quinta-feira, 5 de junho de 2014

O mundo não se acabou



1.
o mundo não se acabou
as manhãs respingam em chuva
cantada hoje e outrora
discretos frutos em desvendados véus
as bombas atômicas sobre mim
não surtem efeito
se esgueiram
diante de minha Luz

2.
por quê o mundo chora
se há sorriso no amanhecer?

3.
há nos céus bordados de estrelas
que se despedem
para o Sol se impor

4.
por quê o mundo chora
se há sorriso no amanhecer?

sábado, 31 de maio de 2014

MARIANO



Seu Albertino, vizinho, pegou um; Seu Pedro Rocha pegou outro; vovozinha, que morava ao lado, ficou com uma mocinha,  e mãe resolveu apanhar um dos mais novos, Mariano. Os pais deles viviam só na irrealidade das coisas, tomando suas cachaças e cantando, com essa filharada.

Todos, grosso modo, foram bem conduzidos na vida. Mas eu quero falar de Mariano.

Mãe tinha um loja de tecidos e pedalava na máquina de costura fazendo roupas. A gente estava brincando e lá vinha mãe gritando por Mariano, para que experimentasse um calção que ela tinha feito. Mariano, um pouco mais velho que eu, não sabia ler mas escrevia, na verdade desenhava, pois que não sabia o sentido das palavras. E o principal que descobri nele foi a voz.

A cidade tinha um serviço de alto-falante, e Mariano, que tinha o hábito de ficar a morder a fralda da camisa que mãe fazia para ele, entre uma mordida e outra, cantava imitando Tim Maia, que era o som que rolava então.

Ele descobriu que eu gostava disso e aí começou a tirar onda de difícil. Eu gosto tanto de música que passei a pagar doce na venda ao lado de casa para Mariano. O verdadeiro Tim Maia perdia para ele, Mariano.


domingo, 18 de maio de 2014

Meu avô Osvaldo Pereira Dantas



Meu avô Osvaldo Pereira Dantas. Depois que foi embora bate na gente os lances de convivência. Simplicidade, bondade, honestidade – isso fica gravado em nós para sempre. Mas existem também os lances de humor, que envolvem o choque de gerações e de conhecimento da modernidade que se processa hoje em ritmo acelerado.

Vou aqui iniciar uma série de pequenos episódios ocorridos durante nossa convivência com vovozão (ele era graúdo), sub-titulando, conforme o caso.

O caso da TV

Para começar, vale esclarecer que quando Cid Moreira terminava o Jornal Nacional e dizia boa noite ele respondia boa noite. Um dia ali estava e fiz uma correção:

- Vovô, o senhor não precisa dizer boa noite, que isso é televisão: Cid Moreira não está vendo a gente.

- Mas meu filho, depois do homem dar notícia de tudo, do Brasil e do mundo, terminar o serviço, como é que a gente deixa de responder o boa noite?

Acontece que um dia ele estava na casa de meus pais e acabou maravilhado ao ver que a nossa TV era colorida. Procurou saber, vendeu umas duas vacas e encomendou ao genro de tio Zé Pereira – que transitava para S. Paulo - um aparelho de TV a cores.

Dedê Dantas, meu tio, tomava cerveja comigo, eu de férias, vindo da capital:

- Vamos assistir ao jogo da seleção do Brasil lá em casa – pai tá entusiasmado com a televisão colorida.

Pedi uma saideira  e outra.

- Vamos, que já tem dez minutos de jogo.

Fomos. O Brasil jogava contra a Suécia, com o uniforme número dois

Entramos, o jogo já em andamento etc.

- E aí, vô, como está o jogo?

- Ei, meu filho,esse timinho de azul tá pra matar nós.

O timinho de azul era o Brasil; a Suécia era camisa amarela.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Ao cantor e compositor Dedé Badaró




Dedé Badaró,
sua melhor canção
não é de sua composição
mas a que você canta, interpreta
toca
Teca

Candiba(BA), 20.03.2014.

Nei George Prado (Colinha)

domingo, 11 de maio de 2014

O menino passarinho I


Para Daniel da Silva Prado

Não era nem menino nem passarinho. Nada a ver.

Molhava as plantas de sua casa num certo dia e aí aconteceu.

Borboletinhas em volta no jardim do quintal, e aí aconteceu: elas, as borboletinhas, volteavam por entre as plantas, com festividade, num fim de dia.

Então surgiu um passarinho diferente, que pousou no pé de romã.

Como ele não se arredava, mesmo com esguicho de água da mangueira com que regava as plantas, aproximou-se, brincando:

- Ei, como é seu nome?

- Ramon – o pássaro respondeu de forma cantada, que ele entendeu.

Surpreso com a “fala” do pássaro, que não era fala e ele entendia, indagou:

- Por quê estou entendendo você?

- Porque você é um poeta. Olavo Bilac não conversava com estrelas?

- É, mais isso só na poesia...


O passarinho estranho deu uma girada de pescoço e respondeu: - Vem gente; depois eu volto – e saiu do pé de romã.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Jair Rodrigues, o artista




eu coloquei este título porque aqui na região
existe muito Jair
e inclusive dos Rodrigues
e é claro que eu quero prestar uma homenagem a ele
que tanto nos alegrou
como cantor
com suas interpretações
primeira qualidade
só que o principal de Jair Rodrigues
além da voz
era o astral
alegria
daí este registro
o sorriso dele, egoisticamente, eu guardo escondido para mim
mas acabo espalhando para vocês
como forma cristã
de dividir o pão

08.05.2014

sábado, 3 de maio de 2014

Paulo Sérgio e a radiola




Lá em casa, anos 70, havia uma radiola – esses meninos não sabem o que é isso e eu explico: era feito uma mesinha que tinha um rádio AM com várias faixas e um espaço separado para botar os discões tipo LP para tocar, que pai volta e meia trazia das suas viagens. A empregada vinha e passava na madeira óleo de peroba, que fazia lustrar tanto o tampo da radiola como a voz do cantor novo. Diferente. Chocante. Um novo Roberto Calos. Minha irmã mais velha logo apaixonou-se por ele, em traição a Roberto Carlos, cujo anelzinho de casamento a gente tinha comprado na loja da Dona Nida, em 1968, no maior entusiasmo.

Aí não era só lá em casa não. No alto-falante da cidade, no alto-falante do cineminha de fim-de-semana, no circo, só rolava ùltima Canção e outras músicas de Paulo Sérgio.

Eu passei a gostar meio escondido de Paulo Sérgio, mas quando  pegava na capa do disco do rei RC, ainda mais naquela época de ditadura militar, eu ficava com medo desse gostar – rei é rei, mas eu também o traí curtindo Paulo Sérgio e chorei o dia em que ele se foi.


E a radiola?