domingo, 23 de junho de 2013

Geração banana

Conto da era FHC


Geração banana



1.

Acabo de saber da prisão de Toledo. Pegou todos nós como na foto dos últimos dias de Pompéia. Um vulcão que tínhamos no quintal de casa, mas que se sabia sine die. Agora essa sensação de que podíamos ter feito algo. Irmanados. A gente sempre com os probleminhas do próprio umbigo. Tivesse reparado bem, como então se vê, o problema de Toledo não era o problema de Toledo. Era nosso. Toledo é que foi homem, foi macho. Nós sim é que nos tornamos uns bananas. Aliás, uma geração de bananas. Tenho vontade de dizer tudo isso a Toledo. Adiantaria alguma coisa? Ele está preso. No fundo todo mundo com inveja da besteira que Toledo fez. Besteira não. Olhe só como somos hipócritas. Se bem que é isso mesmo – a hipocrisia é uma das características do homem banana.

Depois é que fui juntando aqui e acolá do que fez Toledo nesses últimos tempos e dei com essa descoberta tardia. Ele esteve com quase todos da turma. Ele nos procurou, afinal de contas.

2.

Vejo agora na parede a foto do nosso time da época de ginásio. Fico imaginando o que éramos então e o que hoje somos. Toledo, magrinho, cabeludo, como quase todo mundo naquela década de 70. Ele coma fita na testa imitando Douglas do Bahia, que ele tinha visto numa revista Placar lá na alfaiataria de seu Zequinha. Jogava de ponta. Drible e cruzamento. Meio ciscador mas bonzinho de bola. E na escola era um dos primeiros. Em tudo. Até nas malandragens. Não era feito como Miguel, que aparece ao lado, esforçado, todo direitinho, filho de mamãe, desses que carregam os livros para os professores e etc. Foi ser o que na vida? Professor de História, coitado. Na casa dos quarenta e fodido. Miguelão, que já é avô, entrou para o banco. Hoje é gerente. Está bem. Os outros, quase todos, também: um médico, outro engenheiro e outros bem sucedidos no comércio. Só o Toledo.

O que ganhava como professor mal dava para os livros. Certa feita, com muito cuidado para não ofendê-lo, Renato tentou trazê-lo para o comércio. Ganharia muito mais.

- Muito agradecido, companheiro. Não sei viver mais fora de uma sala de aula.

E não sabia mesmo: vivia para os livros e para a escola. Um tipo. Bem que era bonito vê-lo rodeado de adolescentes, passando conhecimentos, dizendo as coisas. O que não se sabia era desse seu radicalismo agravado repentinamente.

3.

Que custava lhe ter dado um pouco de atenção. Gente, ninguém deu ouvido ao Toledo. O bananismo foi geral. Agora eu fico olhando essa foto em que aparece Toledo menino, ginasiano, tomando meu pilequinho burguês de final de expediente e chorando. Eu pergunto: isso vai resolver alguma coisa? Vai? Pode resolver para mim, para me recuperar do bananismo, mas e Toledo? Sacanagem até na dor – me servir de Toledo para curar dos meus males. Por que não lhe fui camarada quando me procurou? Eu só não. Todo resto da turma: Miguel, Renato, João, Gabriel, Besourão e Gonçalves. Um dia que nos encontramos na sauna do clube a conversa foi que Toledo andava meio fraco da cabeça. Fraco porra nenhuma. Fracos estamos nós.

- Ele disse que a contribuição da nossa geração é zero – lembrou Renato.

- Disse também que nada podemos esperar da geração seguinte se não fizermos algo agora – completou Miguelão.

- Ele entende que essa geração de velhos que está no poder é de uma perversidade tamanha e não pensa nas outras gerações. Eu perguntei a ele: “Ô Toledo, mas como eles podem se perpetuar?...”

- Que que ele respondeu? perguntou Gonçalves.

- Ah, ele falou um bocado de coisas. Disse, por exemplo, que nós vamos deixando pelo chão todo o nosso ideal humano à medida que pisamos o tape do poder.

- Feito um círculo vicioso – arrematou Renato.

4.

A televisão agora vai encher o tempo mostrando as mesmas cenas. Primeiro as imagens de como se deu a prisão. Depois um pouco sobre Toledo, sua cidade, o colégio onde lecionava, entrevista com alunos, com o dono do barzinho que ele frequentava, essas baboseiras. Quanto o repórter conclui a matéria vai dando um nó na garganta e a gente não tem como segurar. Deveriam explorar o lado sério, não a maluquice em si, que esta era mero pretexto para o que objetivava  Toledo, se bem o conheço. Muitos captaram sua mensagem, mas eu, você, você, você, não os outros, que a mídia tenta controlar tudo. De qualquer sorte, que houve um certo abalo houve. Renato me liga para dizer que a coisa já anda pela internet afora.

- Não sei com quem eles arrumaram, mas dizem que até aquelas poesias que ele andava escrevendo para um livro que nunca publicava aparecem na internet.

Pelo mesmo isso. Já é um começo. Toledo não vai achar de todo inútil o que fez. Falava muito dessa poesia. Da força e do poder das palavras combinadas entre si. Só que ninguém lia poesia senão pessoas como o próprio Toledo.

A irmã dele, Norma, professora do mesmo colégio, é uma das entrevistadas. Diz mais ou menos o que a gente já sabia, mas acrescenta que Toledo vinha acumulando uma serie de aborrecimentos e que a qualquer momento ele chegaria a uma explosão com a que se viu.

Passou mal quando soube de algumas privatizações, dinheiro público cobrindo rombo de bancos privados e empresários cada vez mais ricos. Sofreu com os escândalos da compra de voto no Congresso Nacional, sem contar com as questões antigas que ele carrega, como o da Educação no Brasil.

- Ele chorava quando lia os jornais.

O repórter se apressa:

- O que fazia ele chorar por exemplo?

A câmera focaliza Norma mais em cheio. Emocionada, contida. O repórter renova a pergunta:

- A senhora disse que ele chorava quando lia os jornais. O que o fazia chorar em especial?


- Isso: todas as safadezas que estão fazendo com o Brasil. 

sábado, 15 de junho de 2013

A vez que me tornei herói

A vez que me tornei herói


Num dos seus encantados versos, o poeta Manoel de Barros lembra que o quintal de sua infância é maior que o mundo. Sempre trouxe comigo entendimento parecido, principalmente quando às vezes passo próximo a nossa antiga casa, com o seu minúsculo espaço, o mesmo muro, o mesmo pé de manga, talvez ali dentro o mesmo menino a brincar na sombra, como se tudo resumisse àquele universo. Da alma criança é que brota a grandeza das coisas, que há de marcar como tinta indelével vida afora.

Feita esta, digamos assim, breve exposição de motivo, passemos a relatar a vez que me tornei herói para o resto da vida. E venho procurando manter como posso esse título. Naquela época, a antena parabólica, objeto quase inacessível, podia ser adquirida através de consórcio entre amigos. Assim é que, contemplado, consegui instalar uma em minha residência. Maravilha. Não propriamente para mim, que não sou muito de televisão, mas para a mulher noveleira e os baixinhos da Xuxa.

No dizer do poeta Castro Alves, “passaram-se anos, séculos de delírios, prazeres divinais, gozos do empíreo, mas um dia volvia aos lares meus”, foi quando surgiu a dor-de-cabeça da tal “manutenção”. À saída para o trabalho, a recomendação da mulher:

- Veja se arruma um técnico para consertar a imagem da televisão, que tá cheio de chuvisco, e os meninos reclamam na hora do desenho animado. Não esqueça.

Com tanta coisa para fazer, ia eu lá me lembrar de achar o tal técnico?! Acabava sempre voltando para casa sem resolver o problema, para depois receber outro sermão. Até que um dia, não mais aguentando essa cantilena, me acudiu a imagem de um colega de infância, que vivia a cutucar aparelhos de rádio e que por ultimo, segundo informação, era um competente especialista em Guanambi, onde já não era mais conhecido por Juarez de Dona Judite mas sim Juarez Soares. Descobri seu telefone, bati o fio, e daí a minutos - olhe Juarez de Dona Judite (pois assim sempre o tratei; coisa de menino) chegando num fiatizinho branco. Quis lhe mostrar o aparelho de TV na sala mas ele só fez me pedir uma cadeira e uma varinha, e do lado de fora mesmo se ajeitou, cutucando num copinho que havia na parabólica e derrubando na grama um inchu de maribondo.

-  Pode ligar o aparelho.

Quando liguei a TV, as crianças ansiosas, foi como se, após tempos acostumados com a imagem em chuvisco, encontrasse uma tela de cinema. Juarez de Dona Judite, que agora era Juarez Soares, me cobrou caro e se despediu. O caro, no entanto, se tornou barato diante da felicidade dos meninos e da mulher noveleira.

Calma. Até aí não se pode falar que nascia um herói, pois que mera obrigação de chefe de família. O herói apenas iniciava a sua gestação. Tornei-me herói no dia em que fui até a casa do meu Tio Dedê  e ouvi a sua queixa:

- Moço, a mulher tá para me matar por causa da imagem da TV e eu já não sei mais para onde rodar essa antena parabólica para encontrar a posição certa até que deixei no mesmo lugar.

A mulher veio da cozinha:

- Já falei pra ele, Nei, pra chamar um técnico, e ele é teimoso, fica é tentando consertar sem saber.

Lembrei-me de Juarez Soares e, mais que de pressa, falei firme na voz:

- Quem vai consertar essa porra sou eu. Gê, me dê aí uma cadeira e uma varinha.

Logo a mulher prontificou tudo, para o muxoxo de meu tio em meneio negativo de cabeça:

- Oh meu Deus...

Subi na cadeira pensando “se não tiver a casinha de maribondo no copinho da antena eu tou frito, vou ter que improvisar uma das minhas brincadeiras”. Principalmente porque os meninos dele, Filipão e Lalá, me olharam com brilho nos olhos como se eu fosse um salvador da pátria, de forma que não podia falhar.

Não deu outra. Meti a varinha e o inchu de abelha caiu  igual a uma frutinha madura.

- Pode ligar a TV, Gê – ordenei com autoridade.

Só meu tio ainda achava que era uma de minhas palhaçadas costumeiras, quando de lá de dentro vieram os meninos para me abraçar como se eu tivesse feito o gol mais bonito em pleno maracanã.

Virei um herói naquela casa. Venho acompanhando o crescimento dos meus dois primos que, aliás, me tratam por tio. Filipão estuda medicina. Larissa Leão Dantas se prepara para o vestibular e ainda toca violão e canta, como uma Nara Leão, mas artisticamente adotamos apenas Larissa Dantas. Sempre que nos encontramos recebo aquele abraço de herói. Isso nunca vai apagar. Manoel de Barros tem razão. (Um beijo, garotos)



sábado, 8 de junho de 2013

As nuvens



As nuvens


as nuvens de minha terra
são lãs de algodão
ninguém sabe até onde
elas vão
sem dar liga a preço de mercado
elas são
o que são
e enfeitam o céu
flechado de desejos
mas elas não

preferem ser vadias no alto
ao sabor próprio
do destino de nuvens
      
tão bonitinhas
ilustrando a imensidão
a mostrar que a vida
ela é grande
apesar



22.10.2012.

sábado, 1 de junho de 2013

BAR NOGUEI RA



BAR  NOGUEI
RA



O letrista contratado para fazer o serviço na fachada do bar, imaginei assim que deparei com o estabelecimento, devia ter pensado na ocasião “Êta, porra, faltou parede!”, pois o filho da mãe calculara errado o espaço e o corpo das letras, como se pode ver.

- É, mas pelo menos não cometeu erro de separação de sílabas - ponderou um amigo que me acompanhava, diante de minha curiosidade de ali entrar só por conta do nome do bar com aquele letreiro.

O barzinho, que ainda continua ali perto do mercado municipal de Guanambi, ficou por muito tempo, ainda que meio desbotada, com aquela fachada. Sempre que me encontrava naquelas imediações fazia questão de passar em frente, para curtir apenas, até que outro dia divisei o boteco com pintura nova e desenho centralizado das letras com tamanho único – “BAR NOGUEIRA”. Perdi o fascínio. Vai ver mudou de dono e o sacana resolveu fazer sua reforma, queixei-me depois ao mesmo amigo.

- Já que você gosta de apreciar essas coisas, cara, vá lá no boteco de Dori que você vai encontrar uma tabuleta engraçada. Lá serve buchada aos sábados.

Sei lá. Mas tinha essa atração pela forma como o povo em geral se expressa no dia a dia para realizar a comunicação. Ensinava português nessa época e talvez por isso me despertasse para esses detalhes do uso da língua. Um dia pedi que a turma fizesse uma pesquisa na cidade. Então, para estudo e debate, conseguimos anotar coisas como, por exemplo, o aviso que havia num barzinho com mesa de sinuca: “Fincha R$ 0,50”; num açougue, uma cartolina branca com letras desenhadas artisticamente, que o açougueiro, cheio de orgulho, diante do elogio, disse ter sido escrito pela filha: “Não vendemos fiado – Favor não enxista”. Notamos que alguns procuravam mostrar que estavam escrevendo corretamente e aí é que judiavam mesmo da tal gramática. Caso do Café Botafoguense de Dedé. Havia uma tabuleta com o nome das bebidas com os preços correspondentes ao lado: “Penga --- R$ 0,50; Leco de Peque --- R$ 0,50”. Quer dizer, Dedé, numa confusão de ortografia, informava, na verdade, os preços da pinga e do licor de pequi.

Entre nós firmou-se a idéia de que o português é um idioma difícil. Fácil eu sei que não é. Não é à toa que Rui Barbosa travou disputa logo com Carneiro Ribeiro, que tinha sido seu mestre, com relação a redação definitiva do Código Civil de 1916. Imagine. Eu aprendi, no entanto, que o importante é a comunicação. Deixemos, por ora, essa busca sofrida pela língua erudita e vamos às brincadeiras que surgem com o uso que fazemos dela.

Já que me achava nessa onda, fui até o boteco de Dori. Não é que a tal tabuleta era bem trabalhada com letras em entalhes na madeira envernizada! Só que quando li pensei de imediato tratar-se de outro idioma, o espanhol talvez, pois estava grafado assim: “FIADOSOAMANHATA”.

- Ô Dori, que porra é essa que está escrito ali?

- Ué, doutor, não sabe ler? Olhe lá – disse pausadamente: – FIADO SÓ AMANHÃ, TÁ?

Dizem que quando Dori vendeu o ponto para ir para S. Paulo, o comprador fez questão de pagar um pouco a mais para que a tabuleta ficasse no bar. Pelo menos, dessa vez, não aconteceu como no Bar Nogueira, que para essa minha mania acabou perdendo o charme.


domingo, 26 de maio de 2013

A vez que Tatau ficou fraco da cabeça

A vez que Tatau ficou fraco da cabeça


Seu Zé de dona Dezinha espantava as moscas da prateleira. Assim, ao lado, na outra ponta do balcão, próximo à porta que comunicava venda com residência, dona Dezinha, como de costume, carregava os dias entre o pedalar da máquina de costura e a pausa para ir lá dentro espiar as panelas no fogo. Era perto de meio–dia. Foi quando ali apareceu o roceiro Tatau, um tipo alheio e de poucas palavras.  Pediu sabonete Lux, pasta de dente colgate (imagine!), mais outros trens e coisa e tal.

Seu Zé assoviava uma cantiga qualquer, do tempo dele moço, enquanto ia apanhando os produtos para fazer aquele embrulho, que, ali no comércio, era umas das suas marcas registradas.

Entregou a mercadoria ao freguês e, ainda com a boca em formato de assovio, esperou pacientemente pelo dinheiro, cujo valor  indicava com os dedos. Mas Tatau, como se isso não fosse com ele, simplesmente virou-se para sair. E estacou a um passo e meio, já quase à porta de saída, ante o grito de seu Zé:

- Hei!  O pagamento, moço!

Tatau se voltou e, com a maior naturalidade do mundo, sapecou uma resposta que, dali para frente, o deixaria marcado por toda vida:

- Agora!...Pagar como? se eu venho me deitando com sua mulher  sem nunca ter cobrado nada?

O formato de assovio pareceu escapar pela primeira vez da boca de seu Zé, com o que fulminado por uma descarga elétrica. dona Dezinha, que acabava de cortar nos dentes a linha da costura, arregalou tanto os olhos que lhe caíram os óculos.

- Olhe ela aí, pode perguntar se não é verdade.

Por aquela seu Zé não esperava nunca. Vendo que o homem endoidecera de vez, pediu que se retirasse sem precisar pagar a mercadoria.

- Pode ir embora. Vai... vai... vai... não precisa pagar nada não. Vai... vai... - tangia com a mão.

Dona Dezinha, ranzinzazinha que sempre fora, dava socos na própria mão e dizia:

- Não dá, José, não dá... desaforo... desaforo...

- Dou sim, pode ir... vai... vai.

Tatau apertou contra o peito o embrulho e se retirou, todo posudo, sorriso de descaramento, seguido da molecada que, sabe-se lá como, surgira à beira da porta.

A notícia se espalhou rápido pelos quatro cantos da cidade: Tatau tinha ficado doido. Espalhar é modo de dizer, porque adiante, sempre escoltado pela molecada, Tatau entrou na venda de dona Dircinha, desprevenida, e aprontou mais uma. Pediu um pacote de bolachas palito. A mulher atendeu ao pedido e esperou pelo dinheiro. Tatau ia saindo, quando dona Dircinha (se arrependimento matasse!) gritou acenando com os dedos:

- O dinheiro, seu Tatau...

- Agora?! E ocê acha que eu vou pagar? Quantas vezes eu já te peguei na cama sem cobrar um centavo? Hein? Quantas? Esse molecão mesmo, que tá aí no chão se arrastando, é meu. Eu que fiz.

- Meu Deus! Suma já daqui, Satanás! - gritou dona Dircinha com as mãos no rosto.

A cidade fervilhava em comentários.  Como é que podia de uma hora para outra uma pessoa calada, aparentemente séria, como Tatau, enfraquecer por completo da cabeça?

Foi parar na cadeia, é claro. Cá fora a molecada ensaiava um tímido movimento em favor de Tatau. Mas lá dentro o delegado mandou que dessem umas correadas no descarado.

Antes de levantar a correia, o guarda municipal mandou que Tatau tirasse a roupa. Quando Tatau se despiu, o guarda largou a correia no chão e saiu correndo assustado:

- Cê bst’ôme!


Em termos de correia, a de Tatau era um assombro. 

domingo, 19 de maio de 2013

Um homem e seu cachorro


Um homem e seu cachorro


A imagem que temos de um dos nossos maiores filósofos, Arthur Schopenhuer, é ele ao lado do seu inseparável cão. O nosso amigo, no presente episódio, não é nenhum filósofo, mas deu de adotar um cachorro. Não se sabe, porém, se por recomendação do seu terapeuta ou se por receita própria, dado que é pessoa de boas leituras.

Em seu trabalho, ele via ali um colega com problemas conjugais ao telefone, outro tendo que sair às pressas, se desculpando, porque tinha que ir apanhar os meninos na escola, e outros e mais outros nessa mesma esteira de labuta. E ele sem uma mulher que lhe aporrinhasse por telefone, sem menino na escola, sem sequer cobrador à suas costas. Enfim, isto dia a dia, tornando-se uma normalidade de novos tempos, de que ele não fazia parte. A ponto de se lhe desencadear uma crise por falta de crise.

E ficava tentando agarrar-se a uma ponta qualquer de problemas do cotidiano. Solteiro, sem um pinto em casa com que pudesse preocupar-se para dar água, o caso parecia preocupante, até que teve a idéia do cachorro. Primeiro comprou toda a literatura existente sobre cães e como criá-los, tudo disfarçado sob o argumento da falta de segurança na cidade, o que chegava a convencer a todos, notadamente pelo que se divulga nos programas das rádios locais.

E quando, em seu trabalho, se iniciava a sessão de ocorrências caseiras, ele agora fazia parte do show. Um se queixava da mulher, outros dos filhos, outros da escolinha dos filhos etc., e lá vinha ele com o seu recheio canino:
- ... arrasou os meus canteiros e sujou de terra toda a área da varanda, mas a gente tem que ser tolerante. Fazer o quê, né? Dei-lhe um belo de um banho com shampoo e apliquei-lhe um antipulga – dizia com ar de preocupado feliz, para um certo espanto dos colegas presentes.

E assim foi que se tornou trivial a resposta da funcionária quando se perguntava por ele: “Ele teve que ir ao veterinário” ,ou, por vezes, “ Foi dar ração a Apolo, volta logo”.

Preocupados com essa situação e acostumados a tirarem de letra suas pedras do caminho, os seus colegas voltaram-se para esse caso. Tanto assim que em conversa com o veterinário acabaram descobrindo que o amigo havia passado todo o seu problema para o cachorro. Andava dizendo que o seu cão estava estressado, no que o veterinário diagnosticou o seguinte: excesso de zelo, pois eram muitos os cuidados que ele tinha com o cachorro.

Por isso é que, no final, os colegas não lhe foram solidários, quando apareceu pichado no muro de sua casa:
Troque seu cachorro por uma criança pobre

sábado, 11 de maio de 2013

Sem revelia



Sem revelia


naquele tempo
era como se fosse você o personagem principal
ou o ilustre espectador de primeira fila

tinha sem saber que tinha
não nas mãos
mas tinha
controle remoto da cortina que se abria
e se fechava


naquele tempo
você ainda estava no banho
ou dormia

e tudo esperava
até as estações do ano
para o transcorrer normal do dia

o café aguardava no fogo
o ponto exato
em sua xícara

as manchetes de jornais
eram meras publicações
do que você mais ou menos previa

e você por vezes era instado
a dizer mais coisas
do que viria acontecer

naquele tempo
dia de finados não lhe dizia respeito
e não haveria indiferença
a um minuto de silêncio
por você

Nei George Prado
Candiba, 13ABR1913