terça-feira, 27 de janeiro de 2026

 

 


Marina e Georgina

 

            Ítalo buscava na memória seus namoricos de 1974 quando começava a se achar como protótipo de gente grande. Com relação a umas duas garotas, precisava assentar a ideia. Mesma época mas ocasiões diferentes. Marina e Georgina eram ambas gordinhas apreciáveis. Apresentou-se a elas com destaque na camisa aberta ao peito, de forma que ninguém podia dizer ter Ítalo apenas a idade de treze anos. Ambas provenientes de São Paulo, de férias, em visita a uma tia.

         Marina foi a primeira. Morena de pele clara, com uma bela cabeleira escura e olhos igualmente expressivos. Andava bem com o vigor da adolescência de Ítalo, que, em ajuda à estampa, num charme a mais, usava uma fita na testa, contendo o avanço dos cabelos castanhos. Principalmente quando na prática de esporte. Quando corria em comemoração ao gol, que nem o jogador Fito do Bahia.

         Com certeza, eles teriam dado algumas voltas na pracinha de mãos dadas, conversado com o primo de Ítalo, que, de bairro vizinho, de São  Paulo,  também estava ali a passeio. Depois um retorno, à porta da casa da tia, que estava de bom tamanho. Guardava dela os ternos beijos de lado, enquanto afastava os vastos cabelos com um gesto rápido da mão. 

         De Georgina, o mesmo procedimento, porém os lábios se destacavam imediatamente. O período foi mais breve, mas também inesquecível, com cenas misturadas com as da outra garota.

         - E para qual das duas você era mais balançado? – quis saber Selmas ao lado.

         - Confundo as duas.

         - Você ainda não tem idade para isso.

Antes ele tinha treze. Cinquenta e tantos anos depois, com um AVC no currículo, ficou sem entender: certas passagens das garotas se confundiam.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

 

 

Raissa

 

         Ele vinha meio trôpego, chapéu prestes a cair, apoiado por um instante com a mão. Estava à procura da filha, uma das jovens que dançavam, escondida, no “horas dançantes”, evento realizado na residência de alguém conhecido na comunidade. Na verdade, serviam para treinar os rapazes ainda imberbes, nos bailes de festinhas. Ítalo notou que uma garota cochichou com outra, provavelmente para alertar Raissa, lá na sala, de que ela estava prestes a se meter em encrenca:

- Eu que não vou me meter nisso, que ela tomou meu namorado pra outra.

 A garota era par preferido da moçada. Tornou-se costume do velho sair desembestado para dar conta da filha mocinha. Ítalo, por diversas vezes, cansou de vê-lo chegar assim, e ela, escorregadia pela porta do fundo, desgrudava-se, temerosa, dos seus braços:

         - É meu pai. Tenho que ir.

         Mas estava ali apenas observando, pronto para partir, pois já era tarde e já não contava mais com chance de arrumar uma parceira. Era preciso voltar àquela penumbra e avisar a Raissa, coitadinha. A coleguinha já decidira a questão de forma vingativa, em vez de agir com coleguismo. E ela se divertia como parceira de dança nos bailes, mas ficava aterrorizada com os castigos do pai. Faria esse favor. E rápido, pois, caso contrário, com o pai naquele estado, haveria confusão na entrada do baile. Ela, toda arrumada e maquiada, ficaria morta de vergonha. Apesar de contar com a solidariedade masculina, por certo o clima dos demais seguiria a mesma linha de mesquinhez preconizada, motivo para arrastar comentários negativos durante a semana. Com essa reflexão, Ítalo sentiu uma onda de heroísmo e decidiu entrar no recinto, pedindo licença entre as duplas de sonhadores que curtiam a música dos Beatles, que enchia todo o ambiente.  Conseguiu segredar algo no ouvido de Raissa, que curvou meio sorridente e se fechou de vez em seguida, largando seu parceiro no salão. Para completar, puxou Ítalo para o fundo pelo braço:

         - Logo hoje! Vamos correr, que ele não me acha e vai embora.

         Sentados na mureta de um velho casarão desabitado, Rai contou um pouco de sua vida, choramingando nos seus braços, filha mais nova de seu Antenor.

- Eu é que devia estar olhando ele... não aguenta bebida...

Ajudava a mãe em[N1]  casa, mas dava suas escapadinhas de garota, não era de ferro. Os irmãos de Ray eram todos casados, tinham lá suas preocupações.

- Não chore não, boba. Fique tranquila,  que nada vai acontecer -  era a vez do herói.

Ainda apanhava do pai, se queria saber, não[N2]  tinha segredo nisso não. Não adiantava contar do seu serviço de casa, antes do ginásio. Não era uma vadia, uma irresponsável qualquer. Havia programado com os amigos, jogo limpo. Agora passaria a encontros clandestinos?

- Mas, segundo umas meninas, você está namorando para impedir que um namore outra, não é isso?

- Mas nada escondido, normal – disse limpando o molhado do rosto com as mãos.

Ítalo segurou suas mãos e as beijou; ele não podia deixar essa chance passar. Em seguida, buscou seus lábios para ousar um beijo, que despertou a coragem de expressar seu desejo.

Ao retornar para casa, parou em um bar para comprar chiclete e escutou alguém falando com orgulho “Raissa, minha filha”. Era seu Antenor tomando uma "saideira" enquanto conversava exaltando sua filha, que terminaria o ginasial com uma festa de formatura em dezembro.

 


 [N1]

 [N2]

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

 

 Glória

 

Ao se recolher às suas particularidades, encontrou no celular um grupo da turma de estudantes dos anos 70, com um chat para discutir o que fosse interessante. Bom que eles postavam algumas fotos do antes e do agora. Ao mexer nessas mensagens, Ítalo redescobriu Gloria, sua namorada de 1978. Alguém anunciava a visita a um lugar com umbus de qualidade, grandes e em abundância, e ela, acompanhada dessa imagem, lamentava ter recebido de forma tardia a informação. Recordou-se da dívida que tinha com a namoradinha e postou para ela não se preocupar, pois, em um gesto nostálgico, ele se encarregaria de enviar uma porção do mencionado umbu, fácil de encontrar na feira de sua cidade, que era vizinha.

 Ele havia visto Selmas, caminhando pela casa, às voltas com algumas frutas dessas e o auxílio de uma faca, então pensou que seria simples pedir para ela trazer uma amostra desse produto para presente. Não compreendia de imediato por que resquício do ciúme ainda persistia na companheira, mesmo após 49 anos.

Nada dizia, mas o silêncio fazia relembrar explicações, tantas vezes prestadas, na pressa da juventude, quando de encontros casuais.

- E na semana você leva pra ela, Selmas – recomendava.

- É no hospital, que ela trabalha lá – completou a companheira de quarenta e oito anos.

 Conhecendo Selmas no ano seguinte,  seria ela a sucessora. Ítalo sorriu e balançou a cabeça ao se recordar desse pormenor. E, em resposta ao que ela começou a interpretar como provocação, Ítalo disse:

- Ah, aproveite, Selmas, e verifique se os olhos dela ainda estão verdes.

- NÃO VOU REPARAR NOS OLHOS DE NINGUÉM NÃO!  BASTA: é chegar e entregar na portaria.

Bem feito, pensou, quem mandou pegar pesado no elogio. Encolheu-se o “gostosão”, no pensar dela, e tentou amenizar:

- Tanto tempo faz, Selmas!

- Você, como que atendendo a capricho de entojada. E ainda quer me usar! Essa não, meu caro! Não mesmo!

- Você está ligada que ela foi um ano antes de você, né?

- Também não quero ouvir novamente essa história de presentinho no Dia dos Namorados, que a coleguinha veio se desculpar e blá blá blá.

Deixou que falasse. Que derramassem essas frescurazinhas dos tempos de moça. Era necessário permitir que a coisa se desenvolvesse sem que ela desse entrada de ar. Quase! A encomenda, que era uma retribuição ao gesto de 1979, chegou ao seu destino pela imagem postada por Selmas, mostrando o pau que matou a cobra, no pensar dela, ao fazer a entrega das frutas em mãos de Glória.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Charlote

 

A ramificação do pé de maracujá buscou suporte na encanação que conduzia da caixa d'água para a casa, e acabou descolando de forma abrupta, ocasionando um jorro explosivo de água. Essa imagem veio à mente de Ítalo quando ele avistou Charlote se posicionando diante do microfone para cantar. Ele viu o enlace da trepadeira no tubo de plástico. Ele sentia esse mesmo impacto. Ato de consciência da superioridade sem peças de apoio, sem espeques, sem nada, flutuante. De onde podia acompanhar tudo como um farol o faria. Sua voz, que não se distinguia de que local soava, como um miado de felino, elevava-se tendo em resposta e ao fundo o coral da igreja, que parecia encher o ambiente. Abaixado o som, Charlote surgia de novo mais presente, localizada, soberana. Após o grande silêncio, seguiram os comentários:

- Mas ela tem a voz boa! – dizia Selmas.

- Não é só isso, de voz boa, isso muitos têm – Ítalo replicava. E todos em volta ficavam em suspense.

– Ela é aquilo que um certo crítico disse, referindo-se a Frank Sinatra.

- O que ele disse?

-  Ele, Sinatra, não tem a voz boa, ele é a “Voz”. Assim é Charlote.

Nesse momento, a conversa passou para outros adjetivos mais adequados à linguagem cotidiana de plebeus. Que Charlote era uma mulher atraente, especialmente com aquele vestido, e assim por diante.

- Elegante! – gritou Ítalo,  pondo um ponto final na questão.

Notou que era uma característica comum no propósito de todo ser humano. Ao criar seu habitat, entrava no desejo de possuir essa parte que lhe faltava, daí a variedade de intenções e toda luta de interesses. A partir desse entendimento vinha a negociação. Muitos se achavam, outros sofriam nessa caminhada.

- Eu não teria dificuldade – disse Ítalo.

- De quê? – perguntou Selmas.

- Sem alardeios, estou pensando: eu não teria dificuldade nenhuma de nesse marasmo todo encontrar essa joia, um complemento.

- Oxe! Obrigada até aqui e me desculpe por qualquer coisa.

Para evitar embaraço com o silêncio, Selmas procurou dar novo rumo à conversa:

-  Ela tem uma filha pequena, que é uma graça.

Ítalo deu de ombros, como se fosse mais um recheio.

- Da mesma idade da nossa filha – completou Selmas, como se colocasse a última das cerejas no papo de trivialidades.

Para evitar um impasse, Ítalo disse, por fim:

- A gente precisa conversar depois.

         Havia necessidade de conversar? Charlote já havia sido apresentada a ele.  O problema estava nele, e Ítalo precisava conversar com Selmas sobre isso. De forma tranquila, seria sincero e contaria tudo, com seu jeito perscrutador.

         - Dentro de mim, Selmas, carrego essa preocupação. Eu vejo, eu enxergo...

         - Você enxerga o quê, Ítalo?

         - Essa minha gagueira diz tudo, não é?

     - Não sei. Há pouco você ficou assim diante de uma servidora da saúde, me contando a história de seu avô, de mulheres que têm “flores brancas”. Agora de novo esse vacilo. A explicação é a mesma? Ou, nesse caso, o que diria seu avô?

 


sábado, 3 de janeiro de 2026

Então era desse jeito?

 

Então era desse jeito? Também havia pessoas do outro lado com iguais direitos? Desde quando?  Quem sabe quando garoto de colégio! Foi nesse momento que ítalo estranhou o cuidado com que Edu, um colega de ocasião, era tratado, com mimos e puxa-saquismos, causando até um pouco de inveja. Teve que segurar o ímpeto, que conter-se, não quisesse escândalo. E assim, a partir daí, poder se conduzir e respeitar o rival no caso. Um primeiro foi André, que, ao contrário de Ítalo, sabia mergulhar. Mas o garoto era de uma nobreza, que nem podia se levar em conta, porque era de inveja boa.  Já não podia mais ver como um outro lado. Era um igual com os defeitos e as qualidades.  Marquinhos, num jogo do dente-de-leite, fez um golaço testando uma bola que vinha de uma cobrança de escanteio. De forma natural, testou, guardou, debaixo de suas fuças. Tantos outros exemplos podiam ser arrolados, mas a surpresa foi só no começo, depois teve que se acostumar.

Causava medo ao se sentir esgueirar em direção ao desconhecido, em um ponto oposto ao domínio comum. Um assombro passageiro, graças a Deus. O problema que esse passageiro era uma eternidade. Até que tivera tempo de se corrigir, mas ninguém que se cuidasse de tal empreita aparecia, senão para tão-somente lhe apontar os erros.

- Depois da batida do carro, fica fácil dizer – pensou ítalo.

Andara até ensaiando ser tipo um soldado espartano. De posicionar-se à hora do Hino Nacional, texto bem decorado em liturgia e tudo mais, mas não, de uma vez a quebra, o rompimento, a figura de um antissocial, em vulto crescente, de cigarro aceso entre os dedos, de gritos na plateia ao convencionalismo, a tudo que era careta. Considerava os livros de moral e pensamentos, no estilo de Cícero, irrelevantes. Nem tinha paciência com os clássicos.  Era impensável imaginar o mundo sem a calça boca de sino e sem o rock. Só mais tarde entenderia a relevância do método beneditino; antes disso, não passava de um asdfg-asdfg, sofrendo ao ouvir o som e ver o tocado impecável, em vez de um simples turuntuntum do violão.

No entanto, agora se buscava seguir a cartilha do bom senso, reconhecendo a importância de certos costumes, como a educação física pura e simples, o convencionalismo, prática que se consolidou pela economia de testagem adotada pela humanidade.

 Nesse momento, quando se buscava o efeito de uma deflagração, se avançava para o portão de saída, sem tempo sequer para uma recomendação. Somente agora foi possível entender a vida que seguiu seu curso natural, como uma enxurrada que encontrasse seu lugar e revelasse até mesmo seus aspectos ocultos.