímida, e o perfume dos cabelos ocupou o interior do carro. Ítalo a abraçou primeiro com desejo, depois com cuidado, como se precisasse confirmar que ela existia mesmo.

Afastou-a devagar apenas para olhá-la.

— Que foi? — ela perguntou, sorrindo de leve.

— Quero ver seu rosto.

— Ah… meus olhos verdes?

— Também. Posso imaginar o resto.

Ela riu baixo.

Conversaram mais do que ele esperava. No caminho até o quarto, nas pausas entre um beijo e outro, nas pequenas perguntas inúteis que duas pessoas fazem quando já sabem o que vai acontecer.

Depois veio o silêncio.

O silêncio das mãos correndo pela pele, dos botões cedendo, dos zíperes abrindo caminho. O beijo que trocaram tinha alguma coisa acumulada, antiga, como se chegasse atrasado de muitos meses.

Mais tarde, os corpos cansados e quentes entre os lençóis, Ítalo murmurou junto ao ouvido dela:

— Faz tempo que fico te olhando.

— Eu não acreditei no recado — confessou ela. — Achei que fosse brincadeira de Zezito.

Ítalo sorriu no escuro.

Só então percebeu os pelos macios escondidos entre suas pernas e comentou aquilo com uma ternura inesperada.

Cíntia ficou envergonhada.

— As meninas dizem pra tirar…

— Não tira.

— Tenho vergonha.

— Não tem do quê.

Beijou-a de novo, demoradamente, como se quisesse protegê-la até dela mesma.

Anos depois, era chuva o que havia entre eles.

Uma chuva fina, transformada em névoa sobre a cidade silenciosa. Ítalo procurava lugar para estacionar perto do velório sem se importar com o cansaço da viagem. Tinha atravessado quase dois mil quilômetros para se despedir de Zezito.

Não abandonaria o amigo naquele instante final.

Foi então que viu Cíntia.

Ela estava parada entre outras pessoas, segurando uma sombrinha escura. Parecia diferente — mais velha talvez, mais quieta —, mas os olhos permaneciam os mesmos.

Trocaram apenas um olhar breve.

Ítalo imaginou que ela viesse agora de Minas, onde ouvira dizer que morava. E achou estranho perceber que ambos tinham retornado pelo mesmo motivo: aquele homem ridicularizado por todos, o sujeito magro e desajeitado que atravessara suas vidas quase sem ser notado.

Talvez certas pessoas existam apenas para ligar umas vidas às outras.

 

 

 

domingo, 12 de abril de 2026

                                                      Medusa

         Ele acabara de se barbear e estava prestes a experimentar um lencinho de amostra grátis daquelas loções pós-barba, que apareciam no encarte da revista Playboy, para fazer o teste de charme com o público feminino. Ao olhar-se no espelho e ver seu rosto com a alvura de pele macia deixada pelo aparelho Gilette G2, pronta para receber o produto perfumado, convenceu-se da propaganda: estava irresistível.  Um jovem universitário, nos seus atos preparatórios, em sua essência, para enfrentar a realidade.

- Dê um cheiro aqui pra avaliar se é mesmo do bom – oferecia o rosto branco, de barba tirada, aos tripulantes da barca, como denominava o apê em que moravam, para as irmãs, a empregada, que também, meio tímida, procurava se aproximar:

- Hummm! – dizia cada uma depois de um rápido encosto.

- Vai pra onde assim? – perguntava a outra.

- Vou sair por aí, vamos ver quem vai ser a premiada – disse Ítalo em tom de brincadeira.

Como em um dia mágico, logo o telefone começou a tocar. Certamente para confirmar a reunião com ela, a beneficiada. Quem era de fato ela? Não, não era uma de suas colegas, pois ela ainda iria formar no ano seguinte. Ao cumprimentar seu colega Simeão, conheceu Mercedes:

- Vocês se conhecem de onde? - quis ela saber.

- Do curso de Direito que temos pela manhã. E quanto a vocês? Não me diga que você já paquerou Simeão – devolveu Ítalo, que também tentava contato com Medusa, assim chamada por causa do cabelo.

         Em Simeão, de pele branca, uma vermelhidão subiu pelo rosto e levou tempo para desaparecer. Ítalo percebeu rapidamente que o colega estava interessado na garota e ao seu modo decidiu investigar essa suspeita. Mercedes, embora parecesse filhinha de papai, burguesa, era pelo menos um ensaio do tipo boazuda.

         - Pronto. É Ítalo. Diga, Medusa! Passo aí daqui a vinte minutos.

         Após um certo tempo, Ítalo arrematou a conversa:

         - O meu TCC? Quem te falou? Você vai querer emprestado? Você ouviu comentários, é? Tá bom, estarei levando comigo.

         Ítalo sabia da importância do TCC, mas não dessa loucura toda entre a turma. Desleixado que era para essas arrumações, cuidou de fazer um relatório sem floreio, com o necessário, e tirou nota oito e meio. Os alunos que se formariam no ano seguinte se movimentaram em busca do trabalho para usar como modelo. Até quem andava sumido aparecia pleiteando.

         - Deu muito trabalho pra encontrar, mas agora está comigo, e nem reconheci porque colocaram uma outra capa, mais agradável – completou.

         Fazia mais de quinze minutos que ele estava ali, em uma sala de estar de um apartamento em um condomínio na Barra. Enquanto a vida acontecia lá fora, acomodado no sofá com um monumento no colo, ele subia e descia os morros de Medusa, mas que não deixava se aproximar da gruta.

Devagar para não quebrar o encanto, apesar dos cuidados dela, de surgir algum familiar. Quis perguntar sobre esse detalhe, mas achou demostrar fraqueza sua e acabou por desistir. Além do mais o jovem posava numa de quase veterano, matriculado em dois cursos, bacharelado em Direito, matutino, numa escola pública e concluindo o de licenciatura em Letras, noturno, na outra particular.

- Mas o cara, esse tal de Simeão, não está de volteios com a moça?

     Mas da lembrança desse tempo, ficou apenas com um rascunho do TCC, que lia se perdendo no emaranhado das cobras de Medusa. Ah, Simeão que se contentasse lá com seu curso de Direito.

sábado, 4 de abril de 2026


Nicinha

Eram duas irmãs que, como observou ítalo, precisavam de um irmão mais velho.  Ao passar pela pracinha de esportes, ele logo percebeu esse aspecto de carência estampado nos mínimos gestos, nos gritos, nas premiações do jogo “fulorô de rodeiras”, quando a mais velha delas conseguiu enlaçar uma carteira de cigarros Texas e saiu vibrando:

- Quer trocar, menino? - erguia o maço e perguntava, ignorando o alheamento geral ao redor, enquanto no alto-falante do parque tocava Tim Maia.

- Não. Imagine! - respondeu apalpando o sabonete que tirara. - Mas troque por mais argolas, besta, e tenta acertar no frasco de desodorante – completou Italo.

Deu essa dica a ela para que ela ficasse mais à vontade na brincadeira. Ela recebeu umas doze argolas pelo Texas. Enfiou-as no braço, deu duas a irmãzinha e separou outras duas:

- Tome uma pra você tentar a sorte – ofereceu-lhe de bom grado, como se fosse um convite para lhe fazer companhia.

- Painho já chegou, Laura? – dirigiu-se à pequena, que, entretida, sacudiu a cabeça.

- Então, terminado aqui, a gente vai embora – disse a mais velha.

-  Mas fala em casa que demorou na saída da igreja – sugeriu Italo.

Ela sorriu com a ideia engraçada.

- Você ainda não jogou a sua e ... só faltam três para acabar.

- Esperando terminar pra jogar a minha vez, pra tentar a minha sorte, como você disse.

 Ela deu sua última cartada e se afastou para dar espaço ao novo companheiro, que a surpreendeu:

- Vai ser um presente pra você...

- Nicinha, me chamo Nicinha – disse a garotinha de trança e short azul.

- Atenção! O garoto aqui, pessoal, vai lançar a sua sorte – declarou Nicinha, chamando o menino com um gesto: - Vem!

A maior “cagada” aconteceu quando Ítalo se aproximou do cercadinho, fez a pose e... zupt: a argolinha atingiu o frasco de desodorante, percorreu a mesa e balançou ao lado de um frasco de Alfazema, provocando os gritos das torcedorazinhas, que se abraçaram.