sábado, 26 de julho de 2014

Dete

Tinha uma covinha no rosto, acentuada quando sorria, mas quase não sorria, umas toras de pernas e o cabelo sem cuidado, sem contar os seios que se presumiam bonitos. Imagine agora o bumbum. Era triste Dete. Tinha seus motivos, conforme soube depois.

- Dete, esqueça tudo isso que você me falou sobre seu ex, procure um salão de beleza e faça seu cabelo, passe a usar umas roupas bonitas e, principalmente, mantenha um sorriso sempre, em todos seus atos; o amanhecer é um sorriso que Deus nos proporciona: a vida é grande.

Quando dias depois Dete voltou ao meu escritório, cabelo com estilo, roupa no capricho, a covinha do rosto estava acentuada. No lembrar do poema de Manuel Bandeira, céus e terra se estremeceram.

sábado, 19 de julho de 2014

JOÃO UBALDO RIBEIRO



Quando era estudante de Direito eu estudava Direito Administrativo nuns livros capa preta em dois volumes de Manuel Ribeiro. Descobri depois pelas crônicas do Jornal da Bahia assinadas por João Ubaldo Ribeiro, que eu saboreava semanalmente, que ele era filho do mestre. Sua maior obra, para mim, foi, sem dúvida, Sargento Getúlio, mas me deliciava com sua crônicas. Vá com Deus, João, você é destaque maior nas letras – um imortal. 

sábado, 12 de julho de 2014

COPA: Brasil mete 1 a 7 na Alemanha

Essa é a manchete principal que só saiu no meu jornal particular, porque sou doente por futebol do Brasil. Mas confesso que quanto a isso, ultimamente, tenho me alimentado mais de vídeos pela internet.

Um dia minha mulher molhava as plantas, largou a mangueira no quintal e veio até meu escritório, que fica no fundo, por causa dos meus gritos:

- Que grito é esse? O que aconteceu?

Dei-lhe um abraço de comemoração.

- Gerson desempatou o jogo da final contra a Itália.

Ela voltou para seus afazeres fazendo sinal com o dedo próximo à cabeça como que a dizer que eu estava pirado. Eu assistia ao jogo na íntegra (pela enésima vez), e, cá para nós, mulher não entende dessas coisas. O jogo estava num empate que se arrastava até que Gerson, que só tinha a perna esquerda mas que era de ouro, fez aquele gol. Quando Carlos Alberto fez o quarto gol e eu gritei novamente, aí ela não deu mais importância, como se eu fosse caso perdido.


sexta-feira, 4 de julho de 2014


NEYMAR JR

Neymar Jr
você ficou fora da Copa do Mundo-2014
acabo de saber
mas a Copa do Mundo-2014 é que te perdeu

terça-feira, 1 de julho de 2014


Flor do algodoal


em meio ao algodoal
a flor
tênue tom
que se despreza
mas que comigo vai
como uma manhã
imperecível
esta lembrança tua
nua
na cama
10.02.2013

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O mundo não se acabou



1.
o mundo não se acabou
as manhãs respingam em chuva
cantada hoje e outrora
discretos frutos em desvendados véus
as bombas atômicas sobre mim
não surtem efeito
se esgueiram
diante de minha Luz

2.
por quê o mundo chora
se há sorriso no amanhecer?

3.
há nos céus bordados de estrelas
que se despedem
para o Sol se impor

4.
por quê o mundo chora
se há sorriso no amanhecer?

sábado, 31 de maio de 2014

MARIANO



Seu Albertino, vizinho, pegou um; Seu Pedro Rocha pegou outro; vovozinha, que morava ao lado, ficou com uma mocinha,  e mãe resolveu apanhar um dos mais novos, Mariano. Os pais deles viviam só na irrealidade das coisas, tomando suas cachaças e cantando, com essa filharada.

Todos, grosso modo, foram bem conduzidos na vida. Mas eu quero falar de Mariano.

Mãe tinha um loja de tecidos e pedalava na máquina de costura fazendo roupas. A gente estava brincando e lá vinha mãe gritando por Mariano, para que experimentasse um calção que ela tinha feito. Mariano, um pouco mais velho que eu, não sabia ler mas escrevia, na verdade desenhava, pois que não sabia o sentido das palavras. E o principal que descobri nele foi a voz.

A cidade tinha um serviço de alto-falante, e Mariano, que tinha o hábito de ficar a morder a fralda da camisa que mãe fazia para ele, entre uma mordida e outra, cantava imitando Tim Maia, que era o som que rolava então.

Ele descobriu que eu gostava disso e aí começou a tirar onda de difícil. Eu gosto tanto de música que passei a pagar doce na venda ao lado de casa para Mariano. O verdadeiro Tim Maia perdia para ele, Mariano.