Peleja de merda
A peleja entre o Xerife e o menino Jânio,
um bandido de golpes certeiros, ocorreu ao fim da tarde na Lagoa do Mocambo,
após o término da brincadeira proposta por Ítalo.
Os moleques caminhavam por ali bestando, até que avistaram em meio ao matagal uma palhoça abandonada, que serviria de
cadeia, onde colocar os bandidos. Chamaria Armando para figurar como Xerife,
que ele, Ítalo, o auxiliaria, combinado com os outros quatro meninos, que se espalhariam
para as trincheiras feito bandidos. Depois de umas buscas, esconde-escondes, iriam
ser caçados e presos. Não tardou para que todos fossem localizados e, com ordem
de prisão, seguissem para a cabana, onde só se ouvia o movimento dos patos e
marrecos na água, o cantarolar dos pássaros e o resto de silêncio de fim de
tarde.
Presos ao final, não tinham mais o que
fazer. Dava por encerrado o divertimento? Era o aconselhável, mas enquanto
pensavam, Ítalo se afastava para dar uma cagada na tranquilidade, agachado na
sombra de um pé-de-madeira-nova. Dali assuntava na conversa do Xerife:
- O que vamos fazer com esses bandidos,
Ítalo? Soltar?
Ítalo estava apreciando sua obra com um
pauzinho lambuzado e teve o estalo:
- Vou ficar ao lado da porta que você vai
abrir e chamar pelo nome de cada um.
Armando entendeu o gracejo, mas sem medir
a consequência de um desastre. E ele, com autoridade, chamava pelo apelido.
Assim, quando surgiu a ideia macabra de soltar os presos um a um, marcando-os com um pauzinho manchado de merda, Jânio, em vez de aceitar, negaceou o corpo, pegando nele, na boca. Este então se preparou para a briga e, como questão de honra, atacou Armando.
Sempre que passava por ali durante um passeio no final do expediente, admirava a beleza do lugar e um quadro no calçadão da lagoa onde ainda pareciam estar os dois meninos, frente a frente, congelados no momento, prontos para a peleja.
Armando como uma muralha e Jânio aguardando o sinal do gongo, com mosquitos circulando ao redor do ponto sujo de um queixo levantado em desafio.
Antes de escurecer por completo, o açoite do vento parecia dizer:
- Como é que é, sai ou não sai?
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