segunda-feira, 15 de junho de 2026

                                       Tânia

    Um homem do campo encostou sua bicicleta de maneira descontraída em um cercadinho sob a sombra de um pé de algaroba, como se estivesse deixando ali um animal de montaria. Ao chegar ao barzinho, Italo percebeu que vinha para conversar com ele e pediu uma cerveja, como de costume. Não era para ser consultado nem solicitado, mas para uma palavra. Habitual na interação com os eleitores. O jovem vereador prontamente reconheceu. Era Nildo, que tinha oferecido um forte suporte durante sua campanha e se tornado seu seguidor nas ideias.

— Queria saber o que aconteceu entre o senhor e minha filha. Peço desculpas pela ousadia da menina.

Foi como mergulhar num freezer depois de sair de uma sauna. O choque foi imediato. Felizmente, Nildo logo acrescentou que tudo não passara de um excesso de entusiasmo juvenil durante a campanha. Assim, Ítalo não precisou se aprofundar em explicações que, sem dúvida, soariam absurdas.

Apenas ele sabia o quanto aquele episódio havia reacendido algo do jovem apaixonado que fora um dia. Contido o princípio de incêndio, os dois retomaram as conversas habituais. Ainda assim, Ítalo percebeu que havia ali menos um cabo eleitoral e mais um pai solo preocupado com a filha adolescente. Afinal, criava a garota sem a figura da mãe.

Na despedida, Nildo voltou a pedir desculpas. E Ítalo ficou pensando no que a garota teria contado ao pai, de tanto interessante,  sobre a recepção calorosa que recebera — os abraços, os beijos no rosto, os gestos impulsivos próprios da idade. O que o atormentava era a lembrança daquele breve e acidental encontro de bocas, ocorrido em meio à confusão das despedidas. Não podia se permitir ceder àquela fraqueza. Dependendo de como fosse vista, poderia ser interpretada como a sedução de uma jovem vulnerável — ou algo ainda pior.

         Viu Nildo pegar sua Monark e se afastar, acenando com a cabeça em resposta aos transeuntes, sentindo-se com o dever cumprido. Então, de repente, se lembrou de que ela teria retornado e se encontrado com ele naquele mesmo barzinho. Estavam animados com o jogo que assistiam, tomando cerveja, quando se depararam e se grudaram num beijo, agora com a suavidade professoral do momento.

         Dias depois, Nildo apareceu com um convite de casamento de Tânia com um rapaz da cidade:

         - Ela faz questão que o senhor vá.

         - Claro, Nildo!

 


terça-feira, 9 de junho de 2026

                       Motivo da borboletinha amarela de bando


 borboleta amarela

Era para grandes voos, com o queixo erguido, durante o ensaio, mas a vida era assim:

- De repente, você se vê na situação de ter que cobrar o pênalti – Ítalo dizia para Selmas.

E acrescentava:

 - Queria brincar, provocar, chamar o colega, mas era você e era sério, o tempo estava passando, o estádio estava cheio, só agora você percebeu isso, o que aconteceu, aconteceu. Continuava em frente, saía de baixo, pois você estava na frente, atrapalhava, mas a foto era tirada mesmo assim, sem dar tempo de arrumar o colarinho e se recompor, como estava o emoldurado secular.

Para superar tal imbróglio, ele iria adotar o motivo da borboletinha amarela de bando e pegar o ermo de estrada a partir dali.

- Como é o caso dessa borboletinha amarela, Ítalo? – quis saber Selmas.

Os dois conversavam à mesa do café em um domingo. Depois de tomar um gole e descansar a xícara sobre a mesa, Ítalo contou uma história breve, lembrando-se de quando era criança e se despedia do motorista do caminhão da Bela Vista, que havia deixado alguns produtos alimentícios enlatados e estava prestes a seguir seu caminho de volta. Ao acenar com a mão aberta em um gesto de despedida, uma pequena borboleta amarela em bando apareceu.  Foi um momento de felicidade.

- Momento nostálgico: infância, família no lar, uma situação de conforto, você quer dizer. E daí? – disse Selmas.

- Guarde sempre consigo. Em certos momentos de peso, você não vai ter que enfrentar o touro?

- Sim, mas e daí?

- Quando a assombração vier para te envolver, mude de foco.

- Escapar?

- Vá despertar num lugar aprazível, respirar seu ar puro, sentir seu perfume, e não ficar lamentando o leite derramado.

- Então essa borboletinha vai apagar toda essa frustração?

- Ao contrário, com a imagem do lepidóptero você vai longe. Depois, a vida é grande, comporta recuperações, mudanças e, em outras nuances, reparos camaleônicos, além de sopros de esquecimentos.

- Vai longe, hein?

-  Isso é misericórdia de Deus em nosso favor. Para tolerância de possíveis dores, nos valemos da fé e dessas imagens que trazemos guardadas. Eu li outro dia uma crônica de João Ubaldo Ribeiro e entendi o ponto de vista dele.

- Sobre o quê?

- Ele lutava contra o vício do álcool. Chegou a um ponto que ele teve que se apegar fortemente com Nossa Senhora e conseguiu vencer. Ficou livre e durou mais algum tempo.

- Bonito, mas é triste.

- Por isso guardo dentro de mim essa imagem, entre outras, a de crianças retornando para casa, cada uma segurando seu próprio sorvete de casquinha. Enquanto o pai finalizava o pagamento, o menino começou a chorar porque seu sorvete havia caído devido ao movimento do braço. Então, sua irmãzinha mais velha deixou que ele desse umas chupadinhas no dela. Uma canção de Waldick Soriano, ele saberia depois,  era tocada no alto-falante da sorveteria, o único ponto da cidade. Foi uma cena emoldurada de felicidade passageira.

Selmas colocou a mão no seu ombro e perguntou, olhos nos olhos:

- E aí, você vai cobrar o pênalti ou o quê?

- Desperdicei vários deles e agora esqueci, não vou me desgastar, estou em outra.

 

 

 

 

domingo, 24 de maio de 2026

 


Cíntia

 

Ítalo nunca soube ao certo em que momento começou a olhar para Cíntia daquele jeito. Talvez tivesse sido aos poucos, numa dessas tardes abafadas em que ela passava pela rua com os cabelos escuros presos às pressas e os olhos baixos, como quem atravessa o mundo sem desejar chamar atenção. Ou talvez tivesse sido no dia em que ouvira falar do choro por Maneco — um choro exagerado, diziam, de arrancar os cabelos e perder o juízo no meio da loja.

Quem lhe contou foi Zezito.

O pobre-diabo do Zezito, motivo de deboche para quase todo mundo, servia para as risadas fáceis da esquina, para os apelidos cruéis e para os mandados de última hora. Só Ítalo lhe dava algum crédito. Comprava-lhe cigarros às vezes, escutava suas histórias pela metade e tolerava aquela presença magra e inquieta que parecia sempre pedir licença ao mundo.

Ainda assim, fora Zezito quem um dia lhe salvara a vida.

Ítalo se lembrava perfeitamente da tarde em que quase batera de frente com um carro na estrada. O outro veículo vinha rápido, surgindo numa curva estreita, e ele provavelmente não teria tido tempo de reagir se Zezito não tivesse avançado para o meio da rua, agitando os braços como um louco. Na época, Ítalo xingara o susto. Só depois percebera o tamanho do desastre evitado.

Talvez por isso nunca o afastasse completamente.

Naquela tarde, estavam sentados perto do bar, olhando o movimento da rua, quando Cíntia passou.

— Eu estava aqui no dia em que essa menina chorou por causa de Maneco — comentou Zezito, com a naturalidade de quem fala do tempo. — Chorava que era um horror.

— Ele só bolinou ela e depois caiu fora — acrescentou Zito.

Ítalo acompanhou a figura da moça desaparecendo pela esquina.

— Agora ela está até mais bonita. Maneco perdeu.

Zezito abriu um sorriso torto.

— Mas agora ela está disponível.

Aquilo ficou pairando no ar por alguns segundos. Ítalo riu sem compromisso e, antes de sair, bateu no ombro dele:

— Só você mesmo, Zito, pra ajeitar Cíntia pra mim.

Dissera brincando. Ou quase.

Durante algum tempo, Ítalo alimentara a impressão perigosa de que certas pessoas podiam ser conduzidas apenas pelo desejo firme de quem as queria. Como se bastasse imaginar muito uma coisa para que o mundo, discretamente, começasse a empurrá-la em sua direção.

Por isso não se espantou tanto quando Zezito apareceu dias depois, no meio do aquecimento de uma festa, com os olhos brilhando de importância.

— Cíntia vai estar esperando você depois das nove.

Ítalo sentiu um calor subir-lhe pelo corpo.

— Você falou com ela?

— Falei que você vivia comentando… que queria sair com ela.

— E ela?

— Achou que eu estava mentindo.

— Depois?

— O patrão apareceu na loja. Ela teve que fingir que não era nada. Mas eu voltei lá depois. Ela mandou dizer pra você passar no ponto.

Enquanto falava, Zezito parecia satisfeito consigo mesmo, como um sujeito que finalmente carregava algo precioso nas mãos.

Ítalo imaginou Cíntia atrás do balcão da loja de móveis, desviando os olhos, fingindo desinteresse. Gostou disso. Gostou até do ciúme repentino ao saber que o dono da loja era ligado à igreja da mãe dela. Preferiu não perguntar mais nada.

Quando a encontrou naquela noite, tudo aconteceu numa calma estranha.

Ela veio silenciosa, encostando-se nele com uma intimidade tímida, e o perfume dos cabelos ocupou o interior do carro. Ítalo a abraçou primeiro com desejo, depois com cuidado, como se precisasse confirmar que ela existia mesmo.

Afastou-a devagar apenas para olhá-la.

— Que foi? — ela perguntou, sorrindo de leve.

— Quero ver seu rosto.

— Ah… meus olhos verdes?

— Também. Posso imaginar o resto.

Ela riu baixo.

Conversaram mais do que ele esperava. No caminho até o quarto, nas pausas entre um beijo e outro, nas pequenas perguntas inúteis que duas pessoas fazem quando já sabem o que vai acontecer.

Depois veio o silêncio.

O silêncio das mãos correndo pela pele, dos botões cedendo, dos zíperes abrindo caminho. O beijo que trocaram tinha alguma coisa acumulada, antiga, como se chegasse atrasado de muitos meses.

Mais tarde, os corpos cansados e quentes entre os lençóis, Ítalo murmurou junto ao ouvido dela:

— Faz tempo que fico te olhando.

— Eu não acreditei no recado — confessou ela. — Achei que fosse brincadeira de Zezito.

Ítalo sorriu no escuro.

Só então percebeu os pelos macios escondidos entre suas pernas e comentou aquilo com uma ternura inesperada.

Cíntia ficou envergonhada.

— As meninas dizem pra tirar…

— Não tira.

— Tenho vergonha.

— Não tem do quê.

Beijou-a de novo, demoradamente, como se quisesse protegê-la até dela mesma.

Anos depois, era chuva o que havia entre eles.

Uma chuva fina, transformada em névoa sobre a cidade silenciosa. Ítalo procurava lugar para estacionar perto do velório sem se importar com o cansaço da viagem. Tinha atravessado quase dois mil quilômetros para se despedir de Zezito.

Não abandonaria o amigo naquele instante final.

Foi então que viu Cíntia.

Ela estava parada entre outras pessoas, segurando uma sombrinha escura. Parecia diferente — mais velha talvez, mais quieta —, mas os olhos permaneciam os mesmos.

Trocaram apenas um olhar breve.

Ítalo imaginou que ela viesse agora de Minas, onde ouvira dizer que morava. E achou estranho perceber que ambos tinham retornado pelo mesmo motivo: aquele homem ridicularizado por todos, o sujeito magro e desajeitado que atravessara suas vidas quase sem ser notado.

Talvez certas pessoas existam apenas para ligar umas vidas às outras.

 

 

 

domingo, 12 de abril de 2026

                                                      Medusa

         Ele acabara de se barbear e estava prestes a experimentar um lencinho de amostra grátis daquelas loções pós-barba, que apareciam no encarte da revista Playboy, para fazer o teste de charme com o público feminino. Ao olhar-se no espelho e ver seu rosto com a alvura de pele macia deixada pelo aparelho Gilette G2, pronta para receber o produto perfumado, convenceu-se da propaganda: estava irresistível.  Um jovem universitário, nos seus atos preparatórios, em sua essência, para enfrentar a realidade.

- Dê um cheiro aqui pra avaliar se é mesmo do bom – oferecia o rosto branco, de barba tirada, aos tripulantes da barca, como denominava o apê em que moravam, para as irmãs, a empregada, que também, meio tímida, procurava se aproximar:

- Hummm! – dizia cada uma depois de um rápido encosto.

- Vai pra onde assim? – perguntava a outra.

- Vou sair por aí, vamos ver quem vai ser a premiada – disse Ítalo em tom de brincadeira.

Como em um dia mágico, logo o telefone começou a tocar. Certamente para confirmar a reunião com ela, a beneficiada. Quem era de fato ela? Não, não era uma de suas colegas, pois ela ainda iria formar no ano seguinte. Ao cumprimentar seu colega Simeão, conheceu Mercedes:

- Vocês se conhecem de onde? - quis ela saber.

- Do curso de Direito que temos pela manhã. E quanto a vocês? Não me diga que você já paquerou Simeão – devolveu Ítalo, que também tentava contato com Medusa, assim chamada por causa do cabelo.

         Em Simeão, de pele branca, uma vermelhidão subiu pelo rosto e levou tempo para desaparecer. Ítalo percebeu rapidamente que o colega estava interessado na garota e ao seu modo decidiu investigar essa suspeita. Mercedes, embora parecesse filhinha de papai, burguesa, era pelo menos um ensaio do tipo boazuda.

         - Pronto. É Ítalo. Diga, Medusa! Passo aí daqui a vinte minutos.

         Após um certo tempo, Ítalo arrematou a conversa:

         - O meu TCC? Quem te falou? Você vai querer emprestado? Você ouviu comentários, é? Tá bom, estarei levando comigo.

         Ítalo sabia da importância do TCC, mas não dessa loucura toda entre a turma. Desleixado que era para essas arrumações, cuidou de fazer um relatório sem floreio, com o necessário, e tirou nota oito e meio. Os alunos que se formariam no ano seguinte se movimentaram em busca do trabalho para usar como modelo. Até quem andava sumido aparecia pleiteando.

         - Deu muito trabalho pra encontrar, mas agora está comigo, e nem reconheci porque colocaram uma outra capa, mais agradável – completou.

         Fazia mais de quinze minutos que ele estava ali, em uma sala de estar de um apartamento em um condomínio na Barra. Enquanto a vida acontecia lá fora, acomodado no sofá com um monumento no colo, ele subia e descia os morros de Medusa, mas que não deixava se aproximar da gruta.

Devagar para não quebrar o encanto, apesar dos cuidados dela, de surgir algum familiar. Quis perguntar sobre esse detalhe, mas achou demostrar fraqueza sua e acabou por desistir. Além do mais o jovem posava numa de quase veterano, matriculado em dois cursos, bacharelado em Direito, matutino, numa escola pública e concluindo o de licenciatura em Letras, noturno, na outra particular.

- Mas o cara, esse tal de Simeão, não está de volteios com a moça?

     Mas da lembrança desse tempo, ficou apenas com um rascunho do TCC, que lia se perdendo no emaranhado das cobras de Medusa. Ah, Simeão que se contentasse lá com seu curso de Direito.

sábado, 4 de abril de 2026


Nicinha

Eram duas irmãs que, como observou ítalo, precisavam de um irmão mais velho.  Ao passar pela pracinha de esportes, ele logo percebeu esse aspecto de carência estampado nos mínimos gestos, nos gritos, nas premiações do jogo “fulorô de rodeiras”, quando a mais velha delas conseguiu enlaçar uma carteira de cigarros Texas e saiu vibrando:

- Quer trocar, menino? - erguia o maço e perguntava, ignorando o alheamento geral ao redor, enquanto no alto-falante do parque tocava Tim Maia.

- Não. Imagine! - respondeu apalpando o sabonete que tirara. - Mas troque por mais argolas, besta, e tenta acertar no frasco de desodorante – completou Italo.

Deu essa dica a ela para que ela ficasse mais à vontade na brincadeira. Ela recebeu umas doze argolas pelo Texas. Enfiou-as no braço, deu duas a irmãzinha e separou outras duas:

- Tome uma pra você tentar a sorte – ofereceu-lhe de bom grado, como se fosse um convite para lhe fazer companhia.

- Painho já chegou, Laura? – dirigiu-se à pequena, que, entretida, sacudiu a cabeça.

- Então, terminado aqui, a gente vai embora – disse a mais velha.

-  Mas fala em casa que demorou na saída da igreja – sugeriu Italo.

Ela sorriu com a ideia engraçada.

- Você ainda não jogou a sua e ... só faltam três para acabar.

- Esperando terminar pra jogar a minha vez, pra tentar a minha sorte, como você disse.

 Ela deu sua última cartada e se afastou para dar espaço ao novo companheiro, que a surpreendeu:

- Vai ser um presente pra você...

- Nicinha, me chamo Nicinha – disse a garotinha de trança e short azul.

- Atenção! O garoto aqui, pessoal, vai lançar a sua sorte – declarou Nicinha, chamando o menino com um gesto: - Vem!

A maior “cagada” aconteceu quando Ítalo se aproximou do cercadinho, fez a pose e... zupt: a argolinha atingiu o frasco de desodorante, percorreu a mesa e balançou ao lado de um frasco de Alfazema, provocando os gritos das torcedorazinhas, que se abraçaram.


sexta-feira, 20 de março de 2026

        

A lista 

Ao lidar com fantasmas das escritas, ele se via fazendo anotações de nomes aleatórios como Alaine, Sandrita, Ednei e Ana Francisca, em busca de um título: umas primas.  Não seriam mais do que primas, como tantas outras, se não fosse um pequeno detalhe: o desejo de ficar abraçado com elas para sempre.  E assim caminhar pelos campos. Muito forte dizer isso, mas a verdade era para ser dita. Sorriso tímido, companheira, nunca Alaine iria deixar-lhe de lado. Sandrita, com seu abraço volumoso e sensual. Ednei, o que a enxuta escondia, enrolada na toalha? Naquela alvura de pele e firmeza no olhar, de que se escapulia a arredia Ana Francisca?

 - Em quaisquer desses braços eu cairia e me encontraria – dizia ele aos quatro ventos.

- Qual dessas você elegeria a predileta, Ítalo? – perguntava-se nessa ocasião de prosa.

Mas o cuidado delas por Ítalo seria o ponto em comum entre as primas.

- Vou colocá-las na minha lista de pessoas que eu gosto de graça. Acho que não tem nenhum problema.

- Quem está nessa lista, Ítalo? Você me falou, faz tempo, que de atriz só tinha Lídia Brondi, e agora? – perguntava a filha de Ítalo.

- Ih, relacionei muita gente.

- Seus filhos? – insistia a filha.

- Nenhum parente próximo, além de duas sobrinhas: Beatriz e Angélica.

Todos concordaram sacudindo a cabeça:

- Realmente, as meninas são de primeira.  Mas o senhor as vê tão pouco! Quem mais?

- Nenhuma pessoa que vocês acham especiais. Pessoas simples... como Marcão de seu Sizínio e Zéu, um taxista, por exemplo.

- Qual é o caso de Marcão de seu Sizínio?

- Não foi amor à primeira vista como aconteceu com seus irmãos Orlando, César e Marivaldo, todos mencionados na minha lista. Pensei em colocar o nome de um amigo de infância, Orlando, ao mesmo tempo em que lembrava de César, que o substituía no companheirismo diário após sua mudança. Também considerava o mais novo, Marivaldo, para quem emprestava livros e era muito gente boa.

- Sim, e Marcão?

- Marcão é irmão deles, mas apenas por parte paterna. Depois de cobrar dele uma dívida, fui descobrindo quem ele realmente era, coitado.  Ele comercializava produtos paraguaios e se comprometeu a devolver um valor, pois a peça que solicitei não funcionou. Acabei por conhecê-lo melhor e nem pensei em receber nada. É um grande amigo... faz qualquer coisa por você, até mesmo morrer. Já havia adicionado três, então foi fácil incluir o Marcão.

- E Zéu?

- Zéu, nós nos encontramos em um bar. Eu percebia que tudo que eu dizia concordava. Cheguei até a ter a ideia de mudar de bar e propus um nome que Zéu já havia considerado. O jogo do Vasco estava sendo exibido na TV. Achei os palpites que ele dava interessantes, até descobrir que ele também era vascaíno. Concordou com as cervejas que eu solicitava e com o momento de partir. Sempre que procurado, ele me servia.

Disse de Elton Melo, Rubão e Fabinho, todos músicos, e, pelo menos, ninguém tinha nada contra, mas não sabiam.

- Tem o nome aqui de Aroldo Jr, quem é?

- Um locutor de rádio dos programas da madrugada que eu acompanhava. Tinha uma voz amiga que passava tranquilidade do dia a dia.

- Você incluiu também a filha de um cantor famoso! – inquietou-se Clara.

Ítalo sorriu e disse fechando os olhos;

- Você acompanhou o sofrimento dessa menina? Ao final, acompanhada por um ukulelê, Areta Marcos interpreta um dos hits do pai, vencedor do Prêmio Roquete Pinto do Estado da Guanabara em 1970! 

- Mas o que você viu naquela menina?

- Vocês podem considerar piegas, mas eu diria que é de uma fofura imensa.

- Você incluiu na lista até a apresentadora Mara Maravilha, como se explica?

- Meu lado bobo de menino, eu a conheci de um programa infantil da TV Itapoã, nas tardes de sábado, gente boa também, mas depois ela se projetou mais e nos perdemos um do outro.

- E por que você não pode incluir um filho seu nessa lista?

- Porque filho a gente tem que gostar por obrigação natural; não faz parte de lista nenhuma – disse ítalo, pondo um fim.

Dando-se por esclarecido, ainda gritou:

        - Nem segue ordem.

terça-feira, 3 de março de 2026

 

Peleja de merda

 

 

A peleja entre o Xerife e o menino Jânio, um bandido de golpes certeiros, ocorreu ao fim da tarde na Lagoa do Mocambo, após o término da brincadeira proposta por Ítalo.

Os moleques caminhavam por ali bestando, até que avistaram em meio ao matagal uma palhoça abandonada, que serviria de cadeia, onde colocar os bandidos. Chamaria Armando para figurar como Xerife, que ele, Ítalo, o auxiliaria, combinado com os outros quatro meninos, que se espalhariam para as trincheiras feito bandidos. Depois de umas buscas, esconde-escondes, iriam ser caçados e presos. Não tardou para que todos fossem localizados e, com ordem de prisão, seguissem para a cabana, onde só se ouvia o movimento dos patos e marrecos na água, o cantarolar dos pássaros e o resto de silêncio de fim de tarde.

Presos ao final, não tinham mais o que fazer. Dava por encerrado o divertimento? Era o aconselhável, mas enquanto pensavam, Ítalo se afastava para dar uma cagada na tranquilidade, agachado na sombra de um pé-de-madeira-nova. Dali assuntava na conversa do Xerife:

- O que vamos fazer com esses bandidos, Ítalo? Soltar?

Ítalo estava apreciando sua obra com um pauzinho lambuzado e teve o estalo:

- Vou ficar ao lado da porta que você vai abrir e chamar pelo nome de cada um.

Armando entendeu o gracejo, mas sem medir a consequência de um desastre. E ele, com autoridade, chamava pelo apelido.

Assim, quando surgiu a ideia macabra de soltar os presos um a um, marcando-os com um pauzinho manchado de merda, Jânio, em vez de aceitar, negaceou o corpo, pegando nele, na boca. Este então se preparou para a briga e, como questão de honra, atacou Armando.

Sempre que passava por ali durante um passeio no final do expediente, admirava a beleza do lugar e um quadro no calçadão da lagoa onde ainda pareciam estar os dois meninos, frente a frente, congelados no momento, prontos para a peleja.

Armando como uma muralha e Jânio aguardando o sinal do gongo, com mosquitos circulando ao redor do ponto sujo de um queixo levantado em desafio.

Antes de escurecer por completo, o açoite do vento parecia dizer:

- Como é que é, sai ou não sai?

segunda-feira, 2 de março de 2026

 

Vitoria

 

 

No alto de uma ruazinha da ponta da cidade, Ítalo desceu do carro, com sua bengala, e foi tomando pé do local observando o casario em volta, até a esquina:

- Que casinha simples e bem feitinha, Selmas! Tem placa de numeração, de nome do logradouro, numa parede recém-pintada, mas... pombas! ... com placa de “Vende-se”!

- Você queria o quê? –  indagou a mulher, que terminava de estacionar o veículo. – O dono dessa casa recebeu da mulher o aviso, que eles estavam se separando e que vendesse a casa e a moto, passasse a parte dela, que ela iria pra S. Paulo com seu amante.

- Oxe, e pode assim? – estranhou ele, enquanto se acomodava na sarjeta de uma padaria em frente.

- Esses meninos se casam e se separam ao sabor da onda. De repente, “pintou um lance” e pronto; a responsabilidade que se lixe: não existe compromisso - explicava Selmas, mais andeja que o companheiro.

- E os filhos como ficam?

- Ficam.

- Essa não...

Ítalo começou a imaginar. O jovem seria de Marte, de outra galáxia, seria? E quanto aos meninos?

- Afirmam que o pai, além de trabalhar, também dedica tempo para cuidar deles e faz isso com muita competência. "Ele pelejou com ela, mas acabou desistindo", explicou Selmas.

Percebendo o interesse de Ítalo, continuou:

- Ela ia para as festas e ele ficava em casa tomando conta do menino.

- Então era desse jeito?

- Era. A vizinhança se cansou de ver carro chegando tarde da noite, quando ela voltava das festas com os amigos.

- E ele não se queixava?

- Ora, reclamava de quem fazia barulho, para não acordar a esposa.

- Passou os primeiros anos de casado fazendo a casa, que é essa que teve que botar a venda para ter que partilhar com essa mulher.

A dona da padaria se aproximou para atendimento e, tendo assuntado na prosa do casal freguês, informou para encerrar:

- O  nome da mulher dele, a gente brincava na escola para desbancar, é Vitória, Vitória-Correu- cinco-léguas-e-cagou-cinco-toras”.

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Fetiche

 Nele, que já não era mais um adolescente, o tesão aflorava de forma silenciosa. A propósito de qualquer particularidade, independentemente de tempo ou espaço. Como no momento em que avistou uma alvura no movimento das pernas da balconista. Nunca teve tanto valor para si como teve aquele lampejo. Era uma sacada, na linguagem moderna. Ou um clique íntimo para o fotógrafo, que ele carregaria para alimentar seu ego masculino.  Interessante que, a considerar, era uma espécie de fetiche. Uma parte de tecido cor de goiaba encobrindo um palmo de perna branca com o poder de despertar para outro mundo. Ainda com essa vantagem, a de guardar em arquivo a pele clara sob o tecido delicado da saia.

Agora, sempre que se pretendia aceso, buscava na memória esse registro. E encontrava-o à sua disposição. Uma pequena concentração e pronto, o membro hígido realizando o aquecimento da mão em atividade. Que lhe deixava meio satisfeito por enquanto.

Era necessário permanecer nesse exercício. Não era possível ir além disso. Via agora o que acontecia nos bastidores, como se já tivesse superado essa etapa (garota da banheira). Como consequência, ia, na transitoriedade, buscando auxílio, quando surgia furtivamente o anseio, que se controlava. Como foi com a garota do pão. Ao sentir, preferiu dar só mais uma espiadela e, disfarçadamente, com a mão no bolso, retirar-se. De bom tamanho, levava a foto.

Também havia sido registrado, em um momento remoto, mas guardado em arquivo, um par de seios soltos à mostra em uma blusa entreaberta, assemelhando-se a duas peras desejosas de serem colhidas e suavemente mordidas.

Durante os primeiros dias de casado, ele, entusiasmado, compartilhou em um bar algumas particularidades da vida a dois, o que levou um senhor presente a comentar em particular: "É certo, mas pare com isso, meu filho, essas coisas ninguém sai por aí falando com ninguém não." Tal conselho muito lhe valeu pela vida a fora, mas nunca pôde calar o silêncio que levantava seu apetite sexual.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

 

Tiana

 

Ítalo retornou de férias à cidade como se tivesse acabado de fazer um exame de vista, passando a enxergar melhor e sem admitir qualquer erro no uso do idioma. Ainda mais agora que havia descoberto uma coleção de clássicos em casa e começou a apreciar a linguagem de M. de Assis, que ressoava em seu íntimo como uma flauta doce, revelando novos significados.          

Naquela época, não era surpreendente ver o garoto sempre com um livro na mão, mergulhado na exploração da coleção.  Até se permitiu escrever versos no estilo soneto, como o que dedicou a Talita, expressando seu amor platônico. No entanto, antes disso, o garoto passou por uma fase um tanto radical em suas críticas, observando a maneira como os outros se expressavam:

- “Para eu brincar”, você quis dizer, não é? – Ítalo corrigia a pessoa que acabara de dizer “para mim brincar”. Não o fazia para se mostrar superior, mas para deixar encaixado nele o aprendizado.

Mas, com o tempo, o cara pegava a mania. E foi o que ocorreu com Ítalo, que acabou perdendo uma despedida de namorado com uma garota que então se destacava e se tornaria maior sensação depois.  Era Tiana, de pele morena bronzeada, que, montada em seu cavalo, parecia derramar tinta sob seus cabelos negros, que esvoaçavam ao vento. Ao modo de rapaz, uma amazona, montava muito bem e tinha lá seu charme com aqueles lábios grossos dizendo qualquer coisa.

Enquanto isso, Ítalo chegou ao ponto de dizer que era de perder o tesão de pessoas que pronunciavam mal o português. Mas lambido o cabelo de lavanda marca Trim, ele se lançava em busca de namoricos. Até que viu em Tiana um potencial a explorar:

- Tomando um banho de loja lá em São Paulo,  essa menina vai ser um estrondo – era o comentário que começava a circular na cidade.

Tal conversa vinha a propósito da presença dos irmãos de Tiana no funeral do velho pai, que voltariam com ela para S. Paulo.

Quis o destino que os dois se encontrassem e era para despedida daqueles dias de ronda feita em torno da menina do cavalo. Mas nesse dia ela estava toda “pra-frentex”, já enturmada com as gírias trazidas pelos irmãos naquele início da década de setenta. Por isso que o que seria considerado “fofo” na voz de uma morena como Tiana, Ítalo teve que terminar com a garota ali mesmo na hora que ela disse, como que para reacender o papo, ela disse (viu sua voz sair da beleza dos lábios grossos):

- Amanhã eu vou se picar pra São Paulo!

 

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

 Diva

 

   

         Além de algumas ligações telefônicas, exames laboratoriais, passagens ida e volta, caminhadas junto ao Ministério Público e uma rodada de sorvete de coco em uma manhã ensolarada na avenida principal, na verdade, não se podia considerar como despesa o resultado de uma aventurazinha de juventude. Tudo começou com uma ligação recebida no local de trabalho:

         - Ela agora pergunta pelo pai, quer saber como foi – dizia a mocinha que virou mãe, numa voz que vinha limpa de terra distante.

- Oxe, como foi como? Final de festa, ué – estranhou Ítalo numa posição defensiva.

         - Não. Isso ela já sabe – raquetou a mãe.

         - Você estava com seu namorado – Ítalo devolveu a bola.

         - Mas não me deitei com aquele cachorro, ela sabe também. Aí você vai ter que falar com a avó, minha mãe, que pôs na cabecinha dela o que rolou na cidade, que é filha sua – arrebatou por fim a garota daquela ocasião.

         - Minha? – gritou Ítalo.

Subitamente, ele, na posição que detinha na comunidade, com uma filha pré-adolescente suposta. Um breve entusiasmo com a ideia a acompanhou por onde passava, especialmente depois de ouvir a voz da menina pelo telefone.

- Aquele dia eu dei uns conselhos a ela porque você me pediu.

- É, eu sei. É que eu não tinha a quem recorrer nessas horas.

Nesse dia falou como se fosse pai atencioso de uma criança, que acabou sossegadinha e foi dormir, mas agora era uma mocinha.

Teve que tomar providência. Primeiro, ajeitar passagens ida e volta e vagas num hotel de classe, bem como exames de laboratório e caminhadas para o Ministério Público. Depois, escalar tia Brenda para um sorvete de recepção numa lanchonete decente.

         - Por que eu?

         - Uma pessoa amiga, né, tia? Você queria que eu chamasse Selmas?

         - E ela não sabe de nada?

         - Sabe da conversa da época, superado, é só, sem maiores riscos.  Afinal, as cabaças acabam se ajeitando.

         - Mas você vai ter que mexer com isso de novo, Ítalo.

         - Perdeu o calor da coisa, tia – tentava explicar. - Hoje se olha pelo retrovisor: eu era jovem e coisa e tal...

         - Vocês homens...

         - Você vai ficar um pouco para quebrar o gelo, fazer a maciota, vamos dizer assim, que nós só nos falamos umas poucas vezes e ainda assim por telefone – argumentava Ítalo.

         Ela sorriu, mas, em troca, queria informações sobre o caso. Então, houve a necessidade de recuperar da memória distante imagens dele, ainda na frescura do caminho a seguir, tateante nas aventuras das noites. E foi em um final de festa que decidiu tanger um garoto, que devia lá ser o namoradinho dela, para dançar com algumas garotas já experimentadas:

         - A gente passa em casa e curte um som legal – era o chama.

         Assim que colocou o disco na vitrola, eles já estavam transando na cama. Ele adormeceu rapidamente, sem se recordar da despedida com a amiguinha que esperava na sala.

         - Depois, lá um dia, apareceu esse bebê e a mãe, apertando a filha, contou com quem tinha saído.

         - Já sei da história: seu nome estava no meio - o cara, e foi fácil espalhar a notícia – disse e ficou contemplando Ítalo. -  Está bem, vamos aguardar – confirmou tia Brenda, por fim.

Cumpriria mais uma etapa. A próxima batalha seria travada no momento adequado, quando a disposição dos astros fosse diferente. Por enquanto, ele optava por desfrutar do papel de pai de uma garotinha, suspirando com uma expressão de preocupação.

         Italo pesquisou o passado familiar e descobriu que a razão para o divórcio de seu avô foi a mesma circunstância: ao matricular na escola dos filhos uma menina que ele teve fora do matrimônio. Mas suspirava aliviado ao constatar que o incidente ocorreu na década de cinquenta e que novos tempos haviam chegado.

         - Dizem que o exame é seguro, 99% de certeza. É caro?

         - É, mas  existe desconto para o Ministério Público, que tem convênio.

         - E você espera positivo ou negativo?

         - Na época eu não ia querer não, mas agora estou mais preparado para me entender com Selmas e não acontecer o que aconteceu com meu avô, né?

         Nem por instantes lhe passou pela cabeça um abalo na sua relação com Selmas. Uma nova versão, um remaker da historia do seu avô? A batalha que tinha que enfrentar estava perto, que era saber o resultado.

Ítalo chegou cedo ao hotel para as orientações necessárias e até tomou café da manhã com mãe e filha para se integrar. Foi combinado um passeio para tomar sorvete mais tarde e, no dia seguinte, a ida à sede do Ministério Público para o lacre da coleta de sangue com os técnicos de enfermagem.

Assim, quando Ítalo se encontrou com a tia Brenda, já estavam próximos, e ele ajustou um detalhe da blusa dela, tudo ocorreu de maneira ordenada, tanto que veio em boa hora a ideia do sorvete.

- O delas conforme pedido delas – explicava ao garçom o suposto pai. -  O meu é de coco branco com pouco de coco queimado.

O passeio acabou se estendendo pela cidade, quando teve a ousadia de repousar a cabeça no colo de Diva, sua filha, porque o exame a ser feito era mera formalidade.

No dia seguinte, após a realização do serviço de protocolo perante a autoridade do Ministério Público, que enviaria a amostra via SEDEX para Belo Horizonte, despediram-se da garota Diva sem que um fotógrafo estivesse presente para registrar a ocasião especial. Mas a tristeza maior veio tempo depois com abertura do lacre do resultado:

- Ela chorou muito, ficou completamente frustrada – era a mãe. – Mas eu cansei de falar que não era  você.  Mas foi você quem chamou para tirar a dúvida.

 Após um assentar da poeira, Ítalo recebeu a informação de que havia um outro namoradinho da mãe.

- E aí vão acionar esse suposto pai?

- Não.

- Oxe, por quê?

- Ele se mudou para o Estado do Mato Grosso. Também ela se retou e disse “Chega! se não foi desta vez, não quero saber mais não”.

Ítalo, que já tinha preparado seu discurso de maturidade e de presenteado,  guardou consigo essa frustação de Diva, menina dócil mas inconsolável.