segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

 

 Glória

 

Ao se recolher às suas particularidades, encontrou no celular um grupo da turma de estudantes dos anos 70, com um chat para discutir o que fosse interessante. Bom que eles postavam algumas fotos do antes e do agora. Ao mexer nessas mensagens, Ítalo redescobriu Gloria, sua namorada de 1978. Alguém anunciava a visita a um lugar com umbus de qualidade, grandes e em abundância, e ela, acompanhada dessa imagem, lamentava ter recebido de forma tardia a informação. Recordou-se da dívida que tinha com a namoradinha e postou para ela não se preocupar, pois, em um gesto nostálgico, ele se encarregaria de enviar uma porção do mencionado umbu, fácil de encontrar na feira de sua cidade, que era vizinha.

 Ele havia visto Selmas, caminhando pela casa, às voltas com algumas frutas dessas e o auxílio de uma faca, então pensou que seria simples pedir para ela trazer uma amostra desse produto para presente. Não compreendia de imediato por que resquício do ciúme ainda persistia na companheira, mesmo após 49 anos.

Nada dizia, mas o silêncio fazia relembrar explicações, tantas vezes prestadas, na pressa da juventude, quando de encontros casuais.

- E na semana você leva pra ela, Selmas – recomendava.

- É no hospital, que ela trabalha lá – completou a companheira de quarenta e oito anos.

 Conhecendo Selmas no ano seguinte,  seria ela a sucessora. Ítalo sorriu e balançou a cabeça ao se recordar desse pormenor. E, em resposta ao que ela começou a interpretar como provocação, Ítalo disse:

- Ah, aproveite, Selmas, e verifique se os olhos dela ainda estão verdes.

- NÃO VOU REPARAR NOS OLHOS DE NINGUÉM NÃO!  BASTA: é chegar e entregar na portaria.

Bem feito, pensou, quem mandou pegar pesado no elogio. Encolheu-se o “gostosão”, no pensar dela, e tentou amenizar:

- Tanto tempo faz, Selmas!

- Você, como que atendendo a capricho de entojada. E ainda quer me usar! Essa não, meu caro! Não mesmo!

- Você está ligada que ela foi um ano antes de você, né?

- Também não quero ouvir novamente essa história de presentinho no Dia dos Namorados, que a coleguinha veio se desculpar e blá blá blá.

Deixou que falasse. Que derramassem essas frescurazinhas dos tempos de moça. Era necessário permitir que a coisa se desenvolvesse sem que ela desse entrada de ar. Quase! A encomenda, que era uma retribuição ao gesto de 1979, chegou ao seu destino pela imagem postada por Selmas, mostrando o pau que matou a cobra, no pensar dela, ao fazer a entrega das frutas em mãos de Glória.

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