sábado, 20 de dezembro de 2025

 

Casulo

Época do minimalismo, da coisa pequena, invisível como a energia limpa, para ser mais moderno. Passei alguns minutos observando, fascinado, o trajeto de uma formiga carregando uma enorme folha verde. A rapidez com que ela realizava sua tarefa chamou minha atenção. Mas vendo bem não era pressa, era destreza, organização. Segui seus passos, quase sem breves paradas para contatos. Comentei com Selmas, que, em termos de novidade, me contou do ninho da beija-flor visto numa plantinha do caqueiro no alpendre. E brigava com outra em disputa pelo berçário.  Então, falei também do meu amigo Heitor, um anfíbio que aparecia periodicamente, que a gente já o considerava de casa e contava com nosso respeito, a exemplo dos felinos, mais amestrados, dentro de nosso costume.

A gente guarda mais a casa de infância, nosso casulo.

a porta se abre

e os felinos me cercam

como se eu fosse o responsável

pelo segredinho da ração.

 

Heitor passava, imponente, exibindo elegância. E sempre que ele aparecia, era festa, feriado internacional, por nosso decreto. A vez era de agitação. Vinha tomar um banho, numa horinha de mergulho no recipiente de água potável dos bichos, na entrada da cozinha. Em seguida, trocava-se a água e "vida que segue” aos demais. Era necessário aguardar que sua Excelência Heitor desocupasse a banheira improvisada.

Aprendendo a ser parceiros com eles, levava-se a termo a vida.

- Claro. É isso – concordava Selmas.

Daí a observação do mundo das formigas. De onde se buscavam exemplos para essa jornada de vida inteira. E essa harmonia era divulgada por toda parte. Esse procedimento era colhido em pequenas porções e apreciado como um bom vinho.

Fui chamado por Selmas, que estava com a manicure no terraço, para ver uma delas, operária, carregando um pedaço de sua cutícula, na maior, desfilando pela casa.

Embora eu protestasse e Selmas tentasse agradá-lo, Tonico circulava entre os gatos sem se envolver diretamente na trama. Porém, em um só gesto, o cachorro fez sumir o que tanto admirávamos: abocanhou a formiga e sua carga. Fomos resilientes, mas agora estávamos vulneráveis.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

 

Vívian

 

 Com dezenove anos, já tinha saído da casca e estava pronto para namoro além do banquinho de praça, mais adulto e ousado, ainda mais com uma garota contemporânea de sua irmã mais velha, como essa moça vinda de Goiás. Com esses pensamentos, Ítalo se sentiu à vontade para flertar enquanto tomava chope no barzinho durante aquele verão de 80. Levava um papo com Jonas, um veterano, do curso de saúde, viajado nesses relacionamentos:

- Eu vou ficar com essa morenona – cantou Jonas, antes de acomodar as garotas à mesa, o espaço ao lado de Ítalo para a outra, de olhos verdes.

A tarde se arrastava ao som das músicas de sucesso, a ponto de fazer esquecer o caminho de casa e o compromisso, tacitamente marcado com Selmas, com quem começara um relacionamento do tipo sério.  Enquanto alimentava esse desejo juvenil, os chopes com Jonas e as novas acompanhantes avançavam nos arroubos. Nos toques das mãos que deslizavam suavemente pelos cabelos cacheados de Vívian e nas pernas que, em carinhos a mais, se entrelaçavam sob a mesa.  Deveria ser assim, com essa solidez, um relacionamento mais hodierno entre eles. Ele, um vestibulando, estaria em sintonia com Jonas, já iniciado na universidade e coisa e tal.  Fazia desaparecer nele o sentimento  de quem roubava fruta em quintal alheio. Pelo menos.

Esse embrecho ia solto, depois de haver constatado, em conversa que não levou a lugar algum, na qual ela afirmou ter interrompido os estudos, desistido do vestibular e agora estar empregada no serviço público de Goiânia. Passou no concurso para uma vaga na Assembleia Legislativa e resolveu assumir

- Parabéns então, Vívian!

Quando ele, por sua vez, anunciou que estava indo para a segunda tentativa, o papo típico entre os jovens chegou ao fim, dando lugar a uma nova fase, marcada por uma linguagem mais corporal, com muito espaço a ser explorado.

Beijou os olhos dela e recebeu em troca uma ponta de língua no ouvido,  de fazer arrepiar, como um choque bom.

Cada qual ao seu modo, a noite veio e Ítalo descobriu que seria necessário passar pelo teste do banquinho da praça, em tempo de , no mínimo, esbarrar com a curiosidade de Selmas, que foi o que aconteceu. Quando, por um momento, conseguiu erguer-se dos braços de Vívian, perpassou-lhe a imagem de Selmas  ali diante deles, feito uma estaca, então preferiu voltar-se para o sonho e se espremer nos braços da garota visitante,  com a certeza de que amanhã seria um outro dia.