sexta-feira, 9 de abril de 2021
quarta-feira, 7 de abril de 2021
SEGREDO
Entre brincadeira e falar sério, a
propósito de algum lance dessa trivialidade, ela falou em lhe dar, dar mesmo, e que podia
escolher o local escrevendo com o dedo indicador sobre a farinha de trigo
polvilhada na banca da cozinha.
Escreveu, na esperteza que julgava ter de um
menino de onze anos de idade, mais que ligeiro:
-
No “corredorzinho” (que havia lá entre as casas dela e dele).
-
Que corredorzinho? quis ela saber.
Ele indicou com uma olhar além da
janela.
- Na cama, seu bobo... escreveu ela, segura nos seus dezessete anos, que só faltavam saltar do corpo.
E
assim foi, quase toda tarde, depois de deixar pronta para o fermento a massa do
bolo. Pegava uma moeda e lhe entregava dizendo:
_
Então vai ali em seu João e compra dois cigarros soltos, de marca Mistura Fina, pra mim, que estou te esperando no quarto.
Logo estava de volta com os cigarros, ele,
letárgico, ela, estirada na cama, acendia um e entre chupadas
apressadas no cigarro:
- Você não vai contar pra
ninguém não. Se eu sonhar que você contou pra alguém eu te mato, viu? dizia e
então completava num baixo tom de voz: - Vem!
Fumava, que ele não sabia que o seu gemido, nessa confusão, vinha dos tragos do cigarro ou o que era. Vez por outra gritava.
Gritava baixinho, para
disfarçar, só podia.
segunda-feira, 29 de março de 2021
PRONTA PARA VIAGEM
Não, não se dera nessa
empreitada porque nunca entendera isso dessa forma. Ensaio e treino apenas, na
espera do grande momento. Mas o estalo ecoou e agora? Tudo que acumulara, por
necessidade ou por capricho, ia ter que pacientemente se desgrudar disso? Como
ficaria a rotina? A começar do café da manhã, de tenra manhã, com o pai esquentando
o carro na garagem, o rádio do vizinho ligado no programa da Rádio
Inconfidência - Delmário é o Espetáculo. Os
dias se escoando sem fazer alarde nenhum mas com a certeza do ar de renovação
dos mesmos atos. Ou melhor, a dúvida? - tentativa de conhecimento dos segredos
da imensidão universal. Difícil encontrar num universo de pontos de luz a sua
luz de guia ao almejado terreno.
Contudo, há pessoas que se
lançam em mergulho e outras que ensaiam apenas. Há pessoas que jogam para valer
e outras que escondem o jogo. Certamente era uma dessas de ensaio e sonhos. Não
conhecia nenhum jogo para disfarçar ou para jogar para valer e nem apostava no
escuro, sem certeza do retorno às almofadas
do aconchego. Mormente quando se encontra em certa fase da vida e nada ainda
resolvido, como dizia o poeta. Seria uma outra vida pós divórcio, com coisas
resolvidas e algumas pendências? Filhos encaminhados na vida e seus pais
precisando naturalmente de amparo assistencial, que descobrira agora estar
confortavelmente ao seu alcance. Saboreou com sorriso esse sentimento que lhe adveio
como uma brisa de renovação da manhã.
Tinha que tomar atitude. Foi
com esse raciocínio que se aproximou da embarcação e, tal como um colibri do
jardim de sua casa, determinou seu espaço sideral e voou mundo afora, para
estar no mesmo ponto em que firmara equilíbrio de vôo anterior, cuja existência,
como uma aprendizagem, haveria que doravante considerar.
Março de 2021
quarta-feira, 17 de março de 2021
3. O casamento
Para o casamento de sua
filha, Osvaldo Dantas convidou para padrinhos o professor Francisco Pereira da
Silva e esposa Isabel. Ninguém melhor
que o professor, uma das pessoas mais ilustres por essas paragens e um dos
responsáveis pela formação da aluna Eunides. Antes, porém, os preparativos do
casamento. Que deve ser contado nos mínimos detalhes. Vestido de noiva feito por costureira de Guanambi,
filha de Lolozinho, era só um detalhe.
Mais outros detalhes também
cercavam esse casamento. Do balcão da loja de seu pai Osvaldo, Nidinha podia
ver a praça. Pouco antes, sua atenção se
voltou para os movimentos de um moço descalços labutando com um animal. “Quem
seria? Além do mais, descalços!” Ficou encabulada com aquilo, até que descobriu
tratar-se do filho de seu Artur Prado e de Dona Ana. Amansava um burro. Era
caprichoso o menino. Mostrava-se pelo menos. Logo estaria entrando em sua vida,
para mergulhar num companheirismo de corpo e alma, que perduraria.
Por enquanto tratava de diálogo
entre noivos, que se iniciava. Chegou até dizer da impossibilidade de se casar
por agora, por não reunir condições:
- Não posso falar de
casamento por agora não, Nide, pois, como se vê, meu lote para construir casa
mal comecei a construção, disse
apontando o monte de pedras despejadas no local.
- Meu pai falou, Aleci, que
você não precisa se preocupar com isso agora não, que a gente pode ficar com
eles por uns tempos.
Lembrou que o futuro sogro falou para não se preocupar com
casa, que ele podia ficar uns dois meses morando com os sogros. E ele, com a
mãe doente, sem poder decidir.
- Acho que vou a Belo
Horizonte levar minha mãe pra fazer uns exames e volto para o casamento.
Mas o que fez mesmo Aleci
decidir? Segundo alguns, teria sido em razão de haver tomado café numa mesma
xícara que a noiva, sendo flagrado pelo paparazzo do tio Silvino Martins, que
mais que ligeiro aconselhou seu compadre Osvaldo:
- Tem que pegar a moça e o
menino, compadre, e marcar logo esse casamento: já estão tomando café na mesma
xícara.
Casamenteiro, que queria esse
trato para o sobrinho Joaquim Neves. Ou foi o episódio que se deu em Belo Horizonte?
No episódio de BH, ele, com
a mãe doente, sem poder de decisão, sob o fogo juvenil de um animal indomável, iniciou-se
numa aventura que poderia resultar numa quebra de compromisso, ao caminhar para
os trilhos de um arrumação à mineira,
quando sua mãe Ana, conhecendo sua cria, ainda que estando enferma, avisou a
filha da dona da pensão, que logo se entusiasmara, servindo ao jovem Aleci um
copo de toddy antes de dormir, todos os dias, que ele era noivo na Bahia. A
moça por nome Iêda nunca mais esperou Aleci, com o copo de toddy, nem Aleci
precisou esconder mais a aliança. Vieram então de volta após uns exames.
Dona Etelvina preparou um
quarto para a mãe do noivo em sua casa, a que Ana compareceu, vestida para
ocasião, ainda que adoentada, sob protestos da filha mais velha Zeni Prado, com quem travou uma discussão:
- Ora, moça, Aleci tem mais
cuidado com a mãe, que trata ela que nem uma filha sua. Não cabe essa
preocupação não, falou firme dona Etelvina, como se desse um safanão geral, pondo
um basta no assunto, para tristeza de Zeni, que no outro dia cedo veio para
buscar a mãe.
Então chegou o dia 26 de
julho de 1957, quando se casaram na igrejinha velha e no civil, na sala de
visita de sua casa, que serviu para o baile, com os dois sanfoneiros de fama da
região, e foram felizes para sempre, poder-se-ia acrescentar, malgrados os
percalços encontrados pela frente. Como nesse mesmo dia, que ao noivo deu de querer
que a festa se acabasse logo, que todo mundo se retirasse, para finalmente ter
refreada sua tão sonhada expectativa por conta da mulher andar naqueles dias com
seus segredos de moça e mulher.
sábado, 6 de fevereiro de 2021
A Vez
que Roberto Carlos esteve em Candiba
Meteórica, poderia dizer.
Sobre a passagem de Roberto Carlos por Candiba. Ano em que também o homem
pisaria na lua. Período de muitos acontecimentos, que fazia parecer culminar
com a percepção de um Brasil tricampeão no Mèxico-70. Mas não vamos aqui
adiantar o rasgo de fogos de artifício que tal episódio significou em nossas
vidas. Temos que colocar os pés no chão... ou na lua, melhor dizendo. Nada de
tão estranho assim a passagem de Roberto Carlos por essas plagas. Somado a
isso, eu me iniciava na leitura e naquela cartilha velha e ensebada conseguira
ultrapassar a lição da dona Baratinha, como alívio:
- Eu também passei da
Baratinha, disse Roque, um coleguinha de outra turma, quando brincávamos à
sombra do pé de fícus na frente de casa.
Eu e Roberto Carlos. Já nos conhecíamos de uns
tampos atrás, quando meu tio Eujácio, a pedido, cantou para minha mãe Quero
que você me aqueça neste inverno. Numa
manhã de sol de infância, com menino entretido no quintal, só assuntando.
Agora que começava a ler,
fazia essa descoberta digna de paraíso, quando achei nas coisas de tia Lô um
caderninho de arame com caligrafia de caneta tinteiro. De uso adulto, quem tinha domínio. Dentro, em
letras graúdas e redondas, estavam as canções de Roberto Carlos, exalando nas
tintas os mais puros sentimentos. Num simples e diferente embalo.
E de Roberto Carlos eu
procurava entender. Acompanhava o Rei e tudo o mais. Ano anterior, por exemplo,
eu e minha irmã mais velha, Nora Nei, passamos perto da loja de dona Nida, na
praça da Matriz, onde aconteciam as novidades. Lugar para receber até avião
quanto mais... Era vendido lá o anel de casamento de Roberto e Nice, com uma
capinha de asa de besouro no detalhe.
- Deve ser o toque especial
que o diferenciava dos demais, pensei rápido comigo.
-
Uma maravilha! - experimentou no dedo minha irmã, que parecia com a noiva do
Rei, no estender o bracinho e dar azo à imaginação.
Brincava de cantor de rádio,
cantando escondido, por detrás de
bobinas de papel de embrulho da loja. Alguém fingia ligar o rádio, para
que eu cantasse uma canção incrementada. Me acompanhavam na brincadeira ora meu
tio Dedê (mais novo), ora minha irmã
caçula, Marta. Passávamos nossas as tardes de infância em meio a caixas e
mercadorias, com cheiro gostoso de tecidos que fazia sonhar.
Daqui pra frente
Tudo vai ser diferente
Você tem que aprender a
ser gente
Que fim levou o caderno que
até hoje tenho tesão por ele? Por certo fora retomado pela dona, que nada
comentou sobre o assunto, apenas sobre a caneta tinteiro, que tive que devolver
a tia Lô, sem autoridade nenhuma:
- Esses cornos pegaram minha
caneta. Me dê aí, Colinha!
Foi então que surgiu a
conversa de Roberto Carlos em Candiba. Colhi essa novidade e não quis mais
saber de nenhum desmentido. O menino tinha seus segredos. Fiquei imaginando sua
chegada triunfal naquela pracinha, que era prenhe de novidades do tipo.
- Roberto Carlos em Candiba!
Deve vir no sábado que vem, dizia-se.
No vocabulário em voga, salvei
dentro de meu arquivo natural e fiquei à espreita, pelas esquinas bispando, até
que num dia de sábado, carros chegando na praça, olhei e... gulpe! Não podia
deixar escapulir:
- Olhe ele ali, gritei para
Dedê, que era pequeno demais para me acompanhar nessa empreita de fã.
Acabei seguindo um carinha cabeludo
vestindo meio a gosto mas tosco - um Roberto Carlos? Pirei feito adolescente,
sem o saber. Havia alguns poucos RCs espalhados por ali, inda mais em dia de
feira na cidade; não com carros bonitos, como aquele opala SS verde, que passou
cinematograficamente e o apanhou, sob tímidos protestos meus, que gritei: Oh Roberto!
Só
Dedê presenciou minha mancada, mas, como já disse, ele era pequeno para poder
reparar nessas coisas e nunca poderá me desmentir desse sonho que tive.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
O menino jacaré
O menino estava com a irmã mais velha admirando
um brinquedo de outro menino, que posava seguro com um carrinho de madeira todo
transado, cabine, carroceria, com paralamas e até lameiras (um brinco!),
empurrado por um cabo de vassoura enroscado em parafuso num barbante, como algo
de sonho inalcançável por gente modesta como ele.
Como inalcançável? Tinha lá em casa
também algo muito valioso, que fizera com inteligência e muito esmero. Era o
que, de imediato, se podia dar em rolo numa empolgante comparação. E então o
menino do carrinho rompeu, como um homem de negócios na feira, e ponderou na
resposta:
- Depende. Em quê?
- Numa casinha legal.
-
Pega lá para ver.
Aí que estava: não podia, e o menino,
que tinha se inclinado para um possível crédito ao seu posicionamento, voltara a
ser o implacável negociante e ia negar, o que fez subir a luz de alerta do cúmulo
da pretensão, que o forçou a dar uma explicação:
- Não pode, fica lá no meu quintal...
é bonitinha. Você não quer ir lá para a gente ver?
- Não. Pensei que fosse de... papelão, algo assim...
Esse menino sonhador era eu, no meu
primeiro negócio, o que principiava como uma amostra do que seria eu dali para
frente, sempre em choque de realidades, vida afora, com pretensão desse tipo.
Cheguei de volta em casa e me pus a
apreciar a casinha feita com barro da água que caia da cisterna próxima, à
sombra de um pé de manga, com uma estradinha feita com cerca de gravetos dos
paus de lenha amontoada acolá, com o curral ao lado da casinha, cheio de gado
de osso, com um pasto verdinho, nascido por igual do arroz em casca; lama,
aguadas, e era um brinquedo em que se viajava pelo mundo o dia inteiro, com os
carrinhos de plástico, enquanto permitia a luz ainda tênue do sol da manhã ou
da tarde. O caminhãozinho do menino também era um encanto, mas era mais para
passear pelas ruas e sua mãe proibia arredar-se do quintal.
Fico a pensar desse gosto meu pelo singelo. Desde pequenas coisas a outras de maiores considerações. Quando na adolescência tinha-se que escolher a namorada entre duas irmãs, eu fui preferir a segunda, menos em disputa... A mais velha, muito bonita (era demais), mandava recados para mim, e eu, em resposta, mandei combinar com a mais nova, feiosa e que não fazia parte da história.
Como, por exemplo, a história do cinto, mais emblemático, que comprei na venda de Iris de Possidônio, após muito tempo de paquera, tanto que pedi a minha mãe, que acabou me chamando para uma espécie de prestação de contas, para ver onde e como eu gastei o dinheiro, após gritar “deixe me ver esse cinto aqui, menino”:
- Hum-hum-hum, cinto jacaré..., completou num muxoxo, e até hoje não sei o que significa “jacaré”.
=
sexta-feira, 11 de dezembro de 2020
FESTA DE FORMATURA DO 5º. ANO PRIMÁRIO DA ESCOLA RURAL MISTA DE CANDIBA EM 1956 ALUNA: EUNIDES ALVES PEREIRA PROF. FRANCISCO PEREIRA DA SILVA
1. Nessa viagem com mãe, vou dar cobertura a formatura de quinto ano primário dela, Nidinha, Eunides Alves Pereira. O ponto de referência do roteiro é a sede da Escola Rural Mista em Candiba, município de Guanambi, Bahia, no final da ladeira da atual Rua Presidente Vargas, em novembro de 1956. Era ela uma adolescente de 16 anos, morena, dos escuros cabelos compridos, que desciam até a cintura, fina (58 centímetros), diga-se de passagem, e o sorriso de uma menina atenciosa com o mundo, botando apelidos grudentos nos irmãos, em brincadeiras, porque era assim que vivia naqueles anos cinqüenta, tal como uma ninfa florescendo juntamente com a Vila, para onde a família se mudara proveniente da Fazenda Barreirinho, e ali, na praça da Igreja, se estabelecera, com uma loja de tecidos ao lado da casa.
Um quadro
convencional: o pai, Osvaldo Dantas, no balcão, quando não estava na roça, a
mãe Etelvina, que o substituía por vezes, cuidando das coisas e dos
meninos lá para dentro. Adaptara-se bem com essa mudança, porque antes tivera
como professora dona Dozinha (professora Theodosina Batista), com quem
aprendera na roça as primeiras letras. Agora, na Vila, com o professor
Francisco, com o quem o pai tivera uma conversa séria antes de proceder à sua
matricula. Sobre como iria receber a menina e o que iria ensinar, assegurando o
mestre que ela, em aperto, formaria no fim do ano com a turma da quinta série,
e daí poderia seguir nos estudos em Caetité:
“Lá nós temos
parentes, professor”, planejava Osvaldo Dantas, “é que agora, professor, sem
terminar os estudos, não tenho ideia de casar filha minha não”, concluía com ar
de preocupado.
Sempre em afinação
com a didática do professor, que lhe socorria, Nidinha sonhava com influência
do pai, que muito falava desses parentes que deixara em Caetité.
Candiba era aquela
pracinha da Igreja, as casas em volta e a serra ao fundo como uma distante
fortaleza, feito um abraço reservado para vida futura. O que podia esperar de
um dia sempre igual era enxergar naquele vento que agitava a vegetação e
sacudia os ares a novidades de uma nova era, que se erguia a partir dali, da
Vila, como estreia da jovem Eunides Alves Pereira, futura companheira de Aleci
da Silva Prado, que também se fez presente no evento. Afinal, já tinham eles um
prévio conhecimento que sinalizava um promissor namoro. Com essas conjecturas,
achava-se ela sentada com os colegas, no meio da turma, com sua saia de
preguinhas azul marinho (a mãe teve que fazer às pressas, pois o pai não queria
saia justa), blusa de um rosa claro, com mangas de três quarto, que se
descobria decente. Para abrir os trabalhos, em solenidade, discursou o
professor Francisco Pereira da Silva, grande aquisição do então distrito de Candiba,
nova denominação do antigo Mocambo, a que ainda não se acostumara a população
mais idosa. Depois, acompanhando a chamada por ordem alfabética, Nidinha
ergueu-se, magrinha, arrumada, com os seus cabelos que lembravam a graúna
alencariana e, empertidigada, caminhou até o professor para receber o diploma,
sob aplauso geral e abraço do pai e da mãe, que, a um canto, carregava uma neném de colo, sua irmãzinha
Eneni.
Então já era o baile?
Ao som da Safona de Jacob. Mas quem esteve dançando com todo brilho foi o jovem
Aleci, que desistira da Escola do professor Francisco no segundo ano, num tempo
remoto, e estava agora de volta de S. Paulo, com todo garbo que lhe competia
como um soldado que andara servindo no Exército brasileiro, turma de 55. Só
que, a considerar, tinha ele que estar dançando era com ela, Nidinha e não com
sua colega Dolores, que, percebia, vinha assediando o jovem desde que voltara
de S. Paulo.
“Ela já tem umas
cabeças de gado. Uma ajuda boa, pra começo, não acha?”, segredava-lhe em
pergunta o entusiasmado Benjamim, tio da moça Dolores.
Enquanto assediava-se
de um a lado o jovem Aleci, um pesado clima parecia tombar
sobre Nidinha de outro, com as engendradas conversas de Dolores,
para ela ir de companheira até as máquinas (usina de algodão) de Joaquim
Marques e ver lá um moço loiro, bonito... de Minas... acrescentava como se
fosse um prêmio de boa novidade. Mais por companheirismo que por
interesse, pois que aguardava Aleci, com quem mantinha um flerte (do
conhecimento do seu pai, diante de quem se apresentou) acabou cedendo ao
malfadado convite. Logo, para surpresa sua, o moço acabou se engraçando foi com
ela, Nidinha, a ponto de, na sua apresentação, lhe estender em oferecimento uma
maçã, que foi obrigado a aceitar, e, para completar a história, comer. Tudo
isso como prato cheio, para contar a Aleci, que lhe fez despertar para uma atitude machista só
refreada pela bronca que levou da mãe, dona Ana, quando com ela fora
queixar-se:
- Tome
Vergonha, rapaz. Você tem que conversar é com Nidinha, que é moça para você se
casar, não é com esse “pescoço de cágado” não, falou insinuando um sestro de
superioridade que consigo carregava a moça.
Enquanto consolava
saber agora da conversa de dona Ana com Aleci, que terminara por ele acreditar
nela, já lhe consolara mais ainda as palavras recebidas de sua mãe Etelvina,
quando o mundo para ela teve fim ao ser carregada do baile da casa de seus tios
por seu pai, que notou sua ausência e alguém maldosamente lhe dera notícia sua
no baile (ela dançava uma moda com João de Antonhezinha):
- Não chore não minha
filha, que seu pai gosta de você. Ele quer o melhor.
E olhe que a mãe era
considerada uma realista e quase fria de gestos, como esse de solidariedade a
sua filha mais velha, chorosa.
Esperou e ele veio. Com
todas as cores de seu sonho. E dançaram ao som da safona de Jacob, naquele dia
de formatura de quinto ano primário, em que se considerava pronta para
prosseguir nos estudos ou aceitar a proposta de Aleci, de conversa marcada com
seu pai, sobre o casamento para o ano seguinte, pondo fim ao assédio da colega
Dolores e de seus familiares.